Skip to main content

Full text of "Reyno de Babylonia, ganhado pelas armas do empyreo : discurso moral"

LIBRARY 

Brigham Young University 

RARE BOOK COLLECTION 
Rare 





f 




Delrir inv. et- scxãp . t/^ jj • 







E YNO 



D E 



BABYLONIA, 

GANHADO VELAS ARMAS 

D O 




DISCURSO MOUAL, 

■ESCRITO POR \ 

LEONARDA GIL 

DA GAMA, 

Natural da Serra de Cintra. 

Offerecido ao Senhor 

FRANCISCO FERREYRA DA SYLVA, 

Cavalleyro profeíTo na Ordem de Chrifto, &c. 




* 



Na-Offi 



LI S R O A • 

einade PEDRO FERREIRA Inpreflbr da Auguftiffina Rainha RS. 

Anuo M. DCC. XLIX. 

^ ■•■■ *^ «aMHHPHMMMW MBMMM* a^^^^^^^ _ 

Çíw /^/ ** licenças fie cegarias. 









1 



■ í 












Pende-fe nó largo da Concuçao velha , nas 
èazas dos Religiofos do Carmo em todo Ji* 
ma , e outros livros curiofos* 



i, 



- 



,1 



• ■ I I, 



*K*. \. 



« * 



. i 






! 



• 



DEDICATÓRIA AO SENHOR 

FRANCISCO FERREIRA 

DA SYLVA, 
Cavalleyro profeíTo na Ordem de ÇhriítOj&c; 







: - : . 



* Agradável influxo da Beni- 



gnidade, quem animo de V.m. firmemente a fjifte 
me atrahio a hufcar na fita protecção levuro 
amparo a efie volume , que lhe ofereço, f em 
receyo, de que V.m. fe de por ofendido da limi- 
tação defta oferta; pois, ainda que pareça 
pequena na extenjaõ , he muy grande no affe- 
òto com que a executo , e inclue ( fegundo pú- 
bica o titulo y que lhe dà a fita dijcreta,'e 
tllujtre Jhithora ) na 6 menos , que a grandeza 
ae hum Keyno o mais opulento , e com as mais 
t e li ces armas conqui fiado; donde venho aper- 
Juadirme, que nem eu podia a V.m. mais ofe- 
recer , vem a minha obrigação podia bufcar 
melhor meyo,para gratificai o mujto que a km. 
me reconheço devedor; 



* 



A magnificência j ãefle livro r no titulo 
que lhe da a fua Authora , parece-me que fe 
acha desempenhada nos elegantes, e difcretos dif- 
curfos defla obra', pois bem parecem doEmpy- 
reo os conceytos moraes , que , com invencíveis 
armas de claros desenganos , forçofamente hao 
de deyxar vencidos, os que na Babilónia defte 
Mundo militao desenganados ; cauja porque en- 
tendo, que he efie livro muy fimilhante àquelle y 
que o Profeta Zacharias dijfe , que vio vir 
voando: Vidi , & ecce volumen volans , para 
*^" confufaô j ou maldição dos vicios: Et haec eft 
i j. ' maledictio ; para gloria das virtudes , credito 
v, 3» da Nação Portugueza, e luftre da família Será- 
fica, de que he illujtre filha ajua Authora. E/ta 
he a grandeza , e foberania da obra, que vefie 
pequeno volume a V.m. com attenciofa venera* 
çao ofereço , para que debaixo do feu feliz 
amparo poffa fer defendida da calumnia dos crí- 
ticos , e ejlimada dos difcretos , e doutos. Igual- 
mente pertendo, por efle meyo, mo/irar do modo 
que pojfo, o grande defejo, que tenho, de grati- 
ficar a V.m. ô muyto que mer econhe ço feu obri- 
ga do ^que certamente com muy extenfas exprefsões 
o referira {como ordinariamente fazem os que 
dedica/) livros ) fenaõ reconhecera a dificul- 
dade dèJÍ0 empreza ) bafta-me porem dizer, que 
o muy to , que a V;tn.\fou devedor , me impel- 
lio a pedir lhe , fe quizeffe dignar de confentir, 
que eu lhe dedicaffe efia obra-, a qual, ampara- 
da com ã fombra do Jew nome, e dos j eus illuf- 
tres apelidos dt Ferreyra , e Sylva, entendo que 
aparecerá no tfceatro do Mundo defendida dos 
golpes da calumnia , e habilitada , para que 

todos 



todos a leyao com ejlimaçao , e veja o comref 
peito. 

Bem fei , que quem coftttma dedicar hum 
livro , cuyda muy to em exaggerar a efclarecida 
nobreza , e Mu (ires merecimentos do fugeito, que 
ef coíbe para feu Proteálor ? e Patrono ; mas 
como reconheço , que tudo quanto ncjie parti- 
cular podia dizer , nao havia paffar de htima 
fimples narração, que, por limitada, mais havia 
de fervir de dezabono , que de elogio ■, me re- 
folvi a deyxar fepultado no filencio , o em que 
fiaõ poffb deyxar de Jer diminuto. Se eu pudera 
gravar em hum cingido todas as EJirellas, co- 
mo fez Saiam ao , ou debuxar em hum vefiido 
todas as flores , como dicerao os antigos , que 
fizera Júpiter , nao teria duvida em me ani- 
mar a fazer huma florente , e muy alta arvo- 
re, ornada dos illuftres ramos, de que V.m, def- 
cende ; nem também me feria muy difícil refe- 
rir as moraes virtudes, de que V.m. fe adorna', 
mas como nao me he pofftvel enveftigar empreza 
t ao árdua, ejubida ,nao quero , que efe dezali* 
nhado obfequio da minha tofca pemia ejcureça 
o efclarecido lujire da fua dejcendencia , e o re- 
levante merecimento das prendas, de que a fua 
pejfoa je acha adornada. 

O que fuppofo , corto pelas longas pagi- 
nas, que podia encher de feus louvores, fe me ani- 
ma ffe a referir a illuflre nobreza, de que V. m. 
Je pode Jem vaidade jaâlanciar , e os acerta- 
dos procedimentos , com que V.m. fe fabe haver, 
taõ fenhor àe fi , que pode fervir de exemplo de 
modejiia , e norma de prudência \ ca ufa porque 
me atrevo a dizer ? Jem receyo de parecer enca- 
recido , 



reciclo , que adquirio V. m. por forte , ou por 
providencia^ huma alma , que fe aefcolhejfepor 
eleição a tnao mais ambictoja , parece-me, que 
nao elegeria outra. Julgo f que ejle elogio vem 
para V. m. muy próprio , e entendo , que nao fe 
pode fnppor , que he nos palácios da lijonja 
fabricado. , pois Saiam ao o fez a fi mefmo. 
Nao. quiz Salamao jaâíanciarfe do Real fati- 
gue , que pulfava nas fuás veyas , nem da mag- 
nificência de fuás riquezas, domínios , e e fia- 
dos \ mas nao fe atreveo a calar a jaâiancia r 
que tinha de lhe ter dado huma tal alma a di- 
Sa.p.8 vina providencia j, Puer atitem eram ingeniofus, 
v * 9 * & fortitus animam bonam. Ifto que Salamao 
chegou de fi a afirmar , poffo eu de V. m. di- 
zer 9 fem receyo de que pareça lifonja r pois 
quem a V. nu conhece, naÔ deyxa de ter defia 
verdade cabal experiência : a que tenho do muy- 
to , que lhe fou obrigado, me excita afazer lhe 
offerta de fie livro , que a minha veneração lhe 
dedica; e ainda que nao ignoro ,. que ht limita- 
do obfequio , também fey, que o feu generofo a- 
ti imo, nao fe agrada tanto do procedimento da 
quantidade, como da qualidade \ poriffo efpero, 
que feja de V.nu bem aceyto , e também nao du- 
vido , que pondo-lhe os olhos do feu agrado, fe- 
ra de todos bem vifio. A pejfoa de V* nu guar- 
de Deos por muytos^ e felices annos, para que 
tenha a honra de me confejfar perpetuamente 

d F: m. 

Mais humilde venera dor 

Reynerio Bocache* 



LICENÇAS 

DO SANTO OFFICIO. 

Approiaaçao do M. R. P. M. Fr. Manoel do Rofari®, 

Meftre em S. Tbeologiafimfultor do Santo Officio^, 

e Cbronifta da Ordem dos Pregadores, 

EMINENTÍSSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR : 

NAaluzaõ , e parábola de huma ruftica Aldeai, 
com o fuppoílo nome de Angélica, conquif- 
tada a difvellos de hum Soberano Príncipe, 
defcreve a disfarçada Leonarda Gil da Gama, natu- 
ral da Serra de Cintra, a conquifta de huma alma, 
da difpotica, e impia jurifdicçaõ da infernal Ba* 
bilonia, para a Celeftial Jerufalem. 

Todo he parabólico, e alufivo , e todo igual- 
mente devoto, que difcreto volume, naõ fó pelo 
artefa&o, mas pelo Artífice, e foube, quem o fa- 
bricou , dar taó vivas cores a eíla parábola, que arre- 
batadas docemente as potencias , fe deixaõ levar da 
copia pelo original, e fe «amoraõ da mi feia fom- 
bra para feguir a luz. 

He çompilatiííimo eíle nome da famofa Serrana 
de Cintra, para eíle género de eferitos. Apenas fc 
lê na primeira folha de muitos livros, que hoje 
nobilitaó , e enriqueíTem a Republica literária, lo- 
go defperta novos eftimulos a Efperança , para en- 
contrar no volume huma difcretiílima aluzaô , ref- 
pirando fuavemente ternura, doutrina, e difcfiçaõ. 
Celebre nas Cartas geograficas,topograficas 5 e náuti- 
cas, conhecia eu atègora a famofa Sei ra de Cintra, naô 
i 7 



fó por conhecido Promontório aos Marinheiros*; 
mas por contribuir das fuás entranhas os mais pre- 
cioíbs materiaes às mais fumptuofas fabricas, Nos 
feculos futuros a fará mais conhecida a fua famofk 
Serrana nas Bibliotecas dos Efcrijtores, na memoria? 
que deixarem de feus diferetos volumes. 

Naó fei? como a curiofidade taõ própria da 
Corte y naõ tem levado a muitos a delcortinar as 
fuás penedias? com a Efperança de encontrar com o 
berço deita celebre Serrana. Mas jà me perfuado ? 
que aífim como Leornarda Gil da Gama defcobria 
fempre na fua? por mais que disfarçada Angélica, 
tantos refabios da terra hereditária do Campo Da- 
mafeeno? nam menos poderão occultar tam aífeíla- 
dos disfarces da Serrana de Cintra os refabios, que 
a inculcaó toda de Corte , para o defaobrir fem 
rebuços a Efperança. " 

Com furor Poético ? e naõ fó com picante ? 
mas fanguinolenta penna?efcreveo Euripedes? taõ dê* 
cíarado inimigo das mulheres , que depois de larr 
gas fatyras? chegou a dizer? que tudo , o que fe 
achava- eferito em defdouro feu por divef íos Authores? 
era ultima vontade fua ? que a elle fe atribui/Te ? e fó 
invejava?*a quem o efórevera ? porque de tudo o que 
diíle , e podia dizerfe?fó elle queria fer Author. Agra- 
deçalhe oíexo taô extravagante, como impiodefejo , 
e a alguns fectarios feus ? fe ainda os ha. Mas o certo 
he? que íe naó faz acredor a taõ irracional cenfura 
hum fexo ? que taõ largo aífumpto tem dado a copio* 
fos Cathalogos de Heroinas farnofas? naõ fó nos an- 
tigos ? mas nos modernos feculos? naõ fó nos eítra- 
nhos , mas nos próprios , e vezinhosPaizes. 

Ainda hoje Heípanha, fecunda May de grandes En- 
genhos? podendo gloriarfe de tantas Heroinas no feu 

COJl» 



Continente,foberba,e ufana fe ja£ta da fua celebre Soror 
Joannalgnezdela Cruz, de México , de engenho taó 
raro, que fe atreveu a entrar a duelo com o gigante en- 
genho do incomparável Vieira, e fe naõ roubou a Cla- 
va das mãos de Hercules para ficar com triunfo : Mag- 
nis tamen excidit aufis. 

Mas naó fe jade Hefpanha , que as Artes, e fci- 
encias faõ taô vinculadas ao influxo do feu terreno, que 
fe comunicaô das Aulas aos eftrados, das difputas, e li- 
terárias fadigas aos enleyos do efpelho , e almofada; 
epara quenaõ fique com aquella ja£tancia podendo 
Portugal formar luítroza eiquadra de difcretiííimas 
Heroinas, que enobreçam o orbe literário, fahe a cam- 
po a famofa Serrana de Cintra, cujo engenho culto, 
difcreto , pio, e doce , enfinando recrea,e períuadin- 
do fuavemente arrebata. 

Ifto he o pico , que a famofa Leonarda Gil da Ga- 
ma foube dar às fuás Obras, podendo delias Horácio 
corregindoo verfo, e mudando o género, para credito 
do fexo, efcrever, $ chagara nos íeus efcritos ao ultimo 
ponto : Omni tullitpunóíitm^ qu<e involvk utile dulci* 
E como nefte fegue o mefmo eítillo fem defcrepancia 
aos ápices da fé ,c confonancia aos bons coftumes , me 
parece digno da eftampa. V. Eminência mandará o 
que for fervido. 

Convento de S. Domingos de Lisboa 2 1. de Abril 
de 1746. 

Fr • Manoel do Rofario. 



m 



jfpro' 



Ap provação do M R. P. M.Tr.Tbomdz de Sao Jozê, 

Prefcntado em a Sagrada Theologia^Qiialijicador 

do Santo Officio s Diffinidor aâíual,Miniftro, que 

foy dofeu Convento cie Santarém, e do de 

Lisboa, érc 

EMINENTÍSSIMO, E REVER. SENHOR :] 

POR mandado de V. Eminência vi efte livro, que 
com o titulo de Reyno de Babilónia ganhado pe- 
las armas do Impirio intenta imprimir Manoelda Sil- 
va , Authora a celebre Leonarda Gil da Gama,natural 
da Serra de Cintra, e confeço a V. Eminencia,quelogo 
que reparei em tal nome, e em tal livro , aflentei, que 
nelle havia de achar algum thefouro preciofo, ainda 
que efcondido , e naó me enganei no meu difcurfo, 
porque tudo, quanto nefte livro examino, ainda que 
preciofo, he efcondido. He preciofo efte livro pela 
matéria de que trata; he preciofo pelo eftilo, que 
nelle fe admira •, he preciofo pela fraze , com que fe 
adorna \ e he preciofo pela Poezia , com que fe re- 
verte, porém fendo efte livro thefouro taó precio- 
fo, he também hum thefouro efcondido. He efcondi- 
do pelo nome da Authora , que fó em anagrama fe de- 
clara ; he efcondido pelo methodo, que fó em pará- 
bolas fe explica , e he efcondido pela terra, em que diz 
fe gerou, porque na alpereza de huma ferra fe disfarça. 
Mas que importa que efte thefouro moftre fer ge- 
rado nas afperezas de huma ferra , fe logo fe conhece, 
que tem a fua origem nas delicias de huma Corte? 
Que importa que a matéria defte livro feja toda enig- 
mática, c parabólica, íe a doutrina he muito clara, e 
fublime? Que importa que a fua Authora fe queira 
fazer ruftica 5 e Serrana, fe afama das fuás virtudes, e 

efcri- 



efcritos declara afuapefToa , fahia , eilluíhe. eàá a 
conhecer o feu nome por Magnifico, egloriofo ? Que 
importa, que a fua humildade a pertencia efeonder nos 
apertos de huma claufura, fe as virtudes, em que reí- 
plandece , a fazem luzir fora dos limites da melhor 
Efperánça ? Que importa finalmente ,.. que nefte livro 
tudo fejaõ enigmas, e disfarces, lenelle vemos clara- 
mente, como pelas armas do Impirio fe pôde ganhar 
o Rey.no de Babilónia, ou corno huma alma pôde ficar 
rendida aos afte&os fuaves do feu lifpofo Divino. 

Na Serra de Cintra ha pedras, fontes, e plantas; 
e aílim, fe a Authora quizer confervar defta Serra a na- 
turalidade , feja muito embora Serrana ; mas advirta, 
que com o feu engenho, e arte fe converterão as pedras 
tofeas em diamantes preciofos , as fontes de criítal em 
affluencias de fabedoria , e as agreftes plantas em fa- 
zonados frutos ; todos taõ bons , e admiráveis, quan- 
tos faõ os livros , que tem comporto , como excellen- 
tes partos de feu entendimento fecundo , os quaes ao 
mefmo tempo, que recreaõ as potencias, fervem de 
admiração aos fabios. 

Mas que muito, fe efta illuftre, e difereta Paftora 
fe ja£ta de ter na Serra de Cintra o feu aíTento, e folar; 
e quem tem tal aíTento , e tal folar , ha de fer necefla- 
riamente luzida , e exaltada. He a Serra de Cintra 
.chamada comummente pelos hiftoriadoreso monte,ou 
promontório da Lua, e quem tem debaixo dos pès a 
Lua , ou o monte da Lua ferve de íolar , ou aíTento , 
que ha de fer fe naõ huma matrona luzida, huma heroi- 
na exaltada, e luzida, como aquella mifteriofa mulher, 
quevioSaô Joaõ no leu Apocalypfe Cap. 5. Mulier 
amiâía Sole, &> Luna fab pedibus ejus , & in capite 
ejus corona fie liar uni duodecim ? 

Seja pois muito embora efta famofa Paftora natural 

**ii de 



da Serra de Cintra, que quando fe quer moftrarmais 
humilde, erttaõ fe vê taô luzida, como o Sol; taô fidal- 
ga , como as mefmas eftrellas \ e taõ exaltada, que a 
rnefmâ Lua lhe ferve de foi ar, ou trono :. ©cculte muito 
embora eftas luzes na parda nuvem de hum faval , que 
quando o Sol fe vê entre nuvens, entaô commuuica 
roais a£Hvos os refplandores : elconda muko embora a 
fua gloria nas brenhas de huma ferra , porque mal fe 
pode occultar , quem como racional Cidade eftà fun- 
dada fobre a eminência de hum monte: Non potefi 
eivitas abfcondi fuper montem pofit a. Matth. j. Diga 
finalmente que teve o íeu nafcimento na terra ; porque 
fempre no feu nome fe admira algua coufa da Gloria. 

E à viíla difto, que hey de dizer a V. Eminência , fe 
naó que efte livro he digniflimo defahir a luz , e de fe 
eflampar nos coraçoens de todos ; pois naó tem coufa, 
que offenda os dogmas de noffa Santa Fè, ou bons 
colhi mes, antes nelle acharão todos para a reformados 
coftumeshum grande incentivo y para a firmeza da Fè 
huma forte columna , para credita da Naçaô huma 
mortal gloria , e para o Catalogo das Heroinas Por- 
tuguezas mais efta fapientiílima Paftora. AÍIim me pa- 
rece : Vofla Eminência mandara o que for mais jufto^ 
.Trindade Lisboa 18. de Julho de 1746» 

Fr.ThomazâeSaSJofeph. 

Vidas as informaçoens, pode imprimirfe o livro de 
quefe trata, e depois de impreíTo torne para fe 
conferir, e dar licença, que corra, fem a qual naó 
correra. Lisboa 32. de Julho de 1746. 
Fr. R. Atencajlre. Silva* Abreu. Amaral. 

Almeida. 



• 



DO 



DQ ORDINÁRIO 

Appr ovação doM.P.M. Fr ey João de SaÕjozéy 

Monge Beneditino. 

. EXCELLEMTISSXMO,E .REV. SENHOR : 

COM a mais prompta obediência fhtisfaço exporá 
do o que finto em a matéria , que V. Exceiíencia 
me manda ponderar, e acerca da qual fe digna ou* 
Viro meu parecer. O argumento da Obra intitulada 
Reyno de Babilónia y julgo fublime; a nobreza, e 
gravidade, com quefe expõem, excellente. A allegoria 
jrroral , e afcetica leva confiante a difcreta penada 
excellcntiffima Efcritota> que judiciofamente elegeo 
eíle agradável methodo para combater o faftio do co- 
ração humano ,. ou defterrar a naufea, que alguns me- 
nos devotos confervaô aos aflumptos pios. Jà o gran- 
de Origines ideou r ou para melhor dizer amplificou 
efta maquina ( primeira fantefia do ímpio Luciano em 
difcurfo feguido ) valendo- fe do artificio allegorico em 
Ç o terceiro fecuto , com mais celebridade, que muitos 
l dos antigos Efcritores da Grécia , da Africa , e do La- 
8 cio : mas duvida-fe ainda fe confeguio vencer a dif- 
plicencia, ou fea augmentou, como prefume hum ju- 
diciofo critico. Naô enfaftia a preíente Obra, antes 
pela fuavidade de que eftà cheya, lhe fuccederà o mef- 
| mo, quele reprefentou a Apollo em os Ragualhos de 
| Trajano Bocalino. Prefentara-fe ao fingido Numen 
aquella decantada , e no feu género immortal compo- 
íiçaõ, p-Paflor Fido do Cavalheiro Guarini , e de- 
vorando-a Apollo, lambia os dedos , diz oSatyrico 
Eícritor. Com mais verdade, e fundamento difcorro, 

que 






que"offerecendo>fe ao publico efte livro \ como em o 
Apocaíypfeoutroa SJoaó para o devorar,gôftandoos 
Leitores de tanta efpiritual delicia, em o fuaviííimo 
compofto, experimentarão a doçura, que na linguaje 
pena do Evangelifta fe explicou em hum favo. Para 
mais fuavizar-fe concorrem as expreíToens lyricas, que 
contem: e era jufto que fe para o humano agrado.fe 
confpiraraó algumas penas Portuguezas , quaes fo- 
raó entre muitas as de Bernardino Ribeyro, Jorge de 
Montemayor , Francifco Rodrigues Lobo , nas Sau- 
âadeS) na Diana, e na Primavera , feaparaftem, e 
apuraiTem outras penas , em que excedefíe o pio ao 
profano. Aífim difcorreraó no feculo paliado em Hef- 
panha o grande, e efpiritualiflimo Varão Domjoaó 
de Palafoz compondo aquella artificiofa allegoria, que 
intitulou Pafior denochebuena , eo illuftrado efpiri- 
ío do Author do Dezeozo, que dizem fer hum myfti- 
co grande da Venerável Congregação de S. Jeronymo. 
Merecendo bem poreftacaufa a prefente Obra , naõ 
fó o nome de Celefte , como de outra perguntava, ou 
duvidava Eftacio,mas pelo obje&o o titulo de Divina, 
e fe fora decente , difTera o mefmo da Efcritora: diflera 
com mais razaõ, que do Ariefto a Italia;porque fe efte 
ufurpa o nome de divino , a pezar dos deslizes ,que 
afeàraó no Orlando os affe&os de Angelica,e Medoro, 
merecendo differente conceito a como exprimio com 
verdade , o pay da mentira por bocca de hum ener- 
gúmeno dizendo , ao entrar pela portada Igreja certo 
Ecclefiaftico, que trazia comfigo Orlando: Deixem 
vir o meu Sacerdote , que trás em o ceyo o meu Evan- 
gelho ( referc-o o douto D. Alamim ) a difcretiííima 
Serrana, que purific#os affe£tos de Angélica. , fazendo 
fe entranhe nos coraçoens aCeleftial Doutrina, com 
menos violência ufurparia oepitheto. Mzs deixados 

liipei boles, 



& 



hipérboles, defejara. unicamente a pena áurea, que 
Paulo Jovioaffirmava fabia applicar aos elogios para 
converter em o mais bem merecido acenfura, atten- 
dendo a que he taó delicado o rafgo da pena da Eícri- 
tora , que ignora a fombra dogroííeiro , por mais que 
intente acreditar-fe mítica montanheza , fendo para 
Pa/lora muito Cortezã, como do Paftor Fido efereveu 
hum engenho. Eu bem fei, que a loledade he amada 
dos efpiritos contemplativos, e que refpira , ou inf- 
pira hum naõ fei que , aííim fe explicou o Ovidio da 
companhia de Hermario Hugo : mas fe a Authora fe 
à\z Serrana fera no affed o , que em effeito,, e realida- 
de tem muito de Corte. Emfím íeja o que for , eítilo 
taõ cortezaô he de terra, que vê Palácio. Eu me per- 
iuadira que o templo de Cynthia, que deu nome ao 
Promontório da Lua mais celebre do que o fervir de 
baliza ao Mundo, de termo ao Occeano, podia pela 
eminência fercaza regia do Sol, mayormente fendo 
hoje convertido o monte' em Parnazo , mas a celefte 
Urania , que influe a pena da Efcritora naÓ fei fe oceu- 
pa outro monte. Em o de Cintra fazem ecco ns vozes 
defta Serrana , e naÓ he a r primeira vez, que em os 
motes fizeraõ ecco as vozes de hua defenganada em ha- 
bito penitente, refpeitada em todo o Mundo com o ti- 
tulo de Mngdalena. Affim infpira em claufulas fonoras 
o defengano, arruinado os muros de Babilónia com vo- 
zes , quando edifica outros com harmonia. E fe a Con- 
quifla do Reyno he fua , como de feus mayores foi 
muito particularmente aReftauraçaÔ do nofíò , deva 
o Mundo a efta pena o que deveu Portugal a huma ef- 
pada, ereconheça-feoimpulfo mais nobre, ainda quan- 
do herdado, derivando-fe também pelas veyasa da ■ 
Poezia , hereditária por fua diferetiffima mao , Gifne 
que admirou fufpenfo o pátrio Tejo nas ribeiras, e de 

que 






que conferva diftinta íaudoza memoria. Nem õ Pay, 
que efcolheu por vocação, deixa de influir,porque tam- 
bém Saô Francifco de Aííis naõ íó efcreveu em proza , 
mâs augmentou o numero dos Santos Padres, que exce- 
dendo o cumputo de cem, enobrecerão as numerofas 
poéticas expreíloens. E contando a fua Venerável di- 
latada família, do feculo treze atè o principio do pre- 
fence, féis mil Efcritores , e trinta e três Efcritoras, 
como obfervou hum erudito Monge de S. Bento, glo- 
riofamente fe vê augmentado o computo nefta idade. 
Finalmente a nobiliíhma Efcritora , ainda quando en- 
cobre o nome por occultar a Gloria, que lhe refultaria, 
pode gloriarfe de que efcute Portugal em a efclarecida 
Religião Seráfica Penitente, huma vòz taó fonora, e 
taô clara, naõ tendo que invejar a nofla Corte à de Pa- 
riz a harmonia, com que efcreve em profa , everfo a 
Religiofiílíma Senhora Soror Magdalena de Monte- 
mar, filha do Excellentiffimo Duque deite -nome, e 
Monja Beneditina , que modernamente renova em 
França o efplendor, com que contribuído à mefma Or- 
dem em fette volumes Soror Jacquellina Bouette de 
Blemur em o feculo paflado. Outros tantos Caõ os vo- 
lumes, que a dií creta Serrana tem comporto , de q eftaô 
feisimpreífos, pareceme por credito da Naçaõ pode , 
e deve V. Exceli, concorrer, para que com brevidade 
veja o (étimo a luz publica, e para que tenhaó as co- 
lumnas da caza da fabedoria cada huma pendente hum 
trofeo, e as maravilhas do Mundo, em que entràvaô os 
muros de Babilónia, à vifta o desengano. E como para 
efte fe encaminha a Conquifia , e para a poíTe da celef- 
tial Jerufalem a Efperança , julgo naõ ter coufa contra 
a Fè, ou bons coítumes. V. Èxcellencia mandarão que 
for fervido. S. Bento da Saúde 3. de Agoíto de 1646. 

Fr. JoaÕ de S. Jozè 
Manje Benecliôlino* 



Pode-fe imprimir o Iivro,de que fe faz mençaõ,e de- 
pois de impreíTo torne para fe conferir , e dar licença 
para correr. Lisboa 9. de Agofto de 1746. 

Mello. 



wmBmmamMK9n*mÊÊumÊmmimmmKwmmmaa»mHmmuÊmammmKmr< m.m)}íi. ■ — — 
1 1 - i p *^ 

DO PAÇO- 

r /lpprovaçaõ do M. R. P. Dom Caetano de Gouveãj 
Clérigo Regular da Divina Providencia^ &c. 



SENHOR: 

EStaobra, que Vofla Mageftade me manda ver; 
naô contem coufa alguma contra o feu Real fer- 
viço. VoíTa Mageftade ordenará o que for fervido. Lif- 
boa nefta Caza da Divina Providencia 22. de Dezem- 
bro de 1746, 

«D. Caetano dt Gouvea y C. R, 

QUe fe pofla imprimir, viftas as licenças do Santo 
Officio, e Ordinário, e depois de impreíTo tor- 
nará àMeza para fe conferir, etaixar, edar licença 
para que corra , e fem iílo haó correrá. Lisboa 7. 
de Janeiro de 1747. 

Âltmjda. Carvalho. Mourão. 



xw^ 



PRO- 



AO L 






A 5 quando a minha pena começou a entretera 
minha malancolia, na applicaçaõ defte pequeno 
volume,foy trazendo h memoria mais a tua cen- 
fura , que atua piedade, mas quemefcreve fem 
querer liíbnjas do applaufo, nam teme a critica, nem 
fe alvoroça na Efperançado louvor. 

Naõ eícrevi pelos difames da fciencia, que a don- 
de a curiofidade fóhe a caufa , ficaó detculpaveis os 
erros da ignorância, e podes, ou malévolo, ou bem in- 
tencionado , criminar , ou naó arguir , que hum ani- 
mo triíle bufque no que ignora, o remédio , quando 
no a que fe expõem, leva o mal a que fe arrifca, certo 
na ponderação de quem o condena. 

Bem fey, que difcurfos fem a utilidade acham 
contrario o juizo, que os examina; mas quem como eu 
fe paga de negarfe algumas horas às próprias imagina- 
çoens , naó applica a memoria aos golpes da calumnia, 
ienaõ ao que pode fuavizarlhe o animo, como fe jufti- 
fica nefta curiofa em preza, dequeíe difíeresmal, iem- 
brate do que te expõem aos olhos o mifteriofo das pin- 
turas, e nunca ficam de morte cor as eftampas, quejà 
ievam reítas as primeiras linhas. 

VALE. 



Em 



Em louvor âa Authora. 
ROMANCE ENDICASILABO. 




UTRA vez temerária a muza intenta 
Elogiar aquelle raro engenho, 
A que todo o louvor defigual fica , 
O que igualar naõ pode algum conceito, 

«Mas defculpeme a meíma remontada 
Esfera, a que a toíca pena eleve, 
Que nunca prohibido, mas louvável, 
Será fempre ter altos penfamentos. 

Por efta Obra fexta em tudo prima 
Ficaram em perpetuo efquecimcnto 
As que de hum Polo a outro divulgado 
Tem do clarim volante os claros ecos. 

Naõ digo fcs finco, que lhe precederão 
VoíTas , mas íim as outras com que ao íèxo 
Illuílràraõ aquellas Heroinas 
A que jà erigio a Fama templo. 

A todas ellas digo, e diraõ todos 
As ventagens levais com tal excedo, 
Que ainda as mais fabias pelo fer parece 
Seguirem íó os voíTos documentos. 

Prodígio , que finge a antiguidade, 
Das doces lyras de Amfiam, e Órfeo, 

\Que dos bofques as feras atrahiam , 
Que andavam para ouvilos os penedos. 

Grande coufa parece , mas já hoje 

Se vê que nada foy, e he muito menos 
Do que voíTa pena os rafgos fazem , 
Naõ as pedias, as almas íuípendendo. 

*** ii Naõ 



Naó fufpendais os voos Águia Regia^ 
A luz naô efcondais claro luzeiro, 
Deixai , que gyre, e que admirando illuftre 
Os próprios , eoseftranhos emisferios. 

Levantai, levantai em mais efcritos 
Novos padroens , que ao voíTo nome eterno 
Façaô nefta, e em todas as idades 
Da Pátria gloria fó Leonarda fendo. 
De Dona Joanna de Noronha e Nápoles. 



Ao mefmo ajjumpto 

SONETO. 




AL o eftampidohei o engenho ardente 
Da voíTa erudição fempre aplaudida, 
Que para JJabylonia fer rendida 
Baila que vòs fejais quem a amedrente 

Com armas do Empyreo preheminente 
A* campanha fahis, e quem duvida, 
Que fendo impulfo voílb , renda a vida 
A tneíma opofiçam irreverente. 

Sahis a conquiftar com tantas galas 
A necia confuzam da Babel forte, 
Que o Sol fe alfombra em íuas Regias falas. 

De ver quando empenhais com feliz forte 
O efeudo , e pena da fermofa Palas, 
Que vos cede trofeos a eterna morte. 

D. F. J. D. C. 

Em 



Em louvor da Authora. 
ROMANCE HERÓICO. 




___ Outa Heroina, venerado aíTombroJ 
Cujas prendas gentis raro talento , 
Deixam em doces extafis do pafmo 
A nobre perfpicacia dos engenhos. 

Ao mundo todo jà illuftrado tendes 

Com lábias producçoens , altos conceitos^ 
Vencendo as hydras de obílinados vicios 
Hercules douto voílb entendimento. 

Sam os voíTos efcritos íimulacros , 

Que por votos pendura no feu templo 
A fama , que em armonicas cadencias 
Vos fblemniza aflbmbro com feus eccos. 

Efta pois remontada nos feus voos 
Vos applaude felix por boçcas cento,; 
Cujas excelias vozes tem durado 
O circulo felix de todo hum evo. 

Voílb nome Sibila L\izitana 

Concilia no mundo hum tal refpeitoj 
Que bafta ouvirfe nelle o nome vofíb j 
Para de adoraçoens fer digno objedlo. 

Com as armas felices deíTe Empyreo 
Subjeitais Babilónia ao voílb império, 
De cujo vencimento ides formando 
Hum a coroa immortal, augufto império. 

A efte douto livro o mundo pôde 
Tributar oblaçoens , votar incenfos ; 
Porque outro facrifico menos nobre 
l^aõ fora culto , fora facrilegio. 

Sò 



Sò vos, e maií ninguém, deite fagrado 
Allumpto explicais os myfterios *, 
Que progreílbs , que em tudo faô heróicos, 
Sò com elles lidar fabem protentofos. 

Huma alma em cada claufula difcreta , 
D^fte volume a fufpenfoens aberto. 
Lhe infundis para as glorias do triunfo , 
Fazendo eterno o próprio vencimento. 

Tanta conquiíta a voííb pulfo eftava 
Refervada; porque nelle eftou vendo, 
Do nome aquella gloria transferida 
Que o Ceo lhe deftinou para efte emprego» 

Se ainda exiftira Babilónia antiga, 
EíTe de Simiràmis trono excelfo, 
Mais , que daquella os triunfos, celebrara 
Por mais altos brazoens voffos tiofeos. . 

A forte maravilha de feus muros , 

Seus viftofos pensís mais que do tempo 
Defla voíTa conquifta o impulfo raro 
Ruidozos buftos jà de fi meímos. 

Todo hum Ceo animais para efte, eftrago , 
E em cada idèa lhe infpirais hum incêndio: 
Que mais gloria pertende aquella ruina, 
Que ver divinizado o rendimento? 

Dita da pátria fois , do raciocínio 
Illuftre fempre venerado cxceíTo,' ^ 
Devendo Licia mais triunfos nobres 
Alais, que as armas, a voííb entendimento, 

Voflbs eferitos faò os feus thefouros; 
Mais preciofos , que os do lidio creíTo ; 
VoíTa vida fua gloria, e o mundo todo 
Inda em fua extenfaô eftreito templo. 

Do Doutor António JozéPeJlcmã, 



A> Senhora 
LEONARDA GIL DA GAMA. 

SONETO 



V 



Alentona guerreira , e prefumida , 
Meya comporta, c meya defgranhada, 
Sem efperar de todo eftar toucada, 
Simiramis fe aprelfa enfurecida, 

Nao por Babilónia eftar perdida 
Cidade lua , bafta haver cercada 
Monta, capitanea, leva a efpada , 
Foge o que a cerca vendo-a deftinada* 

A Babilónia conquiftar nao pode 
O bárbaro por mais que empenha tudo ; 
Mas oh que as armas efcólher nao fabe. 

Soube efcolhelas , e fem muito eftudo , 
Leonarda., e aííim triunfa, pois lhe acode 
O Empyreo com lança , efpada , efeudo. 



De hum cego com víjla. 

Ao 



Ao mefmo ajfumpto 



SONETO 




Roftrado hum Reynoob ferva o entendimento; 
O Ceo vencido aqui moftra a memoria ; 
Porque da Gloria hoje he a vitoria 
Muito mais, que do Empyreo o vencimento. 

Efte a impulfos do teu gigante alento 
Do Ceo à força aquelle, diz a hiftoria, 
Mais he fer triunfo hum Ceo da tua gloria^ 
Que a terra fer trofeo do Firmamento* 

Efta acção deixa a terra prefuadida 
Quando com tuas obras ocupada, 
Que mais vive a fama jà efquecida.' 

De maravilha eflàs juftificada. 
Quando, fó na Efperança introduzida 
Jà tens em premio a Gloria anticipada. 



De bum principiante. 

Ao 



Ao mejmo afumptê. 

SONETO 

..„.*' , «. . ..... 



.<■ 




IL_# A cega Babilónia jà fe admira 
A confuza defordem regulada, 
Somente tua pena illuminada, 
Luzes em tanto horror introduzira» 

Sem poder fu bir mais, vío que fubira 
Por ti , do Empyreo a altura remontada'" 
Quando na facra empreza decantada * 
Mais floria a íua gloria confeguira. 

Babilónia naô julga por violência 
A conquifto ; pois vê na douta hiftoria, 
Que elevaçoens deveo à decadência. 

Das armas do Empyreo crefce a gloria, 
Bufcando por parcial tua eloquência, 
Para a fama igualar com a vitoria. 

De jfoaõ Manoel de Me/h. 






-'- 



Em 



Em louvor da /íwtfarã compondo efte difcreto 

livro. 




ONETO 



- 








Abia Minerva, que de Apollo a lyrH 
Celebra acorde tua invióta fama, 
Prodigio de Caftália hoje te aclama 
O difcreto furor, qije a, ti te infpirai 



r *% 



Única Phenix , que na ardente; pira, 
Batendo as azas tua muza inflamma , íj i 
Do alto pindo aquella verde rama , 
Que cultos, rende, quando mais te. admihk l 



ji- . 



Tanto remontas 'teu cànòro alento:, 

Que deííe Empyreo as forças igu^landof 
Triunfos alcança o teu entendimento, 

Em Babilónia os erros conquiftando , 
Te confeíTa da gloria novo inventa 
O Sol, que a Esfera vay alutoiando. 

De Henrique Félix Mal4ona4o> 






£, 



Em 



Em applaufo do livro intiuilado, tteytw de 
Babilónia conquijiado , pelas armas do Em» 
pyreo \compofto por Jua Authora a Senhora 
Leonarda Gil dá Gama , e he Jexta obra 
fua. 






ROMANCE 




ammmmmm ^ O Mundo na fexta idade 
Correndo apreflado gyro, 
Por terminar no ocazo 
Là defle final juizo; 

Deíle infalível letargo 
Donde a fé he obje&ivo , 
A certeza defle quando 
Sò pertence ao infinito ; 

Das Efcrituras fagradas 
Na6 confia o termo perfixo, 
Como naõ repugna a ellas, 
O poder eftar propinquo ; 

Comofaõ da Omnipotência 
Arcanos todos Divihoá , 
A providencia increada 
Là referva os feus abifmos; 

Porém como de abeterno , 
EíTe DeosUao^e Trino, 
Dos poífiveis em -a máfia 
Tinha os mortaes previ fio: 

Portentos do ku poder 
Obrou, nas idades, cinco, 
Que fe terminarão quando 

**** ii Naf- 



Nafceo, o Rcdemptor Chrillo; 

E por Decreto abfoluto, 
Em a ley da graça, digo 
Em efta fexta idade : 
Mais oftentou íeusprodigios 

Sendo entre elfos todos 
O perclaro,e peregrino, 
De huma Magdalena Santa , 
Qjie os pès de Chrifto ha ungido^ 

Porém outra Magdalena 
De quem falia efte elogio, 
( Leonarda Gil da Gama ) 
Da Gloria , anagrama, affirmo* 

Foi defempenho da graça 
Haver efta luz nafcido 
Com taõ foberanos dotes, 
Naturaes, e adquiridos \ díIsO 

Para illuftraro Orbe 
Com feus rayòs taô luzidos? ; 

Quantos faó os cara&eres, 
De feus immortaes efcritos ; 

Dando á luz finco volumes 
Taó diícreto , e eruditos, 
Como os publica eíTa fama 
eom feus çccos repetidos \ 
Em efte fexto tratado , 
Tanto requintou oeftilo, 
Quanto a matéria elevada 
Pois faó rafgosdo Empyreo> 
% E com armas taô celeftes, 
Bem fe vê ficar vencido, 
O Reyno de Babilónia 
Com taõ portentozos tiros. 

E fendo de Babilónia 
Os murosjfexto prodígio , 






Mayoff 



Mayor maravilha acha, 
No aflumpto deite livro: 

Pois com tanta elegância 
Defcreveosfeusaforifmòs, 
Que de Palas as fciencias, 
Parece as tem exaurido; 

E fe choveo graõs de ouro, 
Poraquella haver nafcido, I 

Orvalho de Diamantes \ 

Chovem defta em feus efcritosi 

As fciencias em Athenas , 
Aquella , lhes deu principio; 
Porém efta em Portugal 5 
Goza o nome identifico, 

Graças ao pay das luzes, 
Com louvores repetidos, 
Se devem dar: pois nos deu 
Divinizado juizo ; 

E eíle jardim de Clara 
Donde florece efte lyrio, 
Aclame 'eternas ventajes 
Na poffe de tal prodígio ; 

Pois fendo,como fe oitenta 
Angélico Paraninfo, 
Saô feus Dogmas, fó as armas, 
Com que vence , là do Em pyreoj 

E gozando cà na terra 
Tantos lauréis merecidos, 
Vos efpera eterno premio* 
No celeíle Paraizo j 



. 



SO 



Em louvor do Livro, quefe intitula, Babilónia 
conquijiada pelas armas do Rmpyreo. 



SONETO. 




JM fim , já Babilónia hoje domina 

Melhor triunfo em teu íublime fado , 
Se a foberba erigio efle alto eftado , 
A humildade to aflegura na ruina* 

Conquiftada te vez por m$õ Divina 
Aílumpto deíTe Empyreo venerado;/ 
Se huma pena te tem fó cpnquiftado i 
Se naó temefte o Heroc , teme a Hôroina- 

Sempre foraó as armas da eloquência i A 
Por mais, que débil fexo as efgrerhifle^ 
Triunfo , que íe vio fem contingência* 

Quem efte livro eícreve jà o predifcer 
nos termos iiiajs,difcretos da vehemencia.p 
Nas obras dá virtude , a mais felice. 



i 



r-~\ 






D. F. X, B. 

; i I ' I 



I 



Religiofiflim£ , &> Ittnflrtfpm* D. D. Magda* 
kna à Gloria libriim, Regnum Babylonise, 

in Incem d anti. 



EPIGRAMMA. 



XN Une feio cur muris Babylona Semiramis urbem 

Co6tilibus einxit , ne foret afta folo. 
Senferat hascTurrris, (*) quse furre£hira fuiíTet 

Virtutem , timuit quòd Babylona premat. 
Nec ílbi tunc lufít venturi triílis imago ; 

Nam Babylon Regnum, Turre agitante, cadit. 
Spequemanum validam fírmante per aethera fpargit. 

Pro telis calamos > quosbeneTurrisagit. 

m 

Magdalena 

ád eít, Tur- 

ris Apud k 

LauiccuiDi 

F. T. A. M. B. O. 



Em 



/ 



( 



- C 



! 



SONETO 




E o voflb alto, e fútil entendimento, 
Em louvar a fi próprio fe empenhara, 
Pondero , que de abforto , defmayara ; 
Por faltarlhe expreflaõ o penfamento: 

Fique pois, a pezar do efquecimento, 
Simulacro Divino, luz preclara, 
No templo da memoria , em fublime ara , 
Imagem vofla, em lamina de argento. 

E por mais aplaudir voffas memorias; 
O Mundo vos erija eternos vultos; 1 
Pois naó cabe na esfera das hiílorias: 

Se os próprios penfamentos , por ocultos , 
Na-6 vos immortalizaõ tantas glorias , 
Sirvaõ próprias eílatuas para os cultos* 



Manoel António Cajtelo Branc*. 

***** Q 



O DOUTOR ALBERTO DE AZEVEDO 

\ COUTINHO/ 



Medico Lisbonenfe perfuadio à Excellefttiffimci 
Authora a impreffao dejle livro* 



.1 




kJI E as ambiçoens, que deixarão teus eícritos^ 
Valias forem para os feus progrefTos, 
Comece novo teu ideado aiFbmbro , 
Porque -rei pire a fama r gema o prelo.: 

I i i. 

Se de outras produçoens na fé fe adora 
Eda, que illultra as aras do fegredo , 
Que aplaufos naó terá na voz da fama í 
Se lhe fobra o rumor para o refpeito: 

Logrem-fe em teus acertos repetidos 

Inda mais os difltames y que os myfterios J 
Qjje à$ heróicas imagens do difcurfo 
Kaõ baila o culto fó do fofrimento. 

Senaó derem cara£ler de doutrina 
Rudes imitaçoetis aos teus defvellos l 
Bafta que fe aproveite nos adombros 
A copia inimitável dos exemplos. 

Multiplique-fe em tantas da eloquência 
Imagens puras teu divino engenho, 
Que no numero a fama confundida, 
Atè faça elogio o efquecimento* 

Defa- 



Defatem-fe as Caftaliâs eruditas 
í De teus fecundos immortaes conceitos; 
Por mais, que as eleiçoens fiquem preplexas 
Na affluencia feliz dos penfaroentos. 

Veja o Mundo, que em chamas de outro Apolo 
Acendes douta a luz do entendimento , 
Negando-te ao furor em que cobarde 
Na injuria da razaó fe afiiiia o puifo.' 

Prenda a Hercúlea cadeya , que officinas 
Com vozes de ouro efcandalofo obfequio, 
Com que a vaidade em viQrimas de fumo 

, A cerimonia infama dos incenfos. 

Poílrem-fe jà de Babilónia os muros 
A valente efficacia de teus eccos , 
E melhorando os mármores, que eflragas^ 
Dos pedaços de horror fabrique os templos,, 

JMss naô 1 perofe embora nas rumas 
O mefmo altar do dezengano auftero 
Naô ache(inda que grite a fé da hiftoria) 
Sufpeitas de Babel noeftrago o medo, 

Rayo de luz vibrando de Minerva , 
Ainda as cinzas lhe confuma o zelo; 
Porque até na memoria da vaidade 
NaÔ tenha elequias tanto horror foberbo. 

Os pedaços da Aurora , com que o fauílo 
Fez em jafpes porfanos peneis bellos, 
Aras feraõ ao deíengano fanto : 
Pois íaõ lifonja efímera dos ventos/ 

Mova 



Mova animado jà do furor fabio # 

Teu pulfo as armas do fagrado império \ 
Pois fe handem defatarem teus applauios 
As línguas, que confundem o feu receyo. 

Rcfpeite eíTa eloquência foberana 
Infames crimes do accidalio pezo , 
Reduza à fria original efpuma 
Do altar do vicio idolatrado incêndio* 

Percam nefles di&ames eruditos 
Tibias difculpas obíiinados erros, 
Que enfraquecido na cautella o golpe i 
Nunca defgraça pode fer fucceffo. 

Leam jà teus efcritos elegantes 
A inveja , o pafmo , a memoria , o tempo, 
Que impaciente já fe reprime a fama 
Em lábios immortaes, bronzes^ e alentos. 



* 






*"i 



Em 



Em aplaufo da Excel lentifftnta Authcra. 

DECIMAS 






I. 



c 

X^ Om èfudiçoens Divinas, 
Ornada de invi&as palmas, 
Para edificar as almas , 
A Babilónia arruinas; 
Para a foledade inclinas 
A tanto efpirito; a taíieò, 
Que hc Corte o deferto fanto-, 
Pois , a Thebaida eftragando , 
Nova Thebas vay formando 
A fiança d® teu canto. 



*, 



COmo naô tèràs vitoria 
Do mundo contra o dilirio, 
Vibradas armas do Empirio, 
Pelos impulfos da gloria: 
Honrem templos da memoria 
Os triunfos da eloquência ; 
Pois mal terá refiftencia 
Quem , para alcançar trofeos , 
Movendo as armas dos Ceos, 
Moítra fer inteligência, 



3- 



n/V 



£ 



D 






OS afcendentes divizo, 
Que em ti renafce o efplendor, 
Se os trofeos do feu valor 
Continua o teu juizo ; 
Sem duvida foy percizo 
Tanta heroycidade herdada, 
Sempre a vencer coíturnada, 
Porque aparafles agora 
Tua penna vencedora 
Na íua triunfante efpada* 






4* 



T 






Ua difcreta paftora J 
Será de Cynthia na «fphera^ 
De quanto o vicio fez fera, 
Vigilante caçadora ; 
Por bella , por vencedora 
Do mundo, que impio fluóhwvaj 
Sendo, na influencia tua, 
Dos dezengaoos farol , 
Fará coloífos do Sol 
Os promontórios da Lua. 

F. J. R. 



\ 



. 



SO- 




Em louvor da Authora. 



ONETO. 




E flor , fie luz, he Sol de ardentes rayc } 
Senhora , voflb engenho peregrino , 
Mais que humano parece íer Divino , 
Explendor, que eftà dando ao Sol defmayos,, 

Com vofco a Tua luz, faõ fó enfayos , 
Que competirvos fora impulfo indino, 
Se he íb de voíras Aras culto dino , 
Aílros rendidos, florecentes Mayos. 

Gloria da pátria íois fabia Heroina , 
Se o nobre fer a vos ferve de efmalte, 
Do Régio fangue vòs fois croa dina. 

Vivei , e voíTa fama o triunfo exalte , 
Quando aplaudirvos leu clarim affina* 
E defia gloria > a gloria íe dilate. 



Francifco Venâncio de Sà 4 * 



I 



; 

. i íl A ■ 



i H 






Capitulo i , < 




Par. i 







J- M. J. 

REYNO DE BABILÓNIA. 

GANHADO PELAS ARMAS DO EMPYRiO, 

DISCURSO MORAL. 









v^i 






GA PITULO I. 

Primeiro impulfo da Alma, que je acha per* 

dida na noute da culpa. 

EX PO SIC, AM. 

- Perdida jà na noute do defcuido 
Angélica fem luz nos defcâminhos; 
Amor , que a deftinava a melhor dia , 
Luzes lhe dá , que aclarem feu perigo. 

. , . 

M valle confufo, povoaçró da anti- 
ga Babilónia , fe creou huma Aldeãa 
terrena pela natureza, mas Celefte 
pela formofura, fem que o humilde 
do nafcifnento cortaíTe as altivezcs do génio , 

A antes 




z Reyno de Babilónia ' 

■antes da groíTaria di terra brotavaõ os efpi- 

nhos daquella prefumpçaô, que coíluma fer 

eíirago do conhecimento, fepultado na vaidade. 

A ., Sabia Angélica 1 (que efle era o nome da Al- 

A Alma A->\r l r • n 

cteaa) que era formofa , porque com o crifta- 
lino efpelho das fontes coftumava confultar 
os extremos da bellezi , para efquecer-fe dos 
perigos de deíVanecidi. Pôz nella os olhos o 
filho do fu premo Emperador , e afFeiçoado aos 
feus agrados, achou , que era pouco para con- 
quiílalla , dar por ella a própria vida ; e dif- 
farçando a grandeza do feu poder , nada preza- 
va tanto como pertendella para Efpofa. Co- 
meçou a fazer alarde das finezas, avaliando 
em pouco para acreditallas , trocar o Sceptro 
pelo cajado, pelo burel a Purpura; e as ro- 
ías, com que a Imperial Coroa lifongêa , pelos 
efpinhos , que magoaõ , fogeitando o feu do- 
ininio a padecer por amalla , tudo que da Ma- 
geftade defdizia. 

Communicou-Ihe o agigantado do feu a- 
mor , dizendo-lhe a deftinava para o brilhante 
diadema de Rainha , fe foubefle conrefponder- 
lhe fiel , quanto elle amiva defvellado : pro- 
poz-lhe o melindrofo recato, com que havia te- 
.mer o feu ciúme, que atè dos rayos do Sol 
naô queria fialla, e ainda fem a fegura confi- 
ança da fé, com que ella havia refpeitallo, 
começou a enriquicê-la v adornando-a das Joyas 
mais. nreciofas dos feus thezouros , dando-lhe pa- 

tude ir " ra a ^ft'" a fi QiS companheiras , que a todas as 

horas lhe acudiílem , e hum dos mais confí- 

Anjoda c i ente s dos feus vaíTallos* Pagava-fe de vê-la 

^ !da < Senhora, 



Ganhado pelas armas do Ewpyrio. 3 

Senhora , por mais que conhecia nclla incltaa- 
goens de humildade. Amava enternecido , allif- 
tia defvelhdo, difUmulando com piedade os 
defeuidos , em que a achava efquecida por ingrata, 
apurando nos benefícios, com que a favorecia^ 
os exceflbs de amante , e as liberalidades de 
Monarca. Naô a perdia de vifta , ainda que ella 
fabendo que o tinha à vifta muitas vezes emíi 
fc perdia. Afiim continuava a deíigualdade do 
trato, fem que no Príncipe desfaleceíTe o cari- 
nho 5 nem em Angélica íe affinafie mais o cui- 
dado ; que como tjnha aprendido no tofco ele- 
mento da terra a dar abrolhos por flores, pa- 
gava as ternezas com deívios , lem bailarem a 
mudar no Príncipe os ^fíèctos. 

No campo lhe mandava no encendido 
das Rofas embaixadas 4p -abrazado do feu cora- 
ção , e nos efpinhos retratos dador, que occa- 
iionavaó osfeus errados peníamentos. De ncu- 
te a defpertava na luz. des Eíhellas , para que 
reprefentada nellas a fca amorefa paixão, naó 
adormeceífe *o < agradecimento , defeuidado do 
fobido preço da divida. Falava-lhe fem voz na 
frafe dos extremos,, e achando- a fem atendei- 
los , naõ deixava de repetillos j que efta he a 
condição do verdadeiro amor apurar-fe mais 
quando he mayor o aggravo. 

Huma noute , em que nos focegados palá- 
cios de Morfeo , detida nas apparentes felicida- 
des , que em íombras lhe reprefentavaõ os hu- 
manos fentidos , quando nos falfos bensfeoc- 
cupaó defvelkdos, fe achava Angélica íem me- 
moria das obrigaçoens do nome , e lembrada 

A ii íó 



4 líeyno de Babilónia , 

Iodas fantezfas, com que o fomno a perfuadia áè 
im mor tal, começou no theatro dos feus penfa- 
mentos a repreíentar a fabula das perfeiçoens, 
de que a adornara a natureza, fem fazer recor- 
dação de que era barro o cofre , em que fe de- 
pofitavaó eiVàS perfeiçoens. Tinha o criftal da 
liíbnja fido efpelho á fua formofura , e como 
fenaó fora vidro a fua duração ,, o cria aço a 
fua vangloria. Entertidas ncllas fonhadas illu- 
fóens eítava Angélica , quando ouvia lhe ba- 
tia á porta o mais defvellado amante, o filha 
do Emperador mais mageftoíb, que impaciente 
nos exceffos da fua fineza, pizava nos defabri- 
gos do Inverno os rigores da neve, que pare- 
ce vinha arder nas lavâredas dáquelle amante 
peito. Trazia elle por lampioerís no efcuro da 
rioute as Eftrellas , que eraô teítemunhas das 
aólividades dofeu amor, repetindo- as vozes do 
carinho, por mais que na groífeira Aldeãa acha- 
va fechadas as portas do agradecimento, deti- 
da nos melindrofos receyos de arrifcar-fe no 
frio, tendo no liquido elemento da agoa apof- 
tado candidez a neve dos feus pés. Continua- 
va o Príncipe as inílancias do rogo , e fofria 
os defdens do repudio , fem que a oífença dos 
vagares na reípofta entibiaííem a prefiftencia do 
clamor , a que quiz dar mayor aftividade , en- 
tregando a voz á cadencia dos fufpiros nefte 



ROMANCE 



Ganhado pelas armas do Empyrio. $ 

ROMANCE. .. 

Aperi 

Dimhi 
Efpierta, bella homicida, Spoufiu 

Nó dés mas armas ai íueno, 

Que para vencerlc fobran 

Las vanas ilufiones dei dezeo. 

Nó prives de luz ai dia 

Eclypfando los luzeros ; 

Que quando el Sol fe recata 
' Funefta fombra cubre el Uiriverfo. 

Dexa la vana ilufion, 
Que es mui defigualempleo, 
Quando defpierto te bufco 
Te entertengan fonados los fojetos, / 

Mira que a la efcarcha eftá 

' Ardiendo en llamas mi pecho, 

Y ojos dormidos no pagan 

De mi amante difvelo los extremos. 

Nó a mis carinos fe niegen 
Tus melindroíbs affe&os , 
Que amor quando le defdenan 
Transforma en los defvios los difvelos. 

Mira, que a tu puerta eíloi 
A dezoras ai íereno I 
Sin que a dezazer fus hielos 
De mi coraçon baile el fuego intenfo/ 



No 









6 Reynò de Babilónia y \ 

Nó que a tu puerta a bater 
Se diga , que llega a tiempo 
Mi amor, que tus ilufiones 
Por iluíion no atienden a mi ruego. 

> 

Mas. pues ingrata a mis vozes 
No eícuchas forda los eecos, 
Quando quieras nó afde hallarme 
Que amor no fufre injuílos los dcfprecios. 



, . 



Ceifou a voz, ficando a dor da ingratidão de 
Angélica toda por conta do fentimento do 
Príncipe, que medida a defigualdade de hum 
Monarca , ainda que amante , com o humilde 
nafcimento de huma Aldeãa , ainda que formo- 
fa , fazia mais aggravante a refiftencia , quando 
a combatia a mageftade , e a fineza ; e magoa- 
do o foberano do fcr no golpe da negação , 
voltou as coitas , porque o aggravoá vifta cof- 
tuma incitar a juíliça mais, que a piedade, e a- 
inda fendo eíta attributo da íbberania , r^ô quiz 
aquelle Real coração pccrelcentar razoens ao 
feu queixume, por fe naó precizar a punilo, a- 
codindo pelo próprio refpeito. 

Cobrada jà Angélica do perdido acordo, 
ainda que fazia conveniência d ) próprio abri- 
go , mais que do amorofcr emprego, lá no de- 
ialumbrado do feu peníamento ouvia huns ee- 
cos, a que defeonhecia as vozes a razaõ , pre- 
zas as deliberaçoens pela groífeira cadea do a- 
mor próprio , mas taó efficazes eraó as clau- 
fulas, que precebeo , diziaô: 

Nada 



Ganhado pelas armas do Empyrh. 7 

Nada do que a vida arrifca 
A fineza vosefmalta; 
Porque eíla vida que falta, 
Também a fineza rifca. 

Naô faó fó Lynces os olhos , que também a 
conveniência cofluma fazer Lynces os ouvidos j 
e tanta harmonia fez nos de Angélica efta ad- 
vertência , que achou lucrava na defatençaô , 
deixando- fe captivar dogofto, que a accomoda- 
va , por mais que a desluzia. Entre a duvida , 
e o dezejo eftava irrefoluta , quando de melhor 
Oráculo ouvio mais acertada eíla fentença, 

Cuidado , que fe defcuida , 
E fó de íi faz cuidado , 
Pouco tem de defvellado y 
Se na fineza naó cuida. 

Melhor me aconfelha eíla voz , ( diíTe elía ) que 
he ofFender o amor, que a tanto cuíto me 
bufca, querer que nem efte pouco me cuíle a 
fineza , que pago. O Príncipe, nos difcommodos 
danoute, nos defabrigos da neve, nas chammas 
do amor fe abraza , a pezar da foberania fe 
humilha, fendo pelo poder independente, e eu 
nos focegos de amar-me a mim fó faço gofla 
de amar-me! Ifto he fazer o entendimento par- 
cial da femrazaó : emende a deligencia agora 
os erros dacommodidade, que quem exercitou 
fem mim o que podia, também poderá agora 
deíFender-me a mim fem mim. Atropelando a 
orniíTaõ, que a detinha, foy deliberada bufca lo, 

mas 



8 Reyno de Babilónia, 

mas achou íb a confufaô da noute , porque fè 
tinha negado ao refplendor da luz , trope- 
ça ido nas próprias fombras , tudo que topava 
eraô ruinas. Defvellada entrou a butcar o Sol, 
que fe lhe efcondera , fem que os pados atinaf- 
fem mais que com os precipícios, cubertas dè 
funeftas nuvens as Eftrellas \ tentava os cami- 
nhos, e nelles fe perdia } que quem deixa ao 
tempo o em que enterefla \ pouco fe adianta. 
NaÕ fe fie a inconíideraçaõ de que pode hum 
defpois emendar o erro de agora , que as horas 
paílaõ, o tempo voa, e naó ha confiança fó- 
gura ,-., a donde o tempo, e as horas faô incer- 
teza , voando os annos por inftantes , e as ho~ 
ras por refpiraçoens, fem que para o ligeiro 
das fuás azas haja mais prizaó , que fegui lias o 
cuidado , temellas a vigilância , para evitar o 
perigo do fucceíTo. 

fà o defvio do Príncipe dava a&ividades 
ao fuíto, perdida a efperança do feu defaggravo, 
ainda que esforçada a deligencia por interefle do 
remédio; e fazendo merecimento de repetir os 
paífos , os profeguia alargando o efpaço aos fuf- 
piros, até que delles feridos os ares, chegaílem 
os eccos a donde os enviavaô os defejos ; mas 
como ainda os impulfos fe enlaçavaô nos gri- 
lhoens, que naô rompiaõ , a mefma luz , que a- 
lumiava , logo enfraquecia j e tornava a fufpen- 
der-fe nas fombras de hum nao poffò as re- 
foluçoens de hum jà quero. Cria Angéli- 
ca , que amar alguma coufa bailava para fer 
amar, e naó via, que para hum amor fem li- 
mite, nao era recompenfa hum amor limita- 



/ 



do. 



Ganhado pelos armas do Ewpyrio. $ 

do. Dizia-lhe ern erros o difcurfo, que havé 
ria tempo para o defempenho, e naõ leria lo- 
go o retiro do Príncipe para caftigalla, tendo 
começado na fineza de querella; que a vida 
ainda Jhe prometia larga duração, e nella po- 
dia remir o que agora dilatava em pagar; 
porque nem tudo haviaó ler temores adonde 
a confiança era íacrifkio. 

Clamava faudola no dilatado da aufen- 
cia , que agora difficultadas as viítas , jà eraõ 
fenliveis as magoas , etteito certo na humana 
natureza , querer o diflicil , aborrecendo o fácil; 
mas nem o Príncipe refpondia, nem ella de 
todo fe defenlaçava. O penfamento lhe propu- 
nha a gioflaria , com que trocara as finezas pe- 
los vagares, e quando queria bufcar o remé- 
dio convencida do deli&o , efmorecia a vonta- 
de nas fantafmas do temor; que deita groíTe-i 
ra télla coftuma fazer galla a terrena belleza, 
Flttdtuando no efpeflb das trevas , perdida a luz, 
que podia guialla no caminho, que lo a cuíto 
de difvellos acertaria a fegui/, fe queixava dos 
paíDidos defcanços, em que aprendera o débil 
laço de amar-fe a fi por amar melhor. Queria 
com lagrymas bufcallo, e íuípendia-fe nas dif- 
iculdades de feguillo. Sentia vêllo offendido , 
masdeímayava a força para.defaggrayallo, cren- 
do , que elie a qualquer tempo da latisfaçaô havia 
efquecer-fe do queixume. Ninguém íe fie do 
que lhe prometem as imaginaçoens , que o que 
tanto importa, no que le demora fe arrifea, 
e quem me deu hum dia para confultar, nsó 
me fesura outro para concluir; que o amor fe 
li, B tem 



io Reyno de Babilónia ^ 






tem coiílancia de diamante, também tem m& 
liadres de flor. O Príncipe ciofo , Angélica 
defeuidada , tud> fe punha da parte dofeuag- 
gravo, e ella ainda que culpada animava a ef- 
perança* de que elle a qualquer fufpiro fe ren- 
dia, ainda vendo que para manchar o amor, 
bailava fó hum, penfamento , ao mefmo paflb, 
que elle por attrahir-Ihe os penfamentos, dei- 
r IJCa . xàra em perpetua memoria do feu amor os cx- 
riítia. tremos. ' . > 

Jà a ingratidão, que experimentara /ven- 
cida da piedade, tinha abrandado o rigor da 
vingança ; vendo que aquella , a quem amava, 
Aiafpí- padecia, e mandou aos feus oceultos confidén- 
iat;aõ. t es lhe facilitaíTe os temores, dando-lhe do feu 
amor alguma luz; e como o decreto levava im^ 
perio da foberano, facilitou tod >s os que pa- 
reci ió impoíliveís , d*fembaraçan lo a vontade 
de Angélica, para que no efeuro da noute , 
vencido o temor, bufcaíTe o Príncipe a vozes 
nefte 

Ani na ROMANCE. 

ir.ea ie- /^\ 

vit ceia ^^e trifte fombra me cobre, 
ucdt:. Que adufta noute me embarga , 

Todo o coração he fufto, 

Toda d^fmayos hum a Alma. 

guando da brilhante Esfera 
Bufco do Sol a luz clara, 
Funeflos Aílros encontro, 
Que oílentaó fombras por gallas, 

De 



Ganhado pelas armas do Enpyrio. n 

De felices penfamentos 
A Efperança* fe alentava, 
E do que em luz prometiaõ 
A nome me defengana. 

A memoria fcçobrando 
Do fomno na fombra opaca, 
A luz da rúztô , os olhos 
Cobrirão de negra capa. 

Jà das vaidades no leito 
Sonhando me deleitava. 
Ay de hum cuidado, que dorme 
Dos deícuidos na borrafea ! 

Trifie, fó , em tanto abyfmo, 
Porque a luz do Sol me falta, 
Nas arguiçoens da culpa 
A defeulpa fe embaraça. 

Aquella flor , que prefume 
Romper purpuras derácar, 
Se fe efquece de que he flor, 
Jà recorda no que he nada. 

Dilatado em relplendores 
Eífe de luzes Monarca, 
Quando prefumido fobe, 
Tanto em defenganos baixa. 

Logo no Reyno de Thetis, 

Que a luz nas ondas apaga, 

Os ardores da vaidade 
^ Na efeura fombra amortalha. EHes 



n R?yn f ) de Babilónia y 

EíTes , que clarins da Aurora 
Ao primeiro alvor daôfalva, 
Deftroço logií le vem 
Do Falcão, que os arrebata. 

Àííin eu, perdido o norte, 
De Morfeo na, efeura cafa, 
Quanto topo faó abyfmos, 
Do fomno em t rifles fantaímas* 

Donde eítàs , bello efplendor^ 
Que naô acerta a Efperança 
A bemquiftar as finezas 
Das culpas nas ameaças. 

Sendo Sol, e fendo amante,. 
Naó fey como fe compara T ■ 
Que a luz da fineza fique 
Nos defvios fepultada. 

Doe-te de mim, pois vèz 
De teu rigor na ameaça ,' 
Que atè a vida periga 
Dos fufpiros entre a chamma. 

Sempre o prefente perigo faz defejado O re- 
médio : então di a dor valentias á deligencia, 
empenhada pelo temor, mas logo defmaya a- 
quelle impulfo a doridè a mudança he natureza, 
e ainda do infalível dj conhecella, faziaô no 
coração do Príncipe ecco os fentknentòs ds 
Angélica, inclinando-fe a favorecella. Mandou 
o leu Embaixador examinar a que realfe che- 
gava 



• 



Ganhado pelas arniafâo ÈmpyriQ. rj 

gava aquella fineza, que nos melindres dormi- 
ra. Voava elle nas azas da obediência, e che- CAnjá*- 
gou apreirado a propor-lhe , que dividas de que 
fora fiadora a Mageflade , ló tinhaó deícmpenho, 
dando por ellas toda a Alma , que o Prínci- 
pe por ella defprezãra a Coroa , e vertera o 
Tangue para firmar as efcrituras , que abona- 
vaó o feu amor, e ella detida nas mal tecidas 
redes da inconíideraç;ô trocava as luzes pelas 
fombras , quando elle abraçava a noute de pa- 
decer por lograr os dias de amar. Naô ley 
que império tem a verdade , que preíuade atè 
a quem menos attende , e começarrô de atear- 
fe no peito da defcuidada Àldeáa humas fai£ 
eas, que naâ chegando a chammas, jà fe exala- 
vaô em fumos. Logo fera faftio do goílo, a 
que agora he eflimulo do deíejo; que efla he 
a condição humana , como fegura a experiên- 
cia. Eraõ as finezas do Monarca fiadoras da lua 
meíhla duração , e convalecia o íufto de pode- 
rem faltar lhe, na certeza de que nos mais va- 
lentes confliílos, nunca no feu amor enfraque- 
cerão os alentos. Efle errado difeurfo emen- 
dou a advertência do Embaixador , lembrando*- 
lhe o que podia avivar-lhe os afecíos; mas logo* 
os ufos do Paiz faraó renafcer das cinzas dos paf- 
íados empregos nova prizaó dos fentidos, que 
quem naõ extingue toda a matéria do fogo , 
quer fomentar o incêndio para aviíalla. Defie 
perigo fe ouvio huma harmoniofa voz, que em* 
íkayes québros cantou: efta letra 



44 Reyiio de Babilónia , 

E)c Babilónia o fogo 

Nas pedras arde , 

Naõ as toque quem naó 
. Quizer queimar-fe. 

Quiz Angélica examinar o myfterio; e como 
naó achou a quem pregunta-lo , deixou-fe a nsõ 
-temei-lo , cuidando fó em que a formofura da 
Roza para ler amada lhe bafta íer bdla , ejà 
ella lhe excedia começando a agradecer, Efcura 
venda dos olhos da razaó he a vaidade, que 
levantando altares aos Ídolos do defvanecimeri- 
to, vòa com azas de cera para fer mayor a 
queda ; como logo fe vio , trazendo* lhe huma 
das fuás donzellas huma Roza , que achara no 
campo com eíte papel. Foy lifonja a flor , mas 
defengano o 

SONETO. 






SSe verde horifonte , em que encarnada 
Amanheceftes hoje mageftofa, 
Se prefumpçoens te jura de fer Roza 
Defenganos te eníina de fer nada. 

Naó afpires a ver-te eternizada, 
Se te enfayafte achaque de formofa , 
Que a doença de flor he perigofa , 
Porque nafce da morte ameaçada, 

EíTa Purpura Regia , que hoje oitentas 
Das pérolas da Aurora guarnecida , 
Loq;o adorno fera do monumento : 

Se de hum dia de flor fó te contentas, 
O defengano efpera prevenida 
Para fer da belleza o efcarmento. 

Os 



Ganhado pelas armas do Empyrio* 15 

Os acafos (difle ella, rafgando o papel) ao ar 
fe entregaõ , porque faó do ar; e naõ quero 
por hum vatecinio , que pode para outrem def- 
tinar-fe , affligir a ccnfideraçaõ. Ifto falia de 
hum dia, e ha muitos , que paca fem fallar co- 
migo. Tratemos de viver , coração i que ante- 
cipar a dor, he duas vezes padecclla. O Prín- 
cipe, que era defperta ícntinella para inquiri r- 
Ihe os penfamentos , detreminou encontralla 
para punir-lhe os defcamiuhos , como veremos 
no feguinte 



CAPI- 



; ; ;A3 



LlflT*.. JJ\ 




Canhado pelas armas do Empyrfo. t 7 

CAPITULO II. 

Angélica recaída nas vaidades de Babilónia* 

Quebradas as cadeas do recato, 
De folta a liberdade prefumindo, 
Fantafma da vaidade em íi retrata, 
Fazendo idolo fó feu alvedrio. 

QUE mal fe emendam os deslizes quan- 
do o entendimento fe deixa arraítrar dt 
vontade. Saõ fúnebres as fuás ideas , c 
para vencclías devem abraçar-fe da razam os 
di&ames; que adonde as quedas fam natureza, 
naó acautelalas nos tropeços he amar os pre- 
cipícios. Para hum golfo alterado pequeno fe- 
guro he huma taboa ; o vento combate , o mar 
le encrefpa , as ondas fe enfurecem , e padece 
miferavel naufrágio quem fe expoz a padecer 
a tormenta. Como pode naô temer a morte nas 
furiofas iras das feras*, quem lhe dezafia as gar- 
ras ? Soprar as chammas he galantear as cinzas; 
c naó fica deitas ignorâncias mais que o defen- 
gano nos eftragos. Tinha Angélica nafcido vil 
por natureza, e do elemento, que lhe deu o 
primeiro fer , trouxe , entre as foberbas do ce- 
dro, as liviandades da cana , que movida ao 
vento da vaidade , fempre lhe ficam fó na fo- 
lha as efperanças do fruto: terra emfim grof* 
feira, que crendo-fe pátria das mimofas flores, 
naõ pode defender-lhe a duração , fenaõ a 

C mor- 



i2 Reyno de Babilónia , 

mortalhalas no fentimento. Jà o dos aggravos do 
Príncipe tinha defarmado as fortalezas da Fé, 
c tornou o livre do génio a fazer conveniên- 
cias do delifto y e cabedal do divertimento. ., 

A variedade das Praças de Babilónia eraõ 
declarada guerra da circumfpecçaõ , parecendo- 
lhe a Angelina , que dar horas ao recreyo , naó 
podia féf digno decaftigo , nem o deítrahido de 
hum dia fe havia punir por huma eternidade. 
Propunha-lhe o gofto , que o Soberano Artifice 
da populofa fabrica do mundo , a naó coar&á- 
fa ás liberdades, quando a adornara de tantos 
atra£Hvos para emprego dos obje&os. Logo 
Angélica conhecerá o veneno em fazendo delle 
prato o appetite; que o clima de Babilónia com 
apparencias de fuavidade , fabe introduzir o a- 
margo a quem fe alimenta das fuás producçoens. 
Naõ lhe faltavaó a ella avifos, dados- pelo co- 
nhecimento , que propunha os arrufos do Prín- 
cipe , e os aífaltos da occafiaõ , a que fe expu- 
nha na confufaó daqueílas praças , por donde 
he infalível o defpenhado dos paffos ; mas ef- 
tava a razaõ captiva pelo império da: vontade^ 
e naõ teve domínio o difcuríb. i 

Previniu-íe para o paíleyo , adornou-fe da 
profanidade das gallas , toucou-fe do ligeiro 
das plumas , compondo , ao efpelho do feu en- 
gano, os laços do feu perigo. Òos anéis dç> ca- 
bello fez engaíle ás efmeraldas , em que fuften- 
tava a prefumpçaó de vencer os alvedrios, que 
queria conquiftar , e pondo debaixo dos pés as 
pérolas do recato, fó dava eítimaçaõ aosrubins 

pela 



Ganhado pelas armas do Etnpyrio. 19 

pela chamma, em que queria abrazar os cora- 
çoens , por fó rendellos , fem efcutalos. Acom- 
panhada do indifcreto clarim do applaufo com 
que a viaó os Babilónios , mais para o reparo f 
ter que cenfurar, que para o goílo ter que ap- 
plaudir, fe pòz nas praças efquecida do que a 
indifcripçaó lhe prognofticava. Satisfeita dos 
divertimentos, paíTava de huns a outros defcui- 
dos , quando vio , que arrimada ao duro már- 
more de huma columna eftava huma peregrina , A '*#'- 

111 r ia. \ ' recaiu* 

que o era na belieza como no trage, tem mais r 
adorno, que a modefiia do femblante , nem mais 
companhia, que a fufpençaõ, de que defpertou, 
dizendo eftas 

E N D E X A S. 



Y infeliz belieza , 
Ten laftima de ti , 
Que ardiendo en vanidades 
Te confume la llamma fin luzir. 

En las confufas plafas 
Te pierdes , porque alli 
Naciendo a la lizonja 
Al engano íin duda vás morir. 

Mirate ai defengano 
De fu efpejo feliz, 
Que nó iloenpana el aire, 
Y el aire fobra a transformarte en fi, 

. ' •■ j ... . n '. 

Cii Due-» 






2C Reyno de Babilónia y 

Duelete de mirar/ 
Que amor cn efta lid , 
Porque cl grillo no arraftres , 
Su Hiifma libertad fupo rendir» 

Cobra-te, que te pierdes 
Si vasa profeguir 
Defpenos de ilufiones, 
Que de feliz te harán fer infeliz. 

Diífimulou Angélica o fobrefalto, e cobrada da 
primeiro movimento do fufto, lhe difTe : Evos, 
íenhora Peregrina, que importância tendes nef- 
tes avifos , para vos fazeres clarim dos meus 
vaticínios: tomay nelles parte, que também 
ímh arrifcadas as peregrinaçoeirs. A que ella ref- 
pondeo com mais inteireza , que fubmiflaô : Pa- 
ra advertir hum perigo, a que vay arrifcar-fe 
ainda a mayor contraria, bafta a piedade; efe 
vòs me defconheceis, naô he muito, que me 
naô attendàis, que eu faço o a que eíiou obri- 
gada, ainda que vos defobrigueis do que faço 
em beneficio voíTo. Sem efperar omra refpoíta 
fe defpedio , deixando matéria aos diicurfos por 
mais que delles queriam apartar-fe as imagina- 
çoens. O Príncipe, que naô perdia de vifta An* 
Vilãoi S € ^ ca 5 e > como difvellado Paftor , a feguia para 
que fe naô defgarraíTe, como perdida ovelha r 
Jhefahio ao encontro, porque na fua prefença 
fecobraffe , antes que emtaô intrincado labyrinto 
fefundifle. Bem poderá ali o aggravo defem- 
feaiokar a efpada para o caftigo , vendo profa- 
nado 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 21 

nado fegunda vez o feu refpeito; mas o amor 
atou de forte as mãos á vingança , que o que 
devia fer golpe da ira, naô paíTou de de- 
monftracçaô do fentimento , e cobrindo os olhos 
por naô vela profana , a deixou confufa. Saô 
as vaidades vendas , que deixam cegos atè os 
que fe prezaô: de A rgos ; e quem naô adverte 
o em que pode perigar , tem certo o cahir , 
chorando depois o defengano , o que poderá 
prevenir antes o temor. Bem conheceo ella na- 
quelle fechar de olhos, que o de que o goílo 
fizera galla, fora para o amante Juto. Applicou 
para elle a viíla , e achou , que por ella depu- 
zera da mageftade a coroa. Olhou para C , e 
vio, que fendo-lhe propio ofayal, elle lhe dera 
a purpura , e envergonhada daquelles fumos , 
que exhalava a terra , e íobiaõ a fe defvanecer 
no ar, appelou ás vozes do pranto, para nas 
fuás correntes fe purificar o que jà conhecia 
aggravo injufto , e entre o ecco dos fufpiros íe 
articularão as claufulas deite 



ROMANCE. 

Dcus,tu 

Nícisiníi- 
O' aqui de mis devaneos^ iccam, 

Senor, los ©jos retires, f ceii - 

QLue fi la luz me recatas *££ 

Sin duda eftá que pelígre. fúm 

abfcon- 



Eftas 



dita. 



ii Reyno de Babilónia. , 

Eftas vanas ilufiones 
Defculpa en tu amor fe admiren , 
Pues fon de mis ceguedades 
Las vanidades defquite. 

Laftimas , y nó caftigos 
Tu mano a mi dano aplique, 
Porque digan tus piedades 
Mas do que mis yerros dizen. 

Nó atiendas a que leviano 
Mi penfamiento publique , 
Que el aire lo lleva, pues 
Es menos que el aire firme. 

Desbocado el apetito, 

Mirando el prado apafible, 

Para pizar fus verdores 

De mis verdores fe viíle. I 

■ 

Eva» Tan antecipado el dano . j 
Vi no ■, que elfer, quemediíle, 

Ya tenia antes dei fer { 

Eftragado lo fenfible. \ 

En Una mafana amarga , j 

Porque mas fe verefique 
Un pomo, que por vedado 
A todo un mundo arruine. 



i • 



Eredada fue mi culpa , . 

E hallarà el que bjen lamirç, 



r. f 



Que 



Ganhado pelas armas do Ewpyrio. 23 

Que lo cuerdo es accidente, 
Naturaleza el figuirle. 

ConfieíTo, quede latierra; 
Donde he tenido mi origen, 
Aun brocan flores de almendro , 
Que imitan ai aire libre. 

Mira pues, hermozo dueíío, 
Como puedcs eximirte 
De perdonar vanidades, 
De que nacen mis deslizes. 

Nó dexo ai tiempo la emienda , 
Porque en mi c^uza te elige 
Para fiador de mi cauza 
Toda el alma, que en ti vive. 

JVlirame ya, que ai mirarme 
En tu vifta fe configue , 
Que lo que por mi hé perdido 
A nuevo fer refucite. 

No me defdeíies por verme , 
Vana , pues cuerda te pide 
Compaíiones mi dolor, 
Porque el favor certifique. 

Abertos por entaô os olhos, que nos caminhos 
de Babilónia tinhaô trocado pelos nadas do di- 
vertimento os cultos da mageftade, e novamen- 
te captiva a liberdade de Angçlicapelarazaô de 

amar, 



24 Reyno de Babilónia, 

amar, a quem tanto eftava a dever, entrou a 
defpreCuadir os dezejos da diftracçaõ dos cui- 
dados, defprezando aquellas apparentes fuavida- 
des, que cofhimaó enganar o conhecimento, 
com injuria do mais nobre , que he a alma T e 
pecando na balança da confideraçaó , quanto lhe 
importava ter com ella conta, defcobrio facil- 
mente os erros dos feus paíTos , para dar- lhe 
melhores empregos. Afflita no enternecido da 
magoa, dava jà vozes o arrependimento, cul* 
pando a ingratidão, com que, por lifongear o 
mal , fe apartara do remédio. Eraõ as lagtymas 
companheiras das vozes , que entre os foluços 
foavaó neíles eccos. 

Como he poffivel , Príncipe excelfo , que 
fendo vós quem me deu o fer, que naó tinha, 
vos efqueçais do que fuy, para eíkanhar o 
Mifcie- que ç 0Ut q voíTò poder me fez a vós feme- 
g m " lhante no mais nobre da alma, mas naó extin- 
guio aquellas humildes ínclinaçoens , que dei- 
xaó aniquiladas tantas foberantas. Naõ proce- 
dem os erros fó da vontade, também neceílita 
de contravenenos o entendimento , que fazen- 
do na reprefentaçaõ inculpáveis as diftraeçoens , 
com que fe paíTa o tempo, me deixava paflar 
o tempo fem reparar que o perdia. Prometia- 
me felicidades , e vejo, que no que me prome- 
tia, me enganava. Ceifem jà, Senhor, emvòsos 
difgoftos , que eu farey por naó tornar a ador- 
mecer no fomno, que me difficultava os acertos. 
Feri-vos com a lança do meu defacordo , mas 
deíia mefma ferida, que vos penetrou o, cora- 
ção 



Ganhado pelas attnas do Empyrid. i£ 

çaô a violências da tyrania , efpcra o meu co-^ nt{/r 
raçaô remédio ao mal, de que eftà ferido. He o * m fl$ 
voífo peito depofito do voífo amor , e de amor 
ferido naõ pode haver peito oceulto. Perdi 
a luz, como cega, e naô fera a primeira ce- 
gueira a que vòs, como Sol, deis luz. Hydropica 
de vaidofa me deixou o vento da preíiimpçaó , 
a que câhio paralytico o difeurfo fem forças 
para largar a Pifcina , que tinha por defeanço; 
e a volfa benignidade fará fegundo milagre , ap- 
plicando remédio a eíta mortal doença. Defva- 
neceram-fe os meus penfamentos a querer ef- 
calar dos Ceos a immenfa altura ; mas jà os 
conheço Pigmeos, cahidos no abyfmo dos de- 
fenganos , para emendar aquelíes precipícios, 
de que he a dor, e fera a demonitraçaõ', me- 
lhor fiadora. 

Naó ignorava o Príncipe a pouca firmeza 
do coração de Angélica , que jà a experiência 
tinha a fé muito duvidofa ; mas era nelle taô 
natural a piedade , que a menos prefuaçaõ , 
efqueceria os aggravosy e lembrado de que naô 
tinha Angelina mais cabedaes para refiftir-fe 5 que 
os que lhe facilitava a fua meftna grandeza, deixou 
por conta do que a amava, dar forças á fatisfaçao, 
que lhe ouvia, tornando a vela com agrados, 
fe a tinha dcfdenhado com defvios , e para a- 
nimala á prometida iirmeza, continuou amante 
em aíliítilla. 

Ao correr a Aurora as purpúreas corti- 
nas , com que em chuveiros de pérolas come- 
ça a toucar as flores , lhe moílrava na pouca 

D dura- 



,A O 



jtf .Vr« Reyno de Babilónia, 

duração das rozas o defprezo, com que pelas 
imniortaes devia trocar as caducas; que <^jem 



pode afpi rar a pizar Eftrellas , naó deve fatif- 
fazervfe de humas lizonjas da viíta, que a pou- 
cas horas faô defenganos da efperança. Na a- 
corde melodia das Aves lhe defpertava os fen- 
tidos adormecidos, para fe acautelarem das pe- 
nas aíTuftados ", vendo que em Babilónia o mef- 
• P^-mo, que recreya, msgôa. No liquido criílal 
7ut d"r. das fontes lhe lembrava as finas correntes , com 
ramado, que quizera prendella , para que nas fugitivas 
felicidades fe naó dcfpenhaíle. Tudo nofeu amor 
eraõ finezas, a que ferviaó de pedra de toque 
as ingratidoens. Humamanhãa, em que os penfa- 
mentos de Angélica eftavaõ mais entregues á 
ionííderaçaõ das venturas , em que os Babiló- 
nios feguravaó as fuás efperanças, ouvioella, 
que fem o pezo dos cuidados, fe devirtia hum 
paflageiro, que aliviava o caminho , cantando 

aflim eílas 

. . . ! . * ■ 



J u 



ENDEIXAS. 

•.'■-.■ 



T 



Odo Abril florecia 
Huma Garça formofa , 
Que corria medrofa 
Do FalcaÕ , que a feguia : 
Bufca rama , que a cubra, 
E hum deftro Caçador alJi a derruba. 

Entre 



Ganhado pelas armas do Entpyrfo. 27 

|íntre cfla felpa verde 
A manca Rez defcança, 
Segura tia Efperança 
Que o paftor a naó perde : 
Mas dormido o cuidado, 
Naó ouve o lobo , que lhe leva o gado* 

EíTe clarim da Aurora, 
Que defpcrtando as Aves 
Em requebros fuaves 
Seu emprego namora; 
E eíTa mefma harmonia 
Avizo foy ao tiro, que a feguia. 

Naquelle monte antigo, 
A donde o fogo accende 
O paftor , que pertende 

Contra o Inverno abrigo ; 

Do meftno fogo a luz 

Ao ladrão para o roubo alíi 6 conduK. 

Liítaó de neve corre 
Arroyo defatado, 
Que ás flores deíle prado 
A fede lhe focorre , 
E o caminho trocendo 
Deixou de fer arroyo já mar fendo. 



■ 



O Sol, que no Oriente 
Accendida luz arde , 
Lá quando chega a tarde 



'. 



1-ja ^uauuu cnega a rara 

Os feu$ rayos defmente : 

Dii Eef- 



*? Reyno de Babilónia. ) 



E efpelho á formofura , 

Quando mar de chriftal> he fepultura* 

EíTes brilhantes rayos 
Do tremulo diamante, 
A fua luz confiante 
Da morte faó enfayos: 
Horror he naó pequeno 
Serem adorno os que faó veneno. 

O defengano abraça , 
Oh belleza liviana , 
Que a formofura humana 
Em breves horas palfa : 
Teu engano repara, 
Que a vida , e a fortuna nunca pára. - 

Pouco importaô , que fejaó myflerios os aca- 
fos, fe os ouve o cuidado fem ponderar o que 
prognofticaô. Dava-lhe, a beneficio do amor, a 
luz nos olhos para allumiala , mas ella fem 
reparalla , nas fombras fe perdia ; e quando no 
amante eraô os extremos , ella confiada nas 
experiências lizongeava os perigos , que em as 
nuvens do efquecimento efeurecendo o temor 
do caftigo , logo os enredos de Babilónia a 
defcuidavaó dos prémios, entregue á variedade 
dos empregos. Ingrata emfim por natureza, 
recebia os dons , como divida , fem que da nrco, 
que os difpendia , tivefíe mais lembrança. Lá 
eftava Tigranes, Príncipe de Arménia , captivo 
pelas armas de Cyro, e fua Efpofa, ambos 

na 



Ganhado pelas cimas do Empyrio. .2 9 

na mefma prizaõ; e o rencedor querendo of- 
tentar a grandeza , com que na fua Corte fe fa- 
zia refpeitado', convidou os vencidos para hum 
banquete. Entre o opulento das viandas per- 
guntou a Tigranes , que daria pela liberdade 
da fua Efpofa , a que o captivo refpondeu : 
Qite era na fua ejlimaçaonada o Reyno , pou- 
co o mundo , e lhe nao parecia muito , para 
refgata/a , verter o Cangue , e dar por ella a 
'vida. Foy também paga efta fineza , que refti- 
tuida a perdida forte, e cobrados ambos da 
infelicidade do captiveiro , lhe perguntarão a 
ella : Qite lhe parecera a grandeza de Cyro : a 
que refpondeu: Qiie em nada reparara o feu 
cuidado mais que no amor d a que lie , que por 
amalla naõ fò daria o Sceptro , mas a vida. 
Efta amorofa conrefpondencia, que dura im- 
mortal na fama, desluítra em Angélica o dif- 
curfo , na perfiftencia do defvio , fendo tanto 
mais crefcido o preço da divida , quanto vay do 
Principe de Arménia ao Monarca do Em- 
pyrio ; mas eftas ftó as dcfigualdades , de que 
fazem gallaas cegueiras. 

Novamente oífendido o amante de An- 
gélica , vendo , que a dar mais nobres funda- 
mentos a firmeza , que elle conquiftava, naõ 
bailava o que a enrequecia , fe retirou , e 
mandou pelo feu Embaixador advertir á def- 
cuidada Aldeãa , quanto perdia em perdello : 
quefoubeífe, que a circumfpecçaô no trato 
era o mais fino ouro, de que a queria dotada, 
porque os adornos do corpo paravaõ em fam- 

btnitos 



30 Reytio de Babilónia y 

benitos da Alma , e naõ devia dar mais va- 
lor ás vaidades, que arrifeam ', que ás inteire- 
zas , que feguraô; que asgallaseraó inúteis cui- 
dados , que nas entranhas dos bichos tem os 
feus princípios; que as plumas eraó defperdi- 
tios do ar, que combatidos de qualquer ven- 
to, como os penfamentos , ca liem eftragos da 
confideraçam ; e naó deve cuidar neftas appa* 
rcncias , quem fó deve ter conta com as ver- 
dades; que a formolura fem affeébiçaó fabeat- 
trahir, e ajudada da arte naõ fe faz refpeitar; 
que fe vifle no efpeiho das flores , para fe 
defenganar como mortal, antes que o hor- 
ror, que atemoriza, trocaífe o carmim da 
purpura na palidez da mortalha. 

Callou o Embaixador , porque fó para o 
eflencial da pratica trazia expreíla licença. En- 
trifticeu-fe Angélica , porque tornou o poder 
das verdades a amortecer o carmim das Rozas. 
Efmorecido o gofto nas claras luzes do defen- 
gano, retirou-fe o Príncipe fentido de ver taó 
depreda efquecida a ley do feu preceito, tan- 
tas vezes quebrado pela fragilidade do animo , 
quantas diffimulado pela generoíidade do po- 
der. Veremos outro fucceilb no feguinte 



• 



un.rJ CA- 



C4P. JII . 




Ganhado pelas armas do Empyrio. 3 1 

■ 

CAPÍTULO III- 

Angélica enferma dos de za cerdos. 

Na febre dos humanos dezacordos , 
Delirante , e fernetico o juizo , 
O pulfo em tanto mal, medico douto 
Toma para emendar feus parociímos. 



SÀM os fimptomas nas doenças os que 
melhor informam o perigo , que ameaça a 
vida nos golpes da enfermidade ; mas para 
conhecela naÕ bafta fó a confiíTaõ do achaque, 
fenaô a deliberação para curalo; e como An- 
gélica naô podia cortar pela queixa, fem pri- 
meiro cortar por fi , temia o remédio mais do 
que o mal, porque fe amava tanto , que fe 
affligia mais da cura , que da neceííidade delia. 
Eraô as paixoensda alma as que lhe tyranizavaõ 
o coração; mas naõ fe atrevia o coração a en- 
trar com as paixoens em dczsfio. Jà o valor as 
reíiftia melhor, armado algumas vezes doefeu- 
do da memoria, em que rebatia os aíTaltos , pe* 
lo aço da conftancia o do temor ; mas enfra- 
quecida, a que devia ler, invencível fortaleza , 
quando eraó mais vivos os golpes , fe deixava 
vencer, indeterminada a vontade, e vacilante 
o difeurfo, Nefte delírio dos penfamentos foy 
ganhando o campo a tribulaçam, a que prof- 

trado 






ji .. Reyno \ dt Babilónia , 

trado o cuidado, começou a por-fe indiferente 
a efperança , íem que os interefles do defpa- 
cho fortem efpóras , que apreíTaíTem a dili- 
gencia de confeguilto , enganado o gofto pelas 
iiluíbens do dezejo , allegando a feu favor o a- 
inor próprio razoens , que formadas nos abu- 
zos de Babilónia deftruiaó o conhecimento \ dei- 
xando por conta dos erros abraçar os preci- 
pícios. Aggravou-fe a doença nos vagares da 
medicina , e recahio Angélica na perigofa fe- 
bre, que inficionou todas as potencias , dei- 
xando , fem determinação , o entendimento para 
applicar-fe o remédio. Via-fe enferma, e retira- 
va a memoria do que via , fevando-a no que 
cegava , confiando toda a faude nos divertimen- 
tos da Corte , como fenaó foram os diverti- 
mentos o de que procediam os perigos. Pro- 
punha-lhe a razaó o em que fe arruinava , e 
ella com as femrazoens fe defendia , efperando 
na duração do tempo , que como nelle acha- 
rão tantas conveniências, também ella lhe de- 
veria obrigaçoens. Neftes mal advertidos dif- 
curfos eftava entertida a memoria , quando pa- 
ra avivalla mais, entrou no feu apofento hum 
ucititêa homem diferente no trage , na linguagem 
fup* elíranho , no femblante carrancudo, nas ac- 
çoens dezafofegado , e que parecia mercador , 
em hum grande lio, que trazia carregado 
de fazendas , e diíTe. Ouço , Senhora , que as 
yoíTas imaginaçoens vos faó contrarias , por- 
que entregue a ella a confideraçao vos arruina 
o focego. Apoderada de vòs a melancolia , a 

que 



\ 



\ Ganhado pelas armas 1 do Empyrio* 3 3 

que vos rendeis; e compadecido da indifcrip- 
çaó , que vos aconfelha , me refolvi a boa o- 
bra de divertirvos , que talvez com ella chegue 
a farar-vos. Os melhores engenhos do mundo 
com pena de Águia efcreveraõ para recreação 
do gofto, e utilidade do coração; e fe eíU 
lição naô fora preciza ao entendimento huma- 
no, efcufado era ; que Ouvidio, Plinio, e to- 
dos os outros Autores , que apuradas as fcien- 
cias fizeraó gemer asimprenfas, e foraó Orá- 
culos das aulas , nafceílem com a louvável ap- 
plicaçaõ do leu trabalho; que quem lhe deu a 
luz para difcorrer, nada fez de balde; e eftrei- 
tarem a liberdade,, que Dcos deixou livre, 
fendo fó Báculo Paftoral , e Temporal, e Eter- 
no o emprego do tempo, he encarcerar o ani- 
mo nos grilhoens do fufío , e enfermar de trifte, 
quem nafceu para viver alegre. Aqui achareis 
nas façanhas dos Florizeis, e Palmeirins, nor- 
ma para fiares de quem vos ferve, que em to- 
do o perigo faiba defendervos , como promete 
a primeira folha dos livros, que vosapprefen- 
to , e efte diz : 

Sem fufto bem podeis 

Deixar amar-vos; 
\ Que amor da valentia 
Sempre anda armado. 

E quem ( refpondeu Angélica ) me hade defen- 
der de mim, fe em mim eftà o meu mayor 
contrario: nem entendo como em Reyno , a 

E donde 



34 ' • Reyno de Babilónia ," 

donde as tyranias faô triunfo ; como fe acha em 
vòs fó por piedade a boa obra de acudir aos 
enfermos, mas naô lera no fabulofo deites li- 
vros, que achem remédio ás minhas enfermi- 
dades. Ao que o mercador refpondeu : Também, 
Senhora , os demaziados reparos confundem os 
difcurfos, mas fe.eftes vos naô divertem pe- 
las guerras, aqui tendes em pacifica paz meta- 
morphorfeos de Ouvidio , adonde achareis fa- 
cilitados os empregos nasNymphas, e pratica- 
dos os tiros de Cupido, que das fuás fettas 
fe naõ livrou nem a mageftade dos Deozes^ 
como Júpiter diz: 

Se a Júpiter ferirão 
De amor os Rayos ; 
Que Diana fe livra 
Dos feus eílragos. 

EíTa he a mefma cauza de temelos*, ( difle 
Angélica) que fer defpojo de hum cego he 
mais oppofiçaô da forte, que influencia do def- 
tino; e naô eftaõ as altivezas do meu peito 
para taó humilde fogeiçaô. Tiray lá o livro , 
que delle atè a curiozidade foge, DiíTe-lhe elle: 
Mais efquecida cuidei , que eftaveis das praticas 
da Aldeya , que eíTes repúdios naô faó moda 
nas Cortes, e finto ver- vos taõ montanheza, 
fendo taõ bella , que teria Vénus que enve- 
jar-vos, fe deixafles vervos; eheiaftima* que o 
mais preciozo da formofura fe faça intratável 
pprmedrozo, podendo vencer por lindo 5 mas 

fe 



Ganhado pelas armas do Empyrio. jy 

fe vos afluftaó de amor os cazos , aqui tendes 
nas fciencias com que pizar os medos. Vede 
hum Diógenes por fabio zombar de Alexan- 
dre Magno , e vòs por huns vaticínios , que 
introduz a fraqueza do génio eftais deftroçan- 
do as emprezas do juizo. Vede aquelle iíluf- 
tre Grego dando nas fubtilezas do engenho tra- 
ças para os créditos do brio , como fe vê neftc 
livro , que diz : 

Para extinguir a Troya 
No ardente aflalto, 
Apurou fubtilezas 
O engenho raro. 

Também defla lição noó quero nada ( difle ella ) 
que eftudar traiçoens he cometelas, € eftou 
melhor com as íingelezas , que com as traças, 
Naô desluftreis o que fois, ( refpondeu elle) 
medrando , que naõ alcançais o que todos di- 
zem , que entendem , ainda quando o naô alcan- 
çaô ; mas quero ver fe o poético vos diverte 
mais, que o noticiozo. Lede efta Comedia de 
Calderon, que o aperto, e foluçaô dos lances 
bem pode elevar o difcuifo, lem fer culpa o 
difereto. Aqui achareis em Salazar o mimo 
<tes ideas , em Sol íz o elevado dos conceitos, 
e acabai de entender , que fó he viver o di- 
vertir. Naô vos façais anacoreta nas primave- 
ras, que os invernos vos baftaó para contem- 
plativa. Atalhou a pratica o Embaixador do 
Príncipe , que conhecendo o damno da fazenda , 

E ii lhe 



36 • Rej mo de Babilónia, 

lhe difíef NaS façais ,' Senhora , emprego no 
que he contrato prohibiclo ? e quem aqui com- 
pra fempre fe perde ; nem vòs devíeis , atrevia 
do mercador , profanar refp eitos , qua?ido a 
voffb pezar chorais cafiigos ; ainda mal , que 
em Babilónia tem tanto gafto a vo/fa mercan- 
cia. Confundida da luz defappareceo a fombra. 
Foi-fe o mercador perdido , deixando em An- 
gélica enfraquecida a fé, e inrefoluta a duvi- 
da. DiíTe-lhe o Embaixador : Defpertay jà 
deffe mortal lethargo , e fazey memoria de 
tantos par aly ticos , que deverão a jaude fò d 
profia do rogo ; outros deixando as mortalhas, 
nas vozes do milagre publicavaô o recebido 
beneficio \ e fenaõ ejià tao robujla a confian- 
ça , que deixe de fer temor a empreza y eu vos 
deixo entregue á confederação , para que ef- 
colhais ao vofjo mal a medicina. 

Neftes afflitos accidentes da inrefoluçaô 
eftava fufpenfa Angélica , quando o amor do 
Príncipe, que acautelado das viítas fempre 
]he feguia os partos , conheceu, que ella rendi- 
da ás violências do mal fe negava ao amargo 
da triaga , eítragado o appetite no mal guizado 
prato, em que bebera o veneno ; e compadeci- 
do, como amante, determinou curala como, me- 
dico ç porém tinha o feu amor taô polidas fí- 
lagranas no trato , que queria foíTem pertendi- 
das as permiíToens do feu poder , e fem pre- 
tender o extremo de dezejadas , naõ as def- 
pendia a benignidade, por mayor que feja o 

«mpenho da compaixão. 

Naõ 



Canhado pelas armas do Empyrio. 3 7 

Naó conferiria a magefíade do Soberano 
apparecer a fua grandeza conquiílando a mef- 
ma fortaleza , que tinha avaíTalado vencendo ; 
e coftumado a rebuçar os excefTos , com que 
amava, quiz difpor com induftria a fé, que 
era já fua por direito. Mandou o Embaixador, 
que acautelado propulèfle a Angélica o perigo- 
fo do feu achaque , e a efficacia do remédio ; 
e fe o abraçaíle a vontade lhe applicaria elle 
por commiferaçaó do que elía fe negava por 
defdem. Era omeníageiro taõ veloz, que me- 
dia diílancias no efpaço dos penfamentos , e 
chegando, fem fadiga do alento , achou , que a 
enferma eílava delirante pelos defacordos , e 
nas efficacias da febre desfalecido o próprio co- 
nhecimento , que aílim a deixou a pequena ap- 
plicaçaó dos pafTados livros. Quaes feriaó os 
effeitos fe eíludaíTe os feus Capítulos ! Porpof- 
lhe o Embaixador o evidente do perigo , fe- 
naó bufcava taô fciente medico, como o mal 
era arrifcado ; que na grandeza do Príncipe 
havia de achar difpendios da clemência , e lhe 
daria cabedal , com que reflaurafíe o perdido , 
porque ainda que eraõ cuflozos os remédios, 
naó podiaõ efgotar taõ largos thezouros ; que 
os fufpiros da dor Javravaó peitos de diaman- 
te , e mayor effeito fariaõ em quem jà tinha 
aberto o coração pela lançada do amor ; que 
déíTe a£tívidade aos feus gemidos , porque com 
elles venceria os feus contrários , como fuece- 
dera em Sicár, adonde junto de hum poço 
achara elle no mais a&ivo ardor do Sol , na 

mais 



38 Reyno de Babilónia , 

JSanu- mais empinada carreira dos feus rayos , huma 

ritana. mulher , que morria de fede por lhe faltarem 

as forças para alcançar a agua da vida , 

Que amor nefta ardente fragoa 
Mais fe inflammou pela dor: 
Quem hade extinguir o ardor 
A huma chamma, que ardeu na agoa. 

E o Príncipe, uzando da fua natural generofi- 
dade , refrigerara a fede , em que aquelle ani- 
mo ardia, dando-lhe na mais pura agoa o be- 
neficio , de que dependia; que elle tinha hoje 
o mefmo poder de que uzara entaó , e em lhe 
pedindo a mercê, eftava prompto para a pie- 
dade. Animada Angélica com efta noticia, con- 
íiderando quanto arrifcava ria ommííTaó, quando 
pedia preílas a dependência, chamou no Prín- 
cipe a fciencia de medico, no feguro de o 
achar compadecido ainda tendo-o defobrigado, 
e clle que fó efperava a petição para lhe aífignar 
o defpacho , fazendo o feu amor conveniência 
própria , o que havia fer felicidade alheya , 
goftofo lhe acudia logo, que ella o chamou; 
que fineza , que fe detém vendo padecer a quem 
ama , defmente a fineza na demora ; e no Prín- 
cipe foraõ fempre taô, extremofos os exceíTos, 
que por gigantes fó a fua grandeza pode fer 
medida dos feus exceflbs; mas ainda que che- 
gou laftimado, deixou-fe prefuadir mageftofo; 
que aggravos , que tocaó na imperial Coroa , 
ainda quando fe lhe perdoa a culpa, para a 

fatis- 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 3 9 

fatisfaçaô he jufta a pena. Conhecia Angélica, 
que eítava enferma; e dezejofa da faude en- 
trou confiada a pedir, mais nas correntes do 
pranto, que na cadencia da voz, o bem, de 
que dependia, para o mal , em que fe achava, 
explicado neítas 



DECIMAS. 

JL\ Os delirios de hum cuidado, remei," 

Nas anciãs do mal, que finto, Domine 

Que dura a vida defminto , iLf° ni3 

A' dor o alento proftrado : fuaí," 1118 

Remédio difficultado 
Tam grande febre accendeu , 
Que chego a duvidar eu 
Neíla rigorofa calma, 
Se tenho o fogo por alma , 
Se alma ao fogo calor deu. 

Efta doença mortal , 
A que o alento defmaya, 
Para vida mal fe enfaya 
Se fe atêa no immortal: 
Sétta de veneno tal 
Tanto o peito me maltrata , 
Que os fentidos , que arrebata 
Mal deílinta a fantazia , 
Do remédio me defvia , 
Tendo por vida ô que mata* 

Do 



40 Reyno de Babilónia.] 

Po pulfo as intercadencias 
Te informem do meu perigo; 
Porque do mal , que naó digo , 
Jà me açcuzam as evidencias : 
Medico de taes fcíencias 
He que meu mal neceílíta , 
Que com piedade infinita, 
Quando a dor mais defconheço, 
Me cure o de que adoeço y 
E curarme naó limita. 

De meus livres penfamentos 
Perturbados os fentidos , 
Para o remédio perdidos, 
Vivos íb para os tromentos; 
Appliqué os medicamentos 
Quem á mefma natureza 
Deu leys, e com inteireza 
Efte arruinado edifício 

_ Reftaure por beneficio 
De fua immortal grandeza. 



vide ha Vede , Senhor , ( continuou Angélica ) a 

milita- fraqueza, em que a rebeldia das minhas pai- 
tèmca. xoens teai transformado aquelles alentos, com 
que eu prometia triunfar dos aíTaltos, ainda 
que foíTem yigorofos os tiros , e ao primeiro 
combate me rendi , porque na luta me efqueci 
de mz confiar em vòs. Enfraqueceo-a a vontade 
para profeguir a peleja , e allucinado o entendi- 
mento hia fufpeindendo todo o focorro para 

refiílir 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 41 

refiftir á bataria, perdida a memoria nos en- " 
contros- , te delencontrou- dos remédios : C(f õfot*? 
queria cobrala em vòs , e outra vez a achava )h a por 
perdida em mim. Se mandava aos olhos fe re- - vsnUTa 
tiraíTem dos Ídolos, fempre os- acho prezes no 
grilhão dos penfamentos. Se qiuro cenar os 
ouvidos aos eccos de tantas enganofas Seréas y 
a dor de defprezalas faz mais viva a attençaó 
para ouvilns. Defaboreado o gofio na nega* 
çaõ dos appetites , me enfaftia o útil pelo ia* 
boroíb do veneno. Deliberada eflou a fere? 
vos de quem fó fie a minha faude, affervora- 
da a fé para abraçar nas voífas receitas o mi- 
lagre das medicinas. 

Nao pode quem muito ama prefeverarno 
defabrimento , ouvindo as fatisfnçoens do ag^ 
gravo; que amor, que nega as piedades, quan* 
do as roga a fogeiçaô, dà mais créditos á jufti* 
ça , que á fineza. Era o amor do Principe o 
que o fez pizar a opulência do feu Reyno , 
adonde o numero dos vaíTalos fó pode contar- 
fe pelas Eftrellas , e todos taô fieis em refpei- 
talo, como quem para teme-lo tinha exemplo 
nos que colhidos em htima traição , forno con> Aqwd* 
demnados a eterno degredo , adende padecen--^ Laf/ ~" 
do infelices, chorão fem remédio perderem, pa~ ' 
ra fempre , a pátria , que gozr«ó os que na ol> 
fervancia dos reaes preceitos vivem em paci + 
fica poííe àm bens , que neila fe encerrsô. He 
a Corte deíle magnifico Senhor tfeÔ opulenta 
de thezouros , que o feu real Palácio fe fabricou, 
de materiaes taõ p.reçiofos,.' que íao dos topa~ 

F zios , 



4s Reyno de Babilónia , 

zios, e efmeraldas as pedras dos feus muros ; 
como teftifíca o mais mimofo dos íeus Secre- 
Eraogc tarios. Dos muíicos da fua Capella he taõ 
lllta ' filava a melodia, que quem huma vez chega a 
ouvilos, íó lhe fica dezejo para imitalos ; e 
toda eíia grandeza trocou o Príncipe pelos ef- 
pinhos do monte, pelos abrolhos da ferra, 
pelas cabanas da Aldeã , e pela ingrata con- 
refpondencia de Angélica ; e vendo , que a en- 
fermidade a ameaçava na vida com o cutello 
da morte , começou a perfuadila , lhe eraô ne- 
ceifarias as fangrias nos olhos; colirio efficaz 
para as feridas, que jà chegavaô a penetrar a 
alma. Tomou por fua confiflaó delia o pulfa 
ao achaque, e achou, que de enfraquecida a 
vontade própria, bufcava na do Príncipe os a- 
lentos para o # ufo dos remédios; e compade- 
cido do que eila em amar- fe a fi tinha erraáo 
o caminho da faude, lhe applicou o mais effi- 
caz contrario ao feu damno. Mandou-lhe , 
que armalíe laços aos penfamentos, para 'naô ca- 
hir outra vez de Babilónia nos laços. Naõ 
ignorava elle , que hum mal contagiofo fe re- 
nova quando menos fe cuida , mas em quanto 
os remédios fe applicaó , naõ faz o ultimo ef- 
trago o. veneno. 

Os cautérios de fogo magôaõ , mas utili- 
zaó ; e quem haverá, que pela utilidade fe ne- 
gue á fua experiência , fe ponderar o que ar- 
nica no -mal, que fe acautela. Quantos infeli- 
ces naycgaó rios de fogo em Babilónia , fera 
temer-lheas chammas, que faó as crefpas ondas, 

que 



Canhado pelas armas do EmpyricL 43 

/ 
que os levaô ás ultimas minas; e podendo em 
mais fuaves medicamentos transformar taõ euf- 
tofo padecer , fe deixaõ levar das illuzoens atè 
o perigofo eítrago, em que conhecem o feu 
erro. Queria o xMonarca livrar do precipício a 
fua Aldeãa, porque a amava, e deixando-lhe 
no livre alvedrio aberta a porta ás felicidades, 
fe aufentou a experimentar fe feappr-effava a di- 
ligencia para confeguir os beneficies. A o- 
miflaõ no aproveitar das medicinas he evidente 
rifeo no perigofo das doenças; porque ador- 
mecidos os fentidos na confideraçaõ de que naô 
faõ mortaes os fimptomas , fe vaõ paífando os 
dias no engano das apparencias, e vem a fa- 
zer-fe natureza do achaque; atè que quando 
menos o imagina o cuidado, fe acha no ulti- 
mo lance, quem para achar a faude entendia, 
que tinha largo tempo. ApprelTe Angélica os 
pados, fe naô quer infruftuofas as determina- 
çoens ; e vejamos quaes íbraõ os feus progreC 
los no feRuinte cafo, 



FS CA PI- 






J 



Qtp . iv 




Ganhado pelas armas do Ewpyrio. 4 5 

CAPITULO IV- 

Peleja entre os dons amantes. 



A refifiir de amor os duros golpes , 
Quando da ingratidão eílà offendido 
Lhe rende as armas o conhecimento. 
Ficando o rendimento facrificio. 



*i 



PAra curar a febre dos defcaminhos , cm 
que da ingratidão de defcuidada eftava 
Angélica gravemente enferma , foraó as 
fangrias dos olhos o mais efficaz remédio. Ti- 
nha a vontade enfraquecido o conhecimento 
dos corruptos ares de Babilónia , e nos diver- 
timentos das fuás praças tsô trocados os fenti- 
dos para fugir-lhe , como affeiçoado o coração 
para deixar attrnhir-fe dos tropeços , em que 
fe arriícava a recahir , ainda depois de conva- 
lefcer. Confiderou , que o Príncipe lhe recei- 
tava a cura íèm mais utilidade fua, que livra- 
la a ella da morte^ que a ameaçava, e com a 
fubtil lancêta da ponderação abriu a vêa do 
arrependimento , e chorou ter fido quem dera 
alentos ao mal, que lhe cauzava tantos eftra.- 
gos. Entrou animofa nos exercícios de bufcar 
a perdida faude , ficando o fuceíTo por conta èi 
fé , em que fe fortalecia a fua efperança. 

Violência achava Angélica na contradic- 

çaó 






4# Reyno de Babilónia y 

çaô , que havia de fazer ao feu goílo , prohi- 
bidas/as fabulas, de que os Babilónios enri- 
quecem os feus thezouros , fendo a verdade , a 
qje por fazenda defconhecida no fcu Reyno, 
fe lhe na 6 dá o merecido preço , e fó a con?- 
fufaô dos comércios, a frequência dos bailes* 
(em qfrefempre as mudanças vaó retratando as 
venturas,") a multidão dos jogos , em que atè 
quem ganha perde, (porque começaõ donaire r 
continuaó vicio, e remataó perdição,) ospaf- 
fjyos do prada, adonde no attra&ivo das 
rozas fe vem os piques da formofura , íem que 
lhe iirva o chryftal das fontes de efpeího pam 
os defenganos; alli emprega Cupido as feitas, 
fó com a utilidade da dor das feridas, arra£ 
trando as liberdades pelo frágil vidro, de que 
lavra as cadeas aos feus tributários; e fe lhe 
dezata as prizoens he para as transformar na 
duro ferro dos grilhoens do ódio , que fazenda 
iey da vingança, os fogeita á injuftiça. 

Defta variável roda fe compõem todo 
poder daquella Corte, adònde todos traba- 
lhão com tam multiplicados contrários, que r 
qual venenofa Hydra, renafce huma cabeça, de 
eíonde outra fe corta. Aqui vive a razão, ren- 
dida aos impérios da vontade , que fo os 
difames da vontade fe obfervaõ como razaõ. 
Deftes errados artigos dezejava Angélica fugir, 
por fenaõ tornar a enredar; mas como o que 
fuaviza he fempre o que mais agrada, lá lhe 
íaziaó boa confonancia os eccos do divectimen- 
te, para mayor aítracçaõ 7 que as fevendades t 

em 



Ganhado pelas armas do Etjipyri^ 47 

em que fe efméra o retiro j porém o temor 
dos repúdios do Príncipe, lhe íazkó menos 
aceitos aquelles empregos; e ainda que com 
pálios remiflbs , naõ fe negava ao bom logro 
dos Teus aífedtos , a que achava taõ promptd a 
remuneração, corno adlivo o ciume do Princi- 
pe , que por examinar-lhe , atè os penfamentos, 
entrou zelofo a punilos ; e rebuçadas as ter- 
miras de amante com as iras de queixofo , ac* 
tendia as esferas, difparando féttas contra a$ 
níefhias Eftrellas , e dezembainhadas as efpadss 
dá juftiça, Uie mandou a Angélica, que fedef- 
fendem-fe : 

Mas quem de amor aos golpes refiftir 
Pode , quando da$ iras vem armado , 
Se de ver-lhe na mão a efpada forte 
Treme o valor, e desfalece o braço/ 

Bem conhecia Angélica o impoílivel da luta na 
defigualdade das armas : elle com poder nunca 
vencido, e cila fem mais efeudo de que cobrir- .... 
fe, que a piedade, em que confiava, e o ref* 
peito, a que fe rendia.. No fenfivel roubo, 
que facilitou a induflria , cobrindo de velozes * acob# 
peles as mãos, que abrirão a porta á mais de- 
zejada benção, fe accendeu a cólera do rouba- 
do , partindo dezatado rayo , que cortando 
com ligeireza a esfera, queria reduzir a cinzas 
a cauza, que accendêra as fuás chammas. Buf- Ifau< 
cava o roubador , para vingar- fe , prevenidas as 
balias da ira, e afiado o cutello da impiedade, 

tudo 



a$ Re y no de Babilónia , 

tudo que tardava á execução dos golpes. Era 
dezafio das impaciências, mas encontraudo-ie 
os dous combatentes , venceu humilhando-íe o 
que naó podia deftèndendo-íe. Foy hum per- 
dão j que pedia íris de paz, que defterrando 
a tempefíade, que o ameaçava, mudou em a- 
pertados laços da ternura os grilhoens, que 
hiaó decretados para o caftigo. Aífim Angélica^ 
que jà antes de entrar na pendência íe via 
ventajofamente excedida do esforço do feu con* 
tendor. Arruinadas as armas , e armada fó do 
aço das finezas , deu no fogo do facrificiq, 
inayor. calor ao feu rogo y expreílado neíte 



Peccavi, ROMANCE. 

<quid f a - 

ciam ti- my, 

tpsfeo-" D Afte jà, amor , de pendência J 
miimin?- Façamos pazes aqui; 

Sfuifti Q ue contra as * ras de hum Deos 

^e.con- Que armas podem refiílir. 

traiiuin- 



Se rendida me con feiro , 

Que pertendess mais de mim ; 
Naõ cançais de atirar flechas 
Contra hum peito de alíenim ? 

Naó vedes , que he cobardia^ 
E que parece acçaô vi! , 
Com qrnzm vedes dezarmada, 
Querer a efpada medir. 



Eu 



Ganhadofelas ermas eh Ewçyriv 49 

Eu rendida, vos triunfante, 

Vos irado, e eu eintím 
• Das paíTadas valentias 

Defmayado o fernezi. 

Como de amante quereis 
A fineza defmentir , 
Se déftes leys á fineza 
Jà em papel de carmim. 

Se as armas aos voíTos pés 
Por facrificio offreci , 
Como me dais a juítiça, 
Se a clemência vou pedir. 

Wós íabeis , que fois valente,, 1 
E que eu taõ fraca nafei, 
Que pôde na alma a fraqueza 
Fraquezas introduzir. 

Contra quem desembainhais 
Hoje eíTa efpada , adverti : 
Porque triunfar fem contrario 
Naõ hc triunfar , he ferir. 

Deponde o rigor fevéro, 
Que vos podem arguir ; 
i Porque o rigor oftentais , 
|; Se amante o peito me abris» 

ConfeíTo , que contra vos 
Mil vezes batalhar quiz, 

G Mas 



. 



jo Reyno de Babilónia y 

Mas fempre fiquey vencida.; 
E a vòs vencedor vos vi. 

Para que faó eíFes ferros , 
Se me deixa prefumir 
VofTo amor, que voífo amor 
Foy fem. principio 5 nem fim.. 

Jà que rebelde ás piedades 
VoíTas iras mereci. 
Se aqui do que fuy me aparto^ 
Naõ deveis de mim fugir. 

Se ao coração me atirais 
No golpe, haveis advertir j 
Que hides ferir-vos a vòs, 
Que eítais como em vòs em mim. 

Ceife a ira, pois jà vedes 
Que fora afFe£to fervi 1, 
Se naõ amey por amar-vos> 
Amar- vos , porque temi» 

Á volfa piedade imploro, 
Meus rogos chegay a ouvir ,, 
Naõ me mateis de cruel, 
Matai-me de amante fim. 

Jà , Senhor, (continuou Angélica) tendes a- 
purado no meti rendimento os extremos do 
voífo poder, que me naô viríeis a mim taó 
outra ? fe vòs no poderoib naõ fôreis fempre o 

mefmo 



Canhado pelas armas do Empyrio. $ \ 

mefmo. Deixai os rigores , que atemorizaó , 
que aqui me tendes confeiTando as emendas, 
que feguraõ. 

Ferida a alma^ e abrazada tenho 
Neííe de teu amor fogo divino ; 
JE fe queres matar-me j de amor feja , 
Que muito mais , que a vida ^ amor eítimo. 

Os eclypfes no Sol faõ enfayos para mayores 
luzes. A tempellade de hoje faz mnis aprazí- 
vel aferenidade de a manhãa. Combatida a for- 
taleza da vigorofa bataria dos contrários 20 
crefeenta applaufos á confeguida vitoria. Pou- 
co interefTa a volTa Coroa em triunfar das mi- 
nhas reíiftencias j mas he brazaõ da voíTa ma- 
geftade o conhecimento, de que naõ ha com- 
vofco medir a efpada , fem que feja a mão, 
que a dezembainha , a primeira, que fe coita. 
Nos jardins de Babilónia naõ ha flor, quenao 
feja azar. As rozas , que deleitaõ com aromas, 
inagôaõ com efpinhos , que martyrizsõ. Nos 
arvoredos tudo fam viboras, quenataõ, e 
venenos, que debilitaõ. As Aves, que fuaves 
cantão , também infelicidades vaticinaó. Nos 
pomares os pomos , que brindaô o appetite , 
logo amargaó ao goíto. As fontes nafeem ri- 
zo de pérolas , para correrem defengano dos 
cuidados. Jà o meu coração troca eíias appa- 
rencias pelas verdades, entregue a vós todo o 
domínio das potencias. Piza o,s fubtilezas do 
diliurfo, por naó precipitar-fe nos erros da 

G 2 fanta* 



$2 ,Reynv de Babilónia ] 






fâktazia. Se os mayores Potentados da vofla 

Coru vos perderão por ingratos ; eu creada nos 

tumultos de Babilónia , ignorante das politicas 

do voíTo Reyno , e naturalizada na groílaria dè 

huma terra, que a mefma mão, que a cultiva 

a. perde , que podíeis efperar de mim , que nao 

folfe enfraquecer o agradecimento , quando 

mais o alentava o beneficio. Deixay , Senhor r 

jà os ameaços da ira , ouvidos os rogos do 

Canta- meu arrependimento , que fe por trigueira vos 1 

J es defagrada o que pareço, nem poriílb deixo 

de fer formofa entre as filhas da minha terra. 

Nígfa Mudaraórne a côr os ardores do Sol , mas 

íum nao a effencia , que de vòs me deu alguma fe— 

inelhança. 

Se os Babilónios entenderão, que para 
transformar em pazes a vingança dos caftigos^ 
nao pode haver mais acertados meyos , que a 
fògeiçao humilhada; de quantos infortúnios fe 
livrarão esfeus alucinados ânimos ? Mas cega à 
luz da razaô com as efeuras nuvens, que le- 
vantaõ os erros dos vicios , tropeção nos im- 
pinados montes da vaidade, pira fazerem van- 
gloria do mefmo defpenho. Offendida da in- 
gratidão de Angélica eftava a grandeza da 
Píincipe, e pode o humilde do rendimento 
ferenar as empoladas ondas do feu aggravo; 
Para deter todo o ímpeto do mar, quando 
mais crefeidas vaó as fuás enchentes, nao faó 
ncceíTarias eminentes rochas , nem agigan* 
ta dos montes, hum graõ de arêa taõ mugi- 
da ^ que o- vento a léva 3 o ar a muda, que a 

viík 



Ganhado pelas armas do Enipyrio. 5 3 

vifta a naó diviza , bafta para lhe reprimir a- 
quelle furor, que fobrefalta , para defarmar- 
lhe aquella foberba , com que triunfa; aífinr 
a hum coração amante bafta a ternura de hum 
amorofo fufpiro , e a confiíTaõ de huma pro- 
metida firmeza. Vio o Príncipe, que Angélica 
facrificava nas chammas de arrependida as t& 
tivezas de vaidofa , e jà derrubadas as eleva- 
das torres, que tinha fabricado a fua pre- 
fumpçaõ , e que lavava nos rios do pranto as 
manchas, que a fobiraõ a crer-fe immortal nas 
esferas celeftes, tendo elle por natureza a pie- 
dade, abrio a porta aos favores, que eftavaô 
detidos pelo aggravo , applicando toda a ri- 
queza das fuás minas , para adornalas das pre* 
ciofas joyas , a que fobe de preço a immorfa- 
lidade , fem que para definir os feus quilates 
poíTa haver mais contraíle , que a fé, que os reco- 
nhece , e a efperança^ de vir a fer delles defem- 
penho a mefma aíma.. Satisfeitos os dous a- 
jnantes ; ° Princrpe na clemência de perdoar , 
e Angélica nos favores, que recebeo , fe au- 
fentou elle , porque naô confente a mageftade 
demafiada demora na ventura das prefenças ; 
ficando a íaudofa Aldeia entregue ás memorias 
dos paliados arrufos , e temerofa de poder tor- 
nar a experimentafos , nco fiando de É ven- 
cer os perigos, de que jà muitas vezes fe acha- 
ra ferida , q&ando o Príncipe deíla fe aparta- 
va. Na dor da aufencia rompeo o coração nef- 
te fufpiro. 

■ 



£4 Reyno de Babilónia y 

Ay, corazon afligido, 
Que ea eíla aulència fin par 
Haíte la refpiracion 
Preade cl aliento para dar un ay. 

ISÍefte amorofo lethargo eftava detido o penfa- 
mento, quando dclle a defpertou huma Pafto- 
ra, que entrou a pedir-lhe huma efmola , po- 
dendo do ouro, que lhe fobrava nos cabelíos, 
luprir o que lhe faltava nos cabedaes. Era o 
veílido da Aldeã , mas a belleza muito de 
Corte , e com defembaraço de domeílica co- 
meçou a cantar elte 






crer* 



ROMANCE. 

Afèptr-- A 

Juadea f\ R ru fos de feu amante 
Eftava chorando Angélica,* 
Regando triftes jaeinthos 
Com branco aljôfar de perlas. 

As flores fe defmayavaõ , 

Vendo que chora a mais bellaj 
Que os foros da forrnofura , 
Jà nem o tempo os refpeita. 

Ao tempo pede que abone 
A íua amante fineza ; 
Porque a fua fé confirme ? 
O que accufador feu era, 

Aquelle 



Ganhado pelas armas do Empyrio. $ç 

Âquelle manfo ribeyro , 

Que fe quebra pelas penhas, 
Vendo quebrados chryftaes, 
Também os feus chryfíaes quebra* 

1 Da triíleza de hum cyprefte 
Lhe aviza huma Filomena , 
Que naõ chore aufente amor: 
Que quem ama naÔ fe aufenta. 






Quando da vifta fe aparta, Sacra ^ 

O laço entaô mais aperta ; mento, 

Porque fica no que ama, 
Sem fe apartar do que deixa» 

Incêndios de amor reímça 

Quando em nevada appaVencia , 
Maftra, qtie diftante eflà , 
Sendo eíTenciai a prefença. 

Dos amantes penfamentos 

Dê que ella adorna a cabeça 7 

Elle as pérolas enfia 

No fino ouro das madeixas. 

Nao fe queixe quem bem ama , 
fc repare fe fe queixa ; 
Que quem. pérolas eítimn , 
Dará mais preço às finezas. 

Bufque o amante no peito. 
Qjie eu fey , que fe neiie entra , 



Ivo- 



£5 Reyno-de Babilónia > 

Trocará por efte alvergue 
Do Empyrio toda a grandeza. 

Quem fois 9 bella Paftora , ( lhe diíTe Ata- 
geliça , ) que naô fey que império em vòs 
reconheço , que me attrahis a vontade , fom 
vos examinar a effencia ; e por vòs darei o co- 
ração feo permitir a quem jà o entreguey. £u 
Senhora, ( refpondeu a Paftora, ) apafcento 
Cordeiros nos campos Elyfios , porque ali fou 
a mayoral. Tenho certa 1 ciência para conhecer 
.ainda o que naó vejo; alcancey a fraqueza da 
fé, com que vos dezafoílegava a aulençia do 
volFo amante, e como fey, que elle vos ama 
muito mais do que he ornado, entrei a pedir- 
vos huma efmola de feguros , para pagala -em 
certeza de myiterios , que 03 da fineza do voífo 
amante faõ Feniz, que dos inceidios, era que 
arde, cada dia refuicita; e nâõ deveis daracun^ 
íideraçam às duvidas , fenaõ o agradecimento 
ás uuioçns, que eu fey , fe vás naõ deza tares 
os laços , que fie hanidem eternizar as prizoens ; 
Ê tendi entendido, que o deliro Pintor aperta 
as fombras nos efcuros , para que realcem mais 
os coloridos ; que as fombras , com que man- 
cha , faõ prefeiçoens ao que retrata. O Sol com 
o groífeiro de huma nuvem apaga o flamante , 
para dar mayor preço às fuás luzes, O Princi- 
pe nos retiros, com que vos magoa, quer 
acreditar tmis o que vos ama ; fó por ouvir- 
yos fufpiralo , fe encobre aos olhos , porque 
obufqueis nos dezejos, E quem (refpondeu An- 

* gehca) 



Ganhado pelas armas do Etnpyrio. çy 

gelica) me hade livrar de duvidalo, conhecen- 
do que naõ chego a merecelo. Fazey vòs memo- 
ria de o naô offender, (diíle a Paftora ) que 
efte he o caminho de vos fegurares , e de me 
teres a mim da volTa parte, como voíTa fiadora. 
AíTim o prometeu Angélica , defpedindo-fe 
ambas com íígnaes de amizade , e daremos 
delia razaô em outros ÍUcceíTos. 



H CAPI- 









" 



£: 



'*•; 









•%•- 






'.■■.■ ' \.x 




Ganhado pelas armas do Bmpyrie. 59 

CAPITULO V- 

Evidencias do pò na fragilidade do barro* 



Sábio artífice adverte aos Babilónios \ 
Quando na roda o barro demolindo ,' 
Que fe em conílancias crôm fer duro bronze y 
Logo o frágil metal tocaõ do vidro. 



Ortalecida nos defalentos, e armada das Me ®,fi! # 

to, qux- 



aeterminaçoens da nneza ie achava Ange- f 0> q UO d 
liça pelas perfuaçoens da Paftora do Ely- íicut lu- 
íie cnmpo , que fe prometia feguridades de tuin ~* 
bronze contra as armas induftriofas de Babi« cei 
lonia. Tudo no coração era lavrar templos á 
fé , em que offerecia facrificios ao feu amor , 
fem lembrar-fe de que para arruinar os pro- 
teílos da vontade baílaó as inconftancias do 
pó, em que fenaó achaõ nem inftantes de fir- 
meza. Praticava com os feus penfamentos o 
alto fer , a que a levantara a fua fortuna , e tu* 
do que naô era o firmamento lhe parecia baixa 
esfera , para o que a fua Eítreila lhe prome- 
tia. Cria-fe entre os Aítros refplandecendo , 
porque mais aftivas , que as do Sol , eraó as 
luzes, que o Príncipe lhe communicàra aman- 
do. Defdenhava os crefpufculos da Auroi;a, 
porque da fua luz havia deípojala -o Sol ; e 
deíle fenaó fatisfazia no oriente , lembrada de 

H ii que 



6o Reyjw de Babilónia, 

que caminhava para o occazo. Diana lhe pa- 
recia menos digna nas enchentes de refplenilor, 
porque nos minguantes a fombri da terra lhe 
havia diminuir n formofura. Naõ encontrava no 
Firmamento Eftrella, que luzilTe, porque- pa- 
ra brilhar haviaõ efperar o anoutecer , e fóem 
íi, por benefício do Príncipe, confíderava as 
perfeiçoens do artífice, como nafeidas no me- 
recimento, e naó como participadas do favor, 
que ainda que jà a razaô tinha vencido os 
mayores erros, naõ fe tinhaõ extinguido os que 
no amor próprio tinhaó profundado aquellas 
raizes , que fó arrancadas a golpes do pezar 
deixaõ de renafcer; e como dava horas ao ef- 
pelho das lizon jas do goílo , naõ lhe ficavaô 
nem inftantes para o chryftal do defengano chs 
verdades, fem a miítura de humas apparen* 
cias , que fempre deixaô duvidofos os infalli- 
veis. 

O Embaixador do Príncipe muitas vezes 
a defpertava , porque el!a nos ufos de Babiló- 
nia adormecia; porém adonde o defeanfo he 
coílume , o acordar naô deixa de fer violência. 
Lembrava-lhe elle, que a roza em berço de ef« 
meraldas na feia brinco de cobrai, crefeia emula- 
çaô do rubim ; a! li a coroava de ouro a na- 
tureza , jurando-a Rainha do prado; que eraô 
cafoila dos jardins os feus aromas, e attra£H- 
vo dos olhos a fua mageftade, vendo-a com 
guarda de archeiros, que lhe defendiaô o ref- 
peito ; e todas eftas fingulandadcs paravaó no 
defprezo da rnão, que a corta, do tempo, que 

a ul- 



Canhado pelas armas do Empyrio. 6 1 

3 ultraja, do ar, que a desfolha, cta grcíTa-ria, 
que a piza; fendo a mefma purpura, que na 
nanhaa lhe adorna o throno, a que na ^rue^,^ 
lhe enluta o tumulo. Que lá ellava acuella 
grande cila tua, a que para a fua formação derao 
nobre fundamento os mais preciofos metnes ; 
e como os alicerfes efiavaô no barro, huma 
pequena pedra, que defecu do monte, bafrou 
a derrubar taõ agigantado edifício; que coníl- 
-dera (Te, que do Campo Damafceno viernõ os 
primeiros principies, com que foy edificada 
Babilónia, e nella fe perderão os privilegies, 
que a ennobreceraó , por huma preíumpçaõ 
inconfiderada, e ficara total .mina , a que co- 
meçara particular elevação ; que naõ délle ou- 
vidos a terrenas ideas , quando para mais altos 
£ns foraõ deflinados os feus penfamentos. 

Naó achava Angélica diflonancia neftes a- 
vizos, de que fem duvida tiraria utilidades, ar O» finco 
naô contradizelas huns Confelheiros , que naf- íeutuios 
cendo para fervir, fe tinhaõ introduzido a 
dominar; e afluílados no receyo de perder o 
império, que naquella vontade tinhaõ adquiri- 
do, lhe foraõ praílicando humas quimeras, 
que de todo deixavaó fufpenfos os primeiros ^ entido 
impulfos. DiíTe-lhe hum, que tinha prefump- avlíta 
çoens de mais nobre. Q ue fazeis , Senhora , 
negada fempre ao que pode divertir-vos , fem 
ultrajar vos. Dizei-me, para que creou Deos o 
grande theatro do mundo , taô efmaltado de 
flores , taõ guarnecido dos prateados galocns , 
que em ondeados efpaços de agoa vaõ bordan- 
do 



6i Reyno de Babilónia, 

'do a verde relva dos campos , fenaõ para 
que os olhos tiveíTem dignos empregos. 
Acazo ignorais , que aquella poderofa rnaõ , 
que nada fez de balde , a deliniou para recrea- 
^ çaó da humana natureza, e tanto no celeíte, 
como no terreno eílà a fabedoria de feu autor 
pedindo reparos aos olhos; porque naó fique 
fem admiração taõ perfeita obra, que a naó 
fer para vê-lis , efcufado era o adorno do 
globo eftreiado, do campo o aprafivel , eava- 
riadade diverfa das creaturas. Olhai fem me- 
lindre, que para iíTo vos deu Deos os olhos, 
e fenaó quizera que tiveíTem ufo , podia cre- 
ar-vos fem elles : 

i. 
Olha , naó digaó quando 

Os olhos cerras , 

Que as meninas lhe prendem j 

Por fer traveíTas. 

Ouvir Ainda eu acho peor ( diíTe outro compa* 
nheiro) cerrar os ouvidos a tudo, porque he 
porem igual balança o bom, e o mào. Tanto 
peza o fibilo da ferpente , como a muííca do 
rouxinol. Galantes figuras faremos no mundo y 
fem ver, nem ouvir: para iílo daria Deos al- 
ma a huma eílatua de pedra que fó aílim havia 
de a ter fegura , para que era entaõ a com- 
municaçaô da g:nte, porque quem naó ouve t 
também naó falia , e por conceito fó fe enten- 
dem as inteliigencias angélicas. Ouvi , Senhora, 
que eífa he a recreaçam dos racionaes , e naó 
) ha 



Canhado pelas armas âoEmpyrio. 6? 

ha vivente, a quem naô fejaô muito percíFos 
os ouvidos , e fe os tivermos tapados , tam- 
bém a miíTa naô ouviremos , e compraremos 
com huma virtude a tranfgreflàó de hum pre- 
ceito: 



Ouvi quanto vos dizem , 
Porque fe houver-de 
Dizer, fó naô refponde, 
Quem naô entende. 

Outro dizia: O goílo íempre mortificado atè° gca ° 
dos racionaes fez brutos; que enes nafceraõ 
para ter o íuítento fem eleição da vontade, e 
aquclles com liberdade para diftinguir o que 
iie mais para appetecer. Sogeite o goílo quem 

^fil' m3S ? Uem entende determine o' que 
mais lhe agrada; porque Deos quando prohi- 
bia ao homem a ve dada fruta , deixou livres 
£ a l°^ tra /' e >«M* graça tem ve 
nTf^% a a f0rn,0fa ' e deix «^ como fe o 

hencíô enS SJeP , ar ° S - fam h ^ h » s da «PP** 
o Só' 1 ã P ft rudenC í aS d0 temor - N»6 ateis 

tificaeaó he „— ,aç °' c J ue viver da ™>r- 
iincaeao he nao viver, e vós bem rorU'* 

lograr o amor, fem parecer que vós Sei ' 
afflTgIr: nem ^ V0S amar vos hade ^ueS 



Fique aos Anacoretas 
Sempre o amargo / 



E 



€4 Reyno de Babilónia \ 

E nao façais o gofío, 
Pomo vedado. 

--o 

Oifato DiíTe-lhe outro: Naó ha mais fragrantes aro- 
mas, que aquelles, que exhalaó as flores; faõ 
caíòilas, com que os campos offerecem ao Ceo 
os íeus íacrifícíos , e naõ deve prohibir-fe ao 
olfato , o que he vi£tima , com que fe perfu- 
maõ os Divinos altares. Aquella maravilha da 
Arábia , que para aíTombro da admiração fe 
deixa queimar para renafcer , do mais odorí- 
fero páo ajunta a lenha , a que goílofa ac- 
cende o fogo , lizonjeando-fe no ardor da cha- 
ma com a fuavidade do fumo : 

De Arábia eíTe prodígio,' 
Único , e grave, 
Porque efpira entre aromas , 
Fénix renafee. 

Tado R e fpondeu o ultimo : Em Babilónia todos 

querem fer legisladores , formando leys a que 

naó fabem os fundamentos, e topa toda a 

fua Theologia em apertar os ânimos, eftrei- 

tando-lhe atè as refpiraçoens , quando na ley 

. de Deos nao ha regra , que naó feja raciona- 

vel , nem eu encontrei nellas por artigo moer-fe 

com açoutes, arranhar-fe com cilícios, e carre- 

gar-íe huma creacura de ferros, como fc fora 

bruto para mortificar o ta£to ; finalmente o 

Príncipe vos quer amante , mas naõ vos quer | 

morta, Lograi-vos dos voíTos fentidos , que naõ 

pode 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 6< 

pode o coração eftar fempre no eílreito dos 
lentimeiítos. Para tudo vos dará tempo a vida* 
nem lois vos a primeira, que fem exercitar as 
afperezas do dezerto và habitar felices palá- 
cios : 

Gafte nas Primaveras 
Abril as flores, 
Que aos Janeiros lhe ficaõ 
Oi duros Robres 

Naó eftava taõ longe o Embaixador do Pnn~ 
çipe, que naô ouvifle o que alli fe paliava ; e 
vendo, que Angélica no que attendia os con-, 
felhos, moftrava fe aífeiçoava a leguilos, aco- 
dio a prevenir o perigo , antes que fizeííe o- 
peraçaõ o veneno, e diífe : Mal pagais as fine- 
zas fe lhe ouvis praticar as contradicçoens. Ef- 
tes hçreticos capítulos, com que vos querem 
deftruir os voflos confelheiros , os declarsõ 
contra a real coroa vaffalos traidores ; e nefres 
naõ ha confiança fegura, porque nelles tudo 
he i nfedilidade manifefta ; e fe vos lembrares 
de que foftes eleita para Rainha, naõ vos fa- 
reis dos vofíbs fentidos efcrava. Ter olhos pa- 
ra ver o^de que haveis de fugir naõ he cegar» 
A fé naó tem olhos para ver, e nem porifTb 
deixa de fer lynce a fé. VejaÓ os voflos olhos 
as perfeiçoens , que amais , mas naõ vejao os 
objeélos, com que offendeis-, nem feria ra zsô, 
que as mefmas joyas, de que podeis iiluflrar os 
extremos do voílb amor fejao fettas diípara^ 

I das 



66 N Keyno de Babilónia y 

das ao real coração , que fe vos fendeo. S*y 
eu , que em Qaragoça houve Deidade de taô 
amante fineza, que deixou fem luz o dia, fem 
rayos. o Sol, o Geo fem Eftrellas, fem fafiras 
Santa a terra , fem diamantes a forrnofura , porque 
Luzia, houve affedto taõ temerário , que ultrajando o 
refpeito de quem a amava \ fe atreveo a dizer- 
Jhçj que aos feus olhos fe rendera , e quiz ella 
antes perdclos á violência do ferro, que man- 
chalos no indecòro de divertilos*, e fe iílo he 
o que fez qu?m amava , nada fará quem he 
amada em fe negar a ver por fe defempenhar. 
Pouco eftima os thefouros quem fenaõ acau- 
tella em guardalos, e lhe abre as portas, ar- 
rifcando-fe a perdelos. As efmeraldas , que 
em Abril fam efperança dos fru&os, mui- 
tas vezes naó ch^gaô a fer nem ainda pófTe 
àns flores, porque o mefmo Sol , que lhe for- 
tifica as plantas, lhe féca as louzanias; e naó 
deveis fiar-vos do tempo, porque vos nuõ po- 
de dar fiador. Naô deis ouvidos aos que vos per- 
fuadem quando vos precipitaô, que Júlia , fi- 
lha de Cezar, naô perdera de furto a vida, fe 
mó fora por curiofidade examinar os defpojos 
da guerra , adonde vendo tinta de fangue a 
Toga de Pompéo, feu Efpofo, fofpeitar-lhe 
o perigo a elle a deixou a ella motta ; que 
eftes Câó os eítragos , que fe feguem , quando 
fe dá aos olhos mais emprego, que ao recato. 
Ouvi as verdades, fem que entre ellas vos 
loem os enganos, que faô Cocrodillos,que laf- 
tunaõ chorando para matar ferindo. Se os 

na- 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 67 

navegantes naõ efcutàraó a fcnora mufica da 
Seréa , naõ fe perderão nas ondas. Reparay, 
que os vapores da terra fe lizongeaô o olfato 
com aromas, paraõ em horrores , como cavei- 
ras. Os jafmins , que faõ perfumadores da 
Aurora , jà ao pôr do Sol, queimados nos feus 
rayos , faó carvoens , que naó brotaó nem o 
fumo do que foraõ. Naõ eítragueis o gofto 
nas demazias do appetite , que fera defmentir 
o racional; imitar a vontade as operaçocns do 
bruto , de que muitas vezes fe origina tragar p 
amargo no que parecia mais doce, Se Marco 
António fenaô entregara ás delicias do banque - 
te, com qus o hofpedou a grande Cleópatra , 
naó afeminara o valor no defcuido das armas, 
com que fe fez ludibrio dos mefmos Soldados, 
que o refpeitavaõ General. Nem XJlyíles na 
^grandeza dos Palácios de Circe fe efquecê- 
ra da formoía Penélope, fe mais que à formo- 
íura fe naõ entregara ás recreaçoens. 

Naõ feja tanto o excello, , com que vos 
ameis , que vos domine hum fentido por fugi- 
reis a hum fentimento ; que nas grandes ba- 
talhas fe arma o peito da dureza do aço para 
rcfiítir sos golpes do inimigo. Ponderay quan- 
to vos importa naõ perder muito por taó pou- 
co , que o Príncipe fe hoje he cordeiro em So- 
frer, á manhaá pcd^ fer leaõ em caíligar. 
Defpedio-fe o Embaixador, deixando a Angé- 
lica indeterminada no que havia de feguir , e 
deíle lethargo, em que a tinhaõ os Íqus penfa- 
meatos, entrou o Príncipe a defpertala, c com 

I ii hum a 



63 Reyno de Babilónia , 

hum a- egnimatica infígnia lhe poz o pó á vifta 
dos olhos , porque abriííe os olhos, e fe 
conheceíTe pó. EUa , a quem as antecedeneias 
ja traziaó cuidadofa , reparou, em que el!e de 
hum pouco de barro, que trazia na mão, for- 
mava hum preciofo vazo, e logo apertando o 
na meffiia mão o desfazia; ficando desfeita ter- 
ra, o que era perfeita obra. Jà a hum grande 
valido feu tinha fuccedido o mefmo, mandando- 
Ihe foffe a caza dò oleiro para que ville a fra- 
j erem .;queza dos alicerces fobre que levantava 
as. grandes torres a vaidade. Conhecida por An- 
gélica a myítcriofa frafe, com que o Príncipe 
lhe lembrava o que fòra, para. cahir no queera^. 
lhe diíFe : 




Que fado deshumano 
Me condemna teu rigor , 
Se mais que a fettas de amor 
Vens amatarme tyrano: 
Já que humano 
Por hum vil barro groíTeiro 
Trocafte o fceptro primeiro^ 
E do mefmo manancial, 
Puro chryílàk, 
Sendo mar foíle ribeiro*- 



Peis 



• 



Ganhado pelas armas do Empyrio, 69 

Pois de minha antiga hi floria 
Queres , que os fuceíTos diga 
E tanta mortal fadiga 
Mais me atromente a memoria: 
Seja gloria 

Tua efte rigor , que paflb , 
Pois daquelle infeliz cafo , 
Que ern fel o neâar trocou ., 
Dizem quebrou , 
Porque era de barro o Vafo, 

Aquelles nobres principios, 
A que amor principio deu^ 
E de alta esfera defceu 
Para amantes facrificios ; 
Pois propícios 
Quereis que favor medem <; 
He jufto vejais , que tem 
A minha orginal miíeria 
Tal matéria, 
Que vos toca avos tambenv 

Naquelle humano pomar 
De qfiiatro rios regado , 
Donde em chryftaes defatado 
Se admira a enchentes' hum mar 
Foy bufcar 
Voífa poderofa maõ 
Hum barro com tal fenao r 
Que dando-lhe nobre fer y 
Quiz perder, 

De fino o alto brazao. 

c» 



T 



e: 



yo Reyno de Babilónia , 

Se de amor nas finas dores, - 

Acreditais mais nobreza , 
Olhay , que em mim a fraqueza 
Jà vem de volTos mayores : 
Seus errores 
Pela falfa formofura 
De huma maçãa mal madura 
Quizeraô , faltos de ley , 
Que leu Rey 
Viita a mefma veftidura. 

A vofla voz deu o fer 
As creaturas mais formofas ^ 
Veftio de purpura as rofas , 
Fez os campos verdecer : 
Refplandecer 
EíTe altivo firmamento , 
E a mim o barro fundamento 
Deu , porem com hum fer taó iiobre; 
Que por pobre , 
Vos retrata o nafcimento. 

EÍTa azul arquitectura , 
EíTa aurora d* efcarlata, 
EíTas cytharas de prata, 
Do mar efía formofura; 
Bem fegum , 

De obra voíía prefumindo , 
O humano fer competindo , 
Que ao barro levou a palma , 
Mas a alma , 
VoíTo alento a foy unindo. 



i 



Ganhado pelas armas do Empyrio. j i 

DeíTes campos a belleza , 
Dos aftros o luzimento , 
O chryíialino elemento , 
Dos orbes toda a grandeza : 
Com inteireza 

Se renderão, mas de modo, 
Que ainda tendo o império todo 
JVloftrou , na humana fraqueza , 
Tal vileza , 
Como formada do lodo. 

Com rendida fogeiçaó 
Elias volantes plumages, 
Oftreceraô vaíTalageSj 
A'quelle primeiro Adaõj 
E a oblação , 
Tanto feu fer fublimou , 
Que comvofco o equivocou £ 
JVlas de taô fraco artificio 
O edifício ? 
Qiie logo fe arruinou. 

Se quando do barro á mafa 
Se uniu voíTa fortaleza , 
Tomaftes fua fraqueza 
Por brazaó da voíTa cafa, 
E fe enlafa 

Hum fer divino, e humano 
NeíTe peito foberano , 
Dai, como humano, difculpa 
A huma culpa , 
Que fe originou do engano. 

Eíle 



jz Reyno de Babilónia 7 

Efte pó, que fe desfaz, 
Fumo, que defapparece, 
Nada, que íe defvanece, 
Terra , que ie contrafaz , 
Naô me traz 
Em fufto taô evidente,, 
Que ainda vendo o mal prefente r 
Me tema contraria a forte 9 
Se até à morte , 
Padeceftes igualmente, 

Ja fey , Senhor ( continuou Angélica , ) que 
naó ha em vos acazos, porque todo íois 
myfterios. Eífe barro nas volfas mãos me eílà 
dando a conhecer, que. como o oleiro delle 
forma o que lhe agrada , fem que deixe de 
fer humilde a matéria , ainda que a engrande- 
ça a perfeição , vós , como Senhor áo campo , 
e com poder univerfal , podeis na caza de 
Ifrael, como de nada fazer Eftrellas, redu* 
zir as Eítrellas a nada; e fe cila transforma- 
ção he fácil, por mais altas que fiquem as 
Esferas , como fera difficil na frágil natureza 
do pó ; mas reparai , que ainda que com di- 
vería eíTencia ambos fomos de huma maça , 
deveis compadeeer-vos do em que nos parece- 
mos , por mais que vos íublimeis no em que 
vos differençais , ^ lembrar-vos de que perde 
a agua a pureza do chryftal , com que nafee, 
pelos turvos mineraes que corre. Deixemos de 
pleitear, que eu fey me haveis de vencer, nem 
poífo negar-vos o rendimento vendo a vós mo- 
narca, 



Ganhadopelas armas da Empyrio. 7 j 

narca , e a mim fem mais cabedaes, que o 
grilham , que nos enlaça, e a luz, que de 
vós recebo para conhecer nefta 



I T A V A, 



s 



E bufco luz, vos fois foi fem ecclypfe, 
Seformoíura, a vofTa immortal vejo, 
Se fciencias , que fabio melhor diífe , 
Sq m amor , amar he (b voíTo dezejo : 
Se poder , naõ achei quem o competiiTe , 
Se extremo, no portal eftà fobejo ; 
Adverte coração, que he dezatino 
Pelo humano crocar o fer divino. 



Conhecida por Angélica a defígualdade das 
forças, e confeflada a obrigação, em que a pu- 
nham as finezas do Príncipe, alentou elle com 
o favor de deixar amar-fe aquelles defmcyados 
paíTos , que tinha quafi mortaes a fragilidade 
dos defejos para feguilo, e elle vendo-a lem- 
brada dos feus humildes princípios, lhe diífe 
nos fcgredos do (eu coração : Que a mais alto 
thalamo a deftinava o feu amor, porque o tinha Canta- 
prezo com o dourado fio do feu cabello, fe- rcs ' 
rindo-o com a fetta dos feus olhos , e to- 
da era formofa , como a cândida pomba ; e com 
eíla amorofa permiiTaõ a deixou fortalecida, e 
para amalo determinada , fe a inconítancia do 
' K pri- 



1 



j% ' Reyno de Babilónia , 

primeiro fer naô for mais poderofa paraapaí- 
gar a luz do conhecimento, que omanifeíto dos 
benefícios para eternizar delles a lembrança , 
qme deitas ruinas veremos os íignaes no feguinte 



> 



CAPI- 






Car vi 




Ganhado pelas armas do Empório. 75* 

CAPITULO VI. 

Melindres do amor nos piques do ciúme. 



Amor, quando mal pago fe retira , 
De oífendido os defvios profeguindo 
Quando a face aqui cobre de aggravado^ 
O coraçam defcobre entaõ mais fino. 



N 



Ao ha para hum coração amante fineza, que 
mais lhe lizongeye o gofto , que o enterne- 
cido rendimento em que, negadas as liber- 
dades à vontade própria , fe deixaõ ao amor 
todas as jurifdicçoens de que fe aproveitavaõ os 
fentidos para refiftir aos poderes da razsõ. 
Amava o Principe a Angélica com extremos 
taõ manifeftos , que davaõ as evidencias o ma- 
yor calor á fé , para crer ainda o que naõ che- 
gava a prefenciar-fe \ mas era o feu amor trõ 
mal conrefpondido , que podia bem a ingratidão 
fer ré/nora das finezas , vendo , que nem el- 
las tinhaó defempenho, nem firmeza os pro- 
teftos de acertar melhor os paííbs \ porém eílcs 
agudos efpinhos fe atraveflavaó aqueile real 
peito, naõ paflavaõ de hum enternecido quei- 
xume fem chegarem a caftigo executado. A ma- 
va o Principe como elle fó; e efla fingularida- 
de do feu amor o fazia tolerar a grofieira defa- 
jençaô y com que Angélica fepultava na urna do 

K ii eíque- 



y& Rtyno de Babilónia , 

efquecimento as memorias de que fó devia fa- 
zer cuidado ; porque ainda que as luzes da ver- 
dade começavaõ a vencer a efcura noite , em 
que tropeçava o conhecimento, naô eftavaó taõ 
desfeitas as trevas , que naõ neceílltalíem ainda 
de mais vivos refplendores para entrar o dif- 
curfo a fugir das eílradas , que levaó aos preci- 
pícios. 

Já aos favores, que recebia, lhe parecia 
iracionaiidade a negada recompenía , accufan- 
do o tarde , que reparava nos exceíTos que naó 
merecia. Avivava os dezejos de recuperar a- 
mando os deslizes , em que perigara offendendo. 
Efte rendimento, que para ella era novo empre- 
go, foy para o amor do Príncipe mayor eftimulo, 
avaliando a pereiza obrigação de íer amado co- 
rno penhor, que ella na fua maÔ depofitava 
para lhe render favores de mayor preço ; 
c elle já efquecido dos paífados fentimentos 
fe deleitava, vendo lhe entregava ella nos fa- 
crificios do coração o coração , de que elle ja 
fora acredor em mais digno facrificio. Nada lhe 
pareciaô já os aggravos, remidos pela confiíTaó 
dos afte&os ; queeftes milagres doamorfófe a- 
chaõ naquelle amor , que do poder foy milagre. 
DifFerentes eíFeitos fentia o peito de Angélica def- 
ppis de conhecidos os perigos, a que a expuferaó 
os labyrintos daquelle Reyno, aonde os folie- 
gos faõabyfmos. Difcorria quanto cega fe ar- 
rifcàra , guiada pelas confufas leys de taô infe- 
liz dominio y e voltando os olhos a huma , e 
«outra parte 3 em todas via cuberto o orizonte 

de 



Ganhado pelas nrmas do Empório. 77 

de tenebrofas tempeílades *, que lhe ameaçavaq 
os últimos fins. Naó encontrava Eftrella , que 
luzifle, nem Sol, que no occafo fe fepultafíe : 
temia, que os paíTados defcuidos foflem apor- 
ta, por donde entraífe o repudio, que até 
ali tinha fido difvello; mas logo fe animava 
com a memoria de que em Jerufalem naó fora 
menos deftruida aquella formofura, que fendo AMag. 
laço dos alvedrios , fazia oftentaçaõ de captiva- daleilíu 
]òs, e defdem de admitilos y fendo o ouro de 
f<his cabellos rede, em que, prezas as liberdades, 
deixavaó mais livre a vangloria de ver multi- 
plicados os rendimentos , e a hum fó rayo de 
luz feferenou tanto a impetuofa tempeftade, em 
que naufragava, que bufeou ancora para fal- 
var-íe nas mefmas ondas, em que fe perdia; 
fendo aquelles mefmos cabellos as victimas, fe 
delles fe tinhaô aíToprado as chammas; e logo 
que envoltos no mar do pranto foltàraô as 
vellas à fineza , fe dera o feu amante por taô 
penhorado ,• que confeflfára reftaurado o perdi 
do, eem reciproca uniam conrefpondidos os 
afFe&os : logo fe eu (dizia Angélica ) nos en- 
redos de Babilónia perdi o norte, que me guia- 
va aos acertos , também defprezando os defea- 
minhos achàraô feguro porto os meus cuida- 
dos. PPrincipe naó me ama menos , eeudefejo 
amalo mais ; a efperança fe anime , viíto íer da 
alma o melhor alent^ a efperança. 

Tinha ella huma dama deite nome, que a 
acompanhava, eparecetido-lhe era chamala . veyo 
a faber o que queria , e achando-a .com p cor 

in- 



7$ Reyno de Babilónia ] 

inflammada , òs olhos dizendo em línguas de pé- 
rolas , que o accezo rubim do coração dava para 
aquelle incêndio larga matéria aos penfamentos, 
lhe diife: Vejo-vos , Senhora, taõ entregue às 
voíTas imaginaçoens, taó amortecidos aquelles 
briozos impulfos , com que a voífa belleza fa- 
zia galla de captivar altivezas , que me attrevo a 
inquirir a caufa, que vos pode transformar; e 
fiay de mim , que para o vodo focego talvez 
feja remédio a eíperança. Nas perfeiçoens da 
arte he ardil recatalas por naõ desluzilas ; mas 
nas paixoens da alma he desluzilas naô cõmu- 
nicalas. O Príncipe me manda , que vos aílifta, 
fem que me aparteis de vòs, e deveis dar exer- 
cício às luas ordens \ que preceitos foberanos 
naó os obfervar feria ofFender , e muito mais fa- 
bendo , que 

Eu fou nos bofques amenos, 
Adonde Aurora amanhece, -v 

A que alento no Sol,quefeus rayos aclare^ 
A que faço, que o dia nova luzefpere. 

Eu Cbu a que ao alto globo 
DeíTa maquina luzente , 
Deixo alentadas nas opacas fombras 
A luz das Eítrellas, que o dia efcurece* 

Eu fou ao homem a columna, 
Em que fua fé fuftente, 
Que fem mim fearruinaó da fé ostrofeos, 
E comigo da fé os ardores feaccendem. 

Eu 



Canhado pelaf armas do Etnpyrio. f$ 

Eu fou a que ao verde prado , 
A quem o Inverno empobrece, 
Lhe prometo nas flores o fruto mimofo, 
Lhe alleguro nas folhas fecundos os mçzes. 

Sou a Efperança , que fiz , 
Que a morta luz renafcefTe ', 
Porque em os incêndios de amantes fufpiros 
Encontrão matéria para mais arderem. 

Sou emfím, para aniroar-vos, 
Huma Efperança , que he 
Quem deílroça os errados vapores da terra' 
Se confia o triunfo em Divino poder. 

Acertado lhe pareceo a Angélica efte avifo , em 
que achou mais myilerio, que accafo , e lhe ref- 
pondeu : Como oráculo, mais que humano, de» 
cifra fies agora a duvida , em que fe embaraça- 
va o meu difcurfo, e devo crer, que para e- 
mendar temores heide acudir á Efperança , co- 
jno fagrado , em que achaó refugio as tribula- 
çoens. He certo , ( dille Efperança ) que recor^ 
rer a ella tem myfterio , quando a fé fe acha 
combatida da duvida, e ainda cjieeu fó naõ poífa 
fazer o milagre , ha virtudes , de que faô mi- 
lagrofos os nomes. As afflicçoens, ( continuou 
Angélica ) era que fe acha o meu coração na 
lembrança dos perigos defta Corte, tem t2Õ 
enfraquecida a fé de poder nelíes confervar as 
finezas do Príncipe, que chega apoderar fe a 
duvida do que deve permanecer confiança. 

Bem 



Stf Reynô ãe Babilónia y 

Bem vejo , que os féus favores os naõ limi- 
taó nem os comércios das praças , nem os gri- 
lhoens, que nellas encontrarão os meus penfa- 
mentos, mas ô que nelle hoje he grandeza do 
animo, quem me diz, que á manhãa naó fera 
faftio do meu defacordd , è venha a punir a 
juftiça, quanto hoje diflimúla a clemência. Eu 
quero vencer os temores com o vigor das de- 
terminaçoens , ♦ mas fe a menores aflaltos , que 
os que me apprefentaó os que querem deftruir 
a minha fortaleza, fe viraõ derrubadas mais al- 
tas Torres, eu, a quem o Príncipe moftrou a 
fragilidade do barro, fobre que afTenta o gran- 
de edifício da humana prefumpçaó , em que 
poíTo confiarme, que naó feja deftruir-me. O 
penfamento he nuvem , que voa , a vontade 
vento, que o contrafta , as occazioens efpóras, 
que o picaó , a refiftencia debilidade, que logo 
defmaya, e Babilónia, toda perigos, que me 
confundem, e o Príncipe potentado, que pode 
ainda ? que como poderofo fenaõ vinga. DK 
zei-me em taó valentes contrários, como pode 
naõ desfalecer o animo , que de tantos inimi- 
gos fe vè ameaçar. 

Era Efperança de fubtil difeurfo, e ma- 
duro confelhò , (que nem fempre no verde das 
primaveras deixaõ de colher- fe lazonados fru- 
£tos \ ) e vendo , que em Angélica o accidente 
da defeonfiançá podia fer parocifino ha fé, lhe 
diífe: Por certo-, que mais . vigorofa cuidei, 
que eftavà a \óffà refoluçaa, más vejo , que o 
mais pequeno argueiro , que fe levanta do po 

da 



Ganhado pelas armas do Empyrlo. 8 r 

da terra , fe eftremecem aquellas forças , com 
que devíeis defender- vos. Eu naó digo, que 
defprezeis os pofliveis , que feria negar ás ju- 
rifdicçoens da mageílade fegurar-vos , quando 
da falta do merecimento deveis temer-vos * 
quero fó que vos lembreis , que nos mais em- 
polados mares , combatida da fúria dos ventos 
fobre a ancora da efperança , fe fegura a mais 
arrifcada viagem. Bem fey, que entre Scyla, e 
Carybdis fó com grande focorro deixa de per- 
der-fe quem fe embarca, e para naó feres def- 
troço das ondas , acolhei-vos á luz, que re- 
parte a Eílrella do verdadeiro norte , e dizei* 
lhe: 

En los procelofos mares \ 

Quien fu efperança en ti fia, 
Con feguridad confia. 

E coroada do verde louro deíla efperança ga- 
nhareis o triunfo, ainda que as bailas de Ba- 
bilónia vos queiraó dar o aflalto. Alentada, 
ainda que temerofa , hia a refponder-lhe An- 
gélica , quando viu , que o Principe atravefla- 
va o jardim fobre que cahia a janella , em 
que ella eftava , e chegando mais perto , co- 
briu o roftro com a mão, recatando a luz, 
em que ella dezejava , como maripola , arder. 
AfTuítou-fe no defvio, que jà era impaciência, 
de que foraó teítemunha as vozes nefte 



RO- 



8 z Reyno de Babilónia , 

Çurfa : ROMANCE. 

cie tua yà 

Sf °& A H , que de amor , que me mata j 

aibitra- Senhor , o vofib defvio ; 

ri$ me _ £ pois na6 poíTo a finezas, 

iuam^ 1 Quero prender-yos a gritos. 

Ferif-me, e efcondeis a mão; 
/ Matais-me* e as armas: cobrindo f 
\ Por vos negar ás piedade» ■ 
Naó quereis ver o confticto» 

Se por amar-me deixaftes 
A nobre Corte do Empynoj 
Como, vencida a diftancia 5 
Retrocedeis o caminho» 

Na6 fois vbs aquelle amante , 
Que de meu amor ferido, 
No breve efpaço de hum nada 
Eftreitaíles o infinito. 

Naó fois o que por fineza, 
Defprezando o Cqt altivo, 
Lá defde as azas dos ventos 
Baixaftes de amor trazido. 

Na& fois a que equivocanda 
Voffa grandeza comigo , 
Me dais a purpura Regia, 
Hum tofco fayal veítindo. 



Como 



Ganhado pelas armas do Empyrio, 8 3 

Como agora me negais , 
( AffeCtando o vingativo) 
De amante o real feguro. 
Satisfeito jà o delido. 

Agora efcondeís a face, 
De mim a luz encobrindo; 
Se ifto fazeis quando amante, 
Que fora quando inimigo. 

Naõ, Senhor, naô me eftà bem 
Efte modo de carinho : 
Eu por ver-vos dera a vida, 
E vós matais-me fugindo. 

Tiray dos olhos a máo , 

Porque em mortal parocifmo ^ 
Vendo eclypfado o Sol , temo 
Chegue o dia do Juizo. 

Se-quanio a luz me efcondeís 
Me expondes aos precipícios, 
Vede que devo queixar- me 
De que ameis o meu perigo. 

Para que he vendar os olhos , 
Quando nelles dous Cupidos 
Trazeis, que flechas difpàraõ, 
E eu fou alvo deites tiros. 

Se vos amo mais que a mim , 
E fe fó de amar-vos vivo , 

Lii E 






S^ Reyno de Babilónia , 

Efles rigores parecem 
Travefluras. de menino. 

Se de meus paíTados erros 
Saô eíTes defdens indicio,, 
Jà eílaó os erros paíTados 
Por aíto preço remidos. 

Voltai a mim. eíFes olhos, j 

Porque pondo-mos, confio^ 
Haó de fer piedade em vós 
Os que faõ em mim gemidos. 

Eftava no peito de Angélica jà introduzida & 
quellachamma para que deu matéria a piedade, e 
a pezar dos temores fe exhalava nos fuipiros 
a beneficio da clemência. Fazia a conhecimen- 
to próprio quaíi natural a defcon fiança; porem 
vencia o defejo de merecer na ternura , o que 
arrifeava no aggravo. Entregue a eftes penfa- 
mentos eftava , quando ouvio , que a elles lfees 
dava refpofta quem fe oifendia da duvida , di- 
zendo- lhe : 

Ay de ti , fi en mi amor no confias, 
Belleza infeliz, 

Que a las iras de un Dios folo puede' 
m Amor reíiftir 

Ay de ti. 



Si et incêndio de amor no avaíTalla 
Mi altiva cerviz, 



Que 



Ganhada petas armas do Etnpyriò* 85* 

Que laurel de los rayos librar te 
Pudiera íln mi. 
i Ay de ti. 

No es fineza dudar mis piedades T 
Peró agravio íi ,. 
Qjae a mis ojos Hega defairado 1 
Dudozo un gemir 
Ay de ti; 

Si no efperas , que amante mi pecho* 
Se dexe rendi r, 
Vil defpojo feran tus alientos 
De braço mas vil. 

Ay de ti. 

Difle-lHe Efperança, que ainda fe achava pre- 
lente: „ Agora vereis quanto importa confiar 
„ para confeguir r que a hum animo Real naó 
„ pode fazer-fe-lhe mayor aggravo , que naô ef- 
„perar delle o perdanrdo deliéto ; e quem 
5? quando eftes corriaô , picados das efpóras da 
^vontade, vos naô atalhou os paíTos com o 
y , caftigo ,., agora que vòs quereis defpertar das 
3v fomnolencias da ingratidão > naó vos fufpende- 
3 , rà os foccorros 5 com que vençais os perigos, 
5> que para eftas ajudas de cufto tem fempre 
5? abertas as portas dos feus thcfouros. Te- 
„ mei-vos de vòs , como contraria , mas fiai-vos 
„ nelle , como foberano j q deíconfiar da genero- 
sidade de hum amante liberal, que defperdi- 
„ çou rubins por nadas de terra , que reparte 



»<» 



/ 



26 Reyno de Babilónia , 

„ coroas para premio de pequenos méritos, e que 
„ atè a Ç\ fenaõ referva , porque atè a fi fe da, 
„ prezando a fua fineza mais, que a própria 
? , vida, parecera, que fazeis vida dedefeonhe- 
„ cer aquella fineza. Vefti-vos da galla da Ef- 
„ perança , e ella vos alcançara a poíTe da me- 
,,lhor purpura. 

Foram as vozes de Efperança flechas , que, 
difparadas pelo amor, começarão a ferir em An- 
gélica o coração , adonde executado o mais ar- 
dente do tiro, abriu por donde íe exhalaflem 
huns fufpiros, que fe ainda naó eraõ chamas, 
jà fe divifavaó faifeas; avivando-lhe os defe- 
jos de que atè ali andavaõ ignorantes os cui- 
dados. A memoria lhe recordava quantas vezes 
fugira à permiflaó dos favores por naó agra- 
decelos, e que agora os bufeava ambiciofa , quan- 
do o Príncipe moftrava querer retiralos fenti* 
do, e nefta mhgoa lhe dizia: Bem fey , Senhor ^ 
O p ^ ue fenao negarão piedaâes de Pay a hum 
digo. jttlw ingrato n quando tornou a bufe ar o *?- 
brigo de que tinha fugido cego. Co.no elle me 
auÇentei , mas já vos bufeo como elle , e por 
hir para vòs, atè de mim vou fugindo. Dei- 
xai achar vos , que detriminada ejlou a feguir- 
vos. Veremos fe defempenha a conftancia, o 
que promete a primeira lavareda, continuan- 
do o fucceíTo no feguinte 



CAPI- 



Ganhado pelas arnias do Empyrio- 87 

CAPITULO VIL 

Defafoga da dor na rio* das tagrymas. 



Erros da ingratidão ja conhecendo r 
Do defengano a luz vaõ advertindo,? 
Para lavar do pranto nas; correntes 1 
As manchas, fubmergidas> em dou&rios» 



MAL curada , ainda que bem ferida, dos 
golpes das íuas experiências fe achava* 
Angélica,, no» defeuberto campo das fuás imagi- 
naçoens, regando com o desfeito chriftal das la- 
grymas a fuave Republica das flores ? adonde 
a violência dos defenganos tinhaõ defatado em 
terniífimos chuveiros as groíTas nuvens, de que 
em Babilónia fe coííumaó armar as tempeíta- 
des. Ali difcorrendo o penfamento as imcom- 
paravers finezas, com- que a grandeza do Prín- 
cipe a fublimàra ao fer, que nao tinha, cama 
conrefpondemicia, que na fua inconfiancia achara, 
opprimido o coração ao pezo dos benefícios , 
começou a invejar de Areihuza a^ transforma- 
ção , para por melhor Alfêo fe falvarem os feus 
defcuidòs nos rios de mais bem nafcidos cui- 
dados. Jà aqueHe empedernido mármore fe hia 
liquidando em tetmiras , e conhecida a dureza 
de tanta ingratidão profíofa , fe dava por ven- 
cida a fua refiílencia. Fallavaô os olhos em la- 

g r y- 



38 J Rejm de Babilónia^ 

grymas, o que o peito recatava aos íufpiros; 
e entregue toda z dor ao pranto , fe deixou 
nos rigores do fenti mento. 

JEftando o grande Alexandre na conquifta 
de Niza , vendo , que os foldados temiaõ, que a 
grande altura das agoas , em que fe dilatava hum 
Rio, que havia de dar paíTo ao exercito, forte 
das fuás vidas chriílnlino fepulcro , incitado o va- 
lor daquelle Monarca a moftrar, que ofeuanimo 
igualava ao íeu nome^ defprendeu o efcudo, e fa- 
zendo delle fegura defenfa ao empolado das a- 
goas , fe entregou deftemido às fuás ondas; fa- 
çanha, que admirada pelos foldados, os fez 
pizar os perigos para lhe imitar os progreíTos: 
Iílo, que em Alexandre fe viu por adquirir fa- 
ma , que muito he fe veja em Angélica por 
ganhar gloria* A de eftar na graça do Princi- 
cipe jà lhe prendia o cuidado , e temendo per- 
dela pelos paíTados empregos, maldizia o tem- 
po , em que por humas apparencias , a que os 
fumos da vaidade correm as cortinas taó ligei- 
ras para viftas, como as cerraó para lamenta» 
das por huns nadas, a que da fer o penfamen- 
to, para deixarem de o ter pelo defengano , e 
finalmente por hum ídolo, que rendendo-lhe 
cultos o amor próprio, deve negar-lhos a ra- 
zão, fe tinha ella apartado tanto da razaõ, que 
de todo a defeonhecia. Fazia impaciência , o 
que ella naõ avaliava no barro natureza. Efta- 
vaõ entaô as luzes da fé refplandecendo, fe atè^ 
ali tinham vivido cegando; e vencidas as fom- 
bras fe deixavaõ conhecer melhor as verdades, 

recu- 



Ganhado pelas armas doEmpyrio* 89 

recuperando Angélica agora, no mar -das Jágry- 
mas, o que tinha perdido nos divertimentos da 
Corte. A 7 força deite impulfo rompeu a dor nef- 

tes brados, ■ 

:.."-..•. "■■'.' b 

Toda huma alma em dous rios desfeita, 
Todo hum mar nos pezares dilate , n 
E os gemidos ruidozos no vento 

Em chuveiros da dor fe dezatera; iv 

■ ■ ■• • 

< > ■■... 

Os alentos , que no pranto fe afogam , 

Os íufpiros , que no fogo nafcem , 

Se fe ficam fufpenfos na queixa, 

Refufcitem incêndios nos ares. 

Deífa Corte Cetefte as fafiras 






Em moidos aljofres feexhalem, 

E em batalha eíles quatro elementos 

Meu confuzo difcurfo os retrate. 

Ar :ab , '■ ■•■ • I 

Eíla nuvem, que corre ligeira, 
EíTa luz , que alumea fuave, 
Se desfeita em chuveiros qilenta; , * 

Nos chaveiros^ que alenta naó pare f 

DeíTes prados a galla mimofa 
Na ruidoza corrente fe enlace ; 
Porque as flores ,\ as plantas, as fontes 
Minha dor fenfitiva reparem. 



• ■. ' . v ■ "> - ' ' -- " . . 



r\ 






M Def- 



9a Reyno de Babilónia 

Desfalecidas as forças na furiofa tempeftadedas 
lagrymas , defmayado o coração nas corpulenta^ 
ondas j que combatiaõ os difcurfos , eftava a af- 
flidta Aldeana, ora animando os temores em fé 
da benignidade do Príncipe, ora aííuftada a con- 
fiança no mal merecido das finezas, que em hum r 
c outro extremo fe detinha o feu cuidado; quan- 
do reparou, que no mefmo campo, em que cor- 
ria eom innuudaçaó de pérolas huma bem la- 
vrada fonte de* firaiffimos jafpes, eftava recorta- 
do, qual outro Narcizo, hum galhardo cava- 
lhero; parecia igual a ella no nafcimento *, por- 
que eftava no traje igual a ella. Veília hum 
pano ligeiro, porque atè os adornos cançam, a 
Oamor quem fó de amar-fe fe adorna. A cabeça era gal- 
próprio la dos ares , porque elles lhe davaó as plumas 
fidefian- p 0r j n fignia dos feus penfamentos. Efcutava ad- 
#J?fi! niirado o enternecido pranto de Angélica , como 
quem fó achava para choradas^ as horas, em que 
as própria^ utilidades nao ocupaõ do^ dia as 
horas todas. Rompeu a fua fufpenfaó , dezatan- 
do o filencio , nefta pergunta. Dizei-me, Senho* 
ra, adonde ach afies fer razão desperdiçar as pé- 
rolas , que outra vez naõ haveis de recolher 
veffes > % úele[tes* cofres*.- *2\aÕ pouco I valor lhe 
dais , que fazeis conveniência de quebralhe of 
fios em perjuizo dos thefouros, naõ temeis, que 
o Sol fe queixe de lhe eeclypfares os rayos^a nou- 
te de lhe cobrires as ejirellas , e o amor de lhe 
quebrares as^fettas. Sei eU , que a aurora fe 
levanta rizonha do berço das ondas , e vos 
com fem razaõ ejlais fepultando o Sol no mar 

das 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 91 

das lagrymas. Deixai as fadigas da dor , a, 
quem tem contraria a fortuna, e logra i-vos da, 
fortuna , fem quereres fegurar a fua roda, 
com a vojf : a dor , que fe vosnao amais a mi, 
que fois do mundo o mais amavei fq naò ' fcí 
tnoflrais, que vos def conheceis , mas .negais a 
gloriada quem vos deu as perfeiçoens^ que vos 
fazem amável. NaÕ choreis a matar-vos , que 
he ingratidão cmivofco', vivei, a divertir-vos* 
que he piedade com todos \ que quem vos vir na* 
vegar ondas de tribulação , por vos feguir fe 
lançará aos mares , a donde perigam as vidas, 
e> fem tanto arrojo fe feguram as viagens. 
Chorar parece fraqueza, a donde fó o efperan 
he valentia', nem vos engolfeis nos dezajo.ceg^s^ 
por naõ arrife ar es tantas vidas nos fobrefah 
tos. 

Pára, Deidad hermofa , 
Que.de tu llantõ; el ifiàr , 
-A nega tu foíTiego , 
Y amenazan las olas tu beldad, 

Dejenganem-vos ( continuou elle ) os mármores 
defta fonte , que nem tantas continuadas cor- 
rentes baflaÒ para abrandar as durezas do 
marmore\ e os trabalhos do animo debilitao 
o goflo , fem muitas vezes adiantarem o mere- 
cimento. Também chora o infenfiveL de hum a 
penha, efica immovel", aprendei da penha a 
refiflir ,mas nao a chorar , que defmentis a 
conftancta , rendendo-vos à ternura. „ Refpon- 
&C!" Mii »deu- 



91 \ Reyno de Babilónia y . .) \ 

^deu-íhe Angélica. Tal he o meu còraçaô de 
„ empedernido ? que atè as pedras o afrontaó , 
,i^què 'elJas chorão fendo infenfiveis, e eu por 
,; fenfivel devia chorar mais que èllas; masque 
„ vos knporta a vòs o irrceíTante das minhas la* 
„grymas, que fem eu vos confuftar , me pon- 
^des tantos argumentos para as fufpender.„ Eu 
Senhora ( refpondeu elle ) fou hum homem de 
taõ melindrosa condição ', que por amarme nun- 
ca reparo em per derme. N ao tenho fortaleza 
mais que na vo?itade , e fo de fatisfazelafaço 
memoria, ainda que o contradiga o entendi- 
mento, E flava naquella fonte jatisfeito de a 
ver rir fem chorar , que o que parece chorar 
naõ he fentit , e de fie prazer me t ira/t es r 
vendo-vos chorar % nao fo a Jentir 7 mas a mor*. 
rer % como vas dizem ejlas 

D ECIM AS. 

Se por dar Iuftre aos pezares 
Voflas lagrymas tei mofas 
» Correm por margens de rofasj 

Porque naô cabem nos mares: 
A fubmergir eíTes ares 
Subiram Rios crefcendo, | 

E certo o naufrágio fendo , 
A fineza desluftrais, 
Porque podendo amar mais^ 
Deixareis de amar morrendo* 



..■-■ 






*. 



Dei«? 



Ganhadopelas armas do Empyrio, 93 

Deixai, que o mar (e dilate, 
i Que o Rio fc precipite , 

*i Que o vento fe fortifique y 

Que em agua a nuvem dezate^ 
Sem que vós nefte combate 
Bailas de neve efgrimindo, 
Que as eftrellas vaó ferindo , 
De neve , e fogo tomeis 
As armas, com que offendeis^ 
De amor os rayos cobrindo, 
^, Deixai-me pelo que amo ( difle Angélica) naô 
„ he deixarme, hequererme, que fe mais, que 
„ a mim devo amar , a quem por amar fenaó 
aparta de mim, fica fendo lizonja para o coração, 
3,0 que he fatisfaçaó pelo deltino. E cema 
podeis vos (tornou elle a dizer) achar gojlo 
fio mariyrio , lizonja no pe^ar, e conveniência 
Jto dezafocego ? JJio fao e ff eitos do ódio , e naô 
do amor, e vos eftáis obrigada a amar -vos , por- 
que he duas vezes culpa aborrecer- vos. Na o 
vos canceis ( diífe ella) em perjuadirme , que 
jà nao trouxer ao o caminho as minhas lagry- 
mas, depois de conhecer divida as fuás cor- 
rentes. Ao que elle refpondeu : He ptrque 120 
inverno da vida as primeiras aguas fao rocio 
das flores , mas logo cança a ventade com 
que as recebem os campos , e cefjao de vertei- 
las as nuvens. Jà a efte tempo entrava o Em- 
baixador do Príncipe, que difvellado prevenia os 
reparos , antes que ehegaíTem a eftragos as tribu- 
laçoens ; e ouvindo, que, contra os reaes decre- 
tosy fe atreviaó indignos vaflallos, lhe diffe com 

intei- 



94 Reyna de Babilónia \ 

inteireza de valido , e liberdade de defínterefTado. 
„ Naõ ha coroa, que o ganhala , quando naó 
„ feja a cufto do fangue, fenaó conquifte a 
„ difvellos cía diligencia , e quem aconfelha con- 
dira o empenho de aprefíalas, he infallivel ao 
„ lucro de confeguillas. A mageftade do meu 
Jdvtr- )> foberano.fe fenaó defaggrava das traiçoens, 
tenda „ como juftiça , he porque a fufpende por cie- 
contra o . meneia , mas naó deve fiar-fe defte attributo 
Titio. » a culpa, que fe efqueça de que o aggrava, e 
„lhe ferem o peito vaífallos rebellados; e fe ho« 
„je vos vedes defeançando nos quartéis dovof- 
„ fo goíto, talvez que à manhãa vos peça conta 
„ de deixares pelo gofto, fem defenfa , os feus 
„ quartéis, quando fervilo a elle eftà primeiro, 
,,que amaref-vos a vòs. Angélica, a quem o 
vento das vaidades- ameaçava o naufrágio nas 
tormentas, fe fe acolhe ao (agracio das finezas^ 
he porque conheceu o feu perigo, e naó bate- 
ra pela. vofTa perfuaçaó às portas ila juftiçá, ar- 
rifeando-fe à achar fechadas as da clemência; fe 
tem que chorar no que foy, chore porque naó 
fabe ò que hade fer; e as incertezas do futuro 
he fó o que fe deve chorar *, que as glorias, com 
que os Babilónios brindaó aos da fua Corte, fe 
tem inftantes para o gofto, deixaó para a pena 
eternidades, e defpois de conhecida a pouca du- 
ração , nada lhe fica para a difeulpa. Agora 
confulte ella qual *póde utilizala mais, fe cho- 
rar para confeguir, fenaó confeguir para fem-> 
pre chorar. Gom o fim defta pratica o ©oz .taô 
bem àvilita, de que jà tinha defpedido a Nar- 

cizo 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 95 

cizo da fonte, ficando fó Angélica entregue ao 
folio, que lhe occafionavaõ os feus penfamentos, 
explicados nefte 



o 



ROMANCE. 






H quem defle mar podéra 
As correntes efgotar; 
Porque em meus olhos crefceíFe 
Tanto vertido chryftal. 

EfTas empoladas ondas, 
A donde Thetis eftà 
Colhendo a pérola fina 
Da fria concha a pezar : 

Efle nevado Palácio, 

Em qud Neptuno ocultar 
Entre correntes montanhas 
A prata brunida faz: 

ElTe dilatado campo, 
De pérolas mineral, 
Adonde o Nilo, e Eufrates 
De cançados vaó parar : 

As fuás claras correntes 
Meu pranto envejando vai, 
Que he pouco chorar hum Rio; 
Quem deve verter hum mar. 

A todo o Oceano quizera 
Em meu pranto retratar 3 



Por- 



96 Reynoâe Babilónia; 

Pofque a feus dilúvios foíTe 
O meu pranto original. 

A e(Ta azulada esfera 

Vaó com ímpulíb efficaz; 
Porque fubao pelo fogo , 
Se defeem pelo pezar. 

De meus paíTados deslizes 
Taô viva a memoria eílà , 
Que a conta deita memoria 
Pelos olhos correra. 

Se daquelle antigo Hebreo 
Da vara o golpe fatal 
Efte penhafeo ferira 
Para em fonte o transformar: 






Mal fatisfeita a fineza , 
Por paga ainda fenaô dà * 
Sufpiros de fogo vendo 
Em mar de agoa navegar. 

De meus cabelos nos fios 
As lagrymas enfiar 
Quiz, que foffc mais que elIeS 
Das lagrymas o raudal. 

Em táô vertidos dilúvios 
Melhor fe conhecerá, » i 
Que ainda de meu pranto a fede 
Se nao chegou a apagar. ; 

1 ".. 61 Cl . ii M 



| Ganhado pelas armas do Empyreo. 97 

O Príncipe, que por zelala fe fazia em toda 
a parte prefente , e mais pago ainda das fuás 
Jagrymas, que da fua formofura , porque eraô 
realce da formofura aquellas lagrymas , mm- Ahfpi- 
dou com fubtil traça, por fuaviífímos aqueduc- ra f<><«' 
tos , accrefcentar em borrifos a matéria àquel- £#*£ 
les prantos, gcftofo de avivar tantos cxtrg-tyWm* 
mos, a que fó elle podia dar afrividades, e 
começou ella, fem entender o myfterio, a fen- 
tir fobre fua cabeça hum doce chuveiro , que 
quando mais vehemente, era mais appetecido; 
€ ambiciofo o coração daquelles amantes fenti- 
mentos , o mefmo ar , que refpirava , dezejava 
transformar no pranto, em que fe desfazia, 
querendo com elles remir, naô lo os próprios 
deslizes, mas atè os alheyos defcuidcs ; que 
como os divertimentos dos Babilónios eraó 
contra o goílo da mageftade do Príncipe , de 
todos fentia os delidos, empenhado em lhe 
emendar os erros ; mas fatisfeita da folidam 9 
em que a deixarão , fem mais companhia , que 
a dos íeus penfamentos, illuílrados jà pelo cx~ 
tremofo dos impulfos, e desfeitas as nuvens de 
tantas efcuridades , enganou os fentidos com 
eftes fentimentos, dizendo : Que agoa haverá, 
que bafte a transformar em fontes os meus o- 
lhos, levando nos crefcidos rios das minhas 
lagrymas aquellas crefcidas ingratidoens, quede 
tantos favores foraô offenfas. Vejo-vcs, ex- 
ceifo Príncipe, dominando no Olympo , eque 
para fobir-me ao mefmo throno tiraftes eíle pe- 
queno torram de 'tenra do campo Damaíceno. 

N Efte 



9 8 - Reyno de Babilónia j I 

efte fó excedo , que íbbrava para prender-me , 

parece me levou a precipitai-me. Pequeno 

Occeano faÔ todos os dilúvios para nelles le 

afogarem tantas ommiflbens. Que utilidades tire> 

IW.eu de Babilónia, e feus enganos : Damnos 

verdade lhe refpondeu o ar no ecco aos ieus íenu 

s fJ e {- mentos; ao que eito diflei 

Bem fey \ que os paflados damnos 
Só pod'em fer redemidos 
Pelos deferidos punidos , 
Medida a dor pelos annos- 

Pois caraça» (continuou elía) fe os perdidos 

annos jofe recupera» &*}«** ^*7w 
quem hade avivar efle ardor. Difie o ecco, 
Dor y a que eila refpondeu i 

Se a minha dor hade fer 
Quem hade fuprir meu mal* 
Em pena t-aô defigual, 
Venha igual o padecer. 

Mas fe a debilidade da minha cm flanela fé 
rendeu aos pequenos a ff altos , como tias gran- 
des batarias o triunfo hade confeguir ( òeguir | 
Diíle o ecco , e refpondeu ella : 

Se amor me hade confeguir , 

Soberano refplendor , 

Huma chamma dcffe ardor 

Entre meu peito a ferir. 

E em 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 99 

E em virtude da fetta levarei a mão , que a 
dijpara por guia para feguir os feus influ- 
xos , fem que as demoras me fufpendaõ os 
paffbs , nem as inrefoluçoens me ejcureçao os 
caminhos. Levantou-fe para dar preíTa ao Orá- 
culo , quando de huma tenebrofa névoa fe co- 
briu o ar , anouteceu o dia, fe alterou o ven- 
to, e parecia tornar-fe o mundo ao abyfmo 
do nada. AíTuftado o animo da determinada 
Aldeaã, defmayaraó as forças para feguir a 
empreza , e começou a duvida a defmentir a 
voz, que tinha ponderado o penfamento. Que Os vícios 
he ifto ( dizia ella entre o medo, e admira- u A m P e fl*- 

v \ 1 j« rr~ 11 de contra 

çao)em querendo adiantar os pálios os atalha avef ja- 
a fombra; para que me confunda a incerteza , <&. 
a tormenta creíce , e à primeira diligencia do 
cuidado fe movem as esferas contra mim in- 
dignadas ; fem duvida para o meu precipício 
fe articularão aquelles eccos , que a ferem de 
favojravel fortuna , naó veria eu, que 






Ogo o tempo fe altera, e o Ar ferindo 
Do firmamento em torres levantado , 
Seu curfo altera , no furor bramindo, 
E o mar em brancas ferras transformado : 
As negras azas Bòreas facudindo 
Da parda nuve o Sol deixa ecclypfado , 
E em chuveiros , q ao Ceo o vento crefee , 
Dà vifta o Ceo, e o mar defapparece. 



Ni* Em 



ioo Reyno de Babilónia , 

Em fogo ardente o mundo fe abrazava } 
Em noite efcura o ar fe confundia , 
A negra nuvem mares dezatava* 
O alto monte hum Ethna parecia : 
Do Sol a luz no fumo fe enlutava, 
Sepultado na fombra o alegre dia , 
Dondj em bailas de fogo a ira ardendo 
O Ceo % e a Terra eftava combatendo. 

Settas de lume o ar atraveíTando , 
Ao chryftalitio mar defceni ferindo; 
Que a eífe globo eeleíte ameaçando % 
De pavor as Eftrellas vaõ cahindo : 
E o refplendor no rio foçobrando, 
A agoa ali do fogo vai fugindo : 
Tremeo o Ceo r e os Orbes eftrellados 
Seus fixos Eixos fentem arruinados. 

Os cavallos do Sol precipitados 
Do Ceo a pagão o efplendor flammante r 
Que do furiofo vento ali arrojados , 
Liquida urna dam à luz radiante : 
No vivo fogo os campos inflamados^ 
Cada planta parece que hehum montante, 
E oecco, que no monte vai ferindo 
Moíira, que da crueldade vai bramindo. 

A manfa Rez , que fobre a relva palia 
Do rigor do Ettio a ardente chamma ,, 
Ao fuílo geme, do temor embaíTa, 
Vendo em agoa afogada a verde grama £ 



Buf- 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 101 

Bufca no monte abrigo, e fe embaraífa, 
Mares pizando na crefcida rama , 
E alli por ondas o chryftal crefcendo , 
Efte alterado mar andaõ bebendo. 

Do Roble mais antigo desfolhada 
A verde louçania , que o engrandece; 
Avizos dava a Ave celebrada , 
Que os troncos bufque , que o perigo crefce; 
A fera foge da caverna amada , 
E o Rio ao mais profundo logo a defce, 
E Neptuno , que rege o mar falgado , 
Cré ? que lhe foy tributo dedicado. 

Nefte mortal perigo defmayada 
Ao alto firmamento recorrendo,; 
Rendido appela o coração proftrado , 
Da Divina juftiça efFeito crendo : 
As fettas , que difpàra o arco irado, 
De quem Mar , Ceo , e Terra vaõ tremendo >, 
A Deos peço, que veja a viva magoa , 
Que alma me enche de fogo , os olhos d' agoa. 

Logo a ira applacando o rijo vento ,. 
Que á Terra ultimo eflrago ameaçava, 
Preza de alto poder muda de intento , 
Que em branda paz jà a fúria transformava : 
Sereno o ar fe moftra em hum momento^ 
Que o refplendor do Sol jà alumiava: 
Oh poder do poder , quanto te eííendes ,. 
Se o Mar, o Ceo, e a Terra tudo prendes! 

Re£ 



10 1 Reyno de Babilónia , 

Reftittiida a luz ao fúnebre dia , cobrada An- 
gélica do pavor, em que a tinha taó impenfa- 
do terremoto, acabou de ponderalo o difcur- 
fo, mas naô de temelo o fobrefalto; enten- 
dendo , que fora caftigo de el!a fuppor o acca- 
zo myíterio , fe deixou na fufpençaõ a efpe- 
rar mais manifefto final para a fua fé. O Prín- 
cipe retirado, o Embaixador jà vagarofo, e 
ella fem faber a que parte havia de encami- 
nhar o cuidado para feguillo , tudo era enleyo 
do animo, e laço, que lhe prendia o difcurfo, 
Nefta afflicçaô a deixaremos ate o feguinte fu- 
ceflb. 



CA- 



/ 



Caf. vm 




Ganhado pelas armas do Empyreo. 103 







CAPITULO VIII- 

Sujlos do coração no eflreitô da conta. 



Ajuftar contas chama hoje a Juflíça, 
Jà nellas alcançado o defperdicio; 
Mas vendando-Ihe os olhos a clemência 
Dos erros vay íuprindo os algariímos. 



E a mayor applicaçam do cuidado naõ baf. 
ta a numerar nos Orbes Celelles as Eftrel- 
Jas , que os adornaõ , nem no florido dos 
campos as flores, que os matizaõ ? nem no di- 
latado dos mares as arêas , que o fuílentaè, 
fem que faltem para taô largas addicçoens as 
figuras ; quem fendo dos erros , mais que do 
mar arêas , do campo as flores , e do Ceo as 
Eílrellas y poderá ajuftar- lhe os números, fem 
que fe ache alcançado nas contas , por exce- 
derem as defpezas, para que tomou liberdade 
a inconfideraçaô. Naô ha vaflalo, por mais 
diligente, que firva a Coroa do feu foberano , 
que fenaó ache mais acredor ao perdão , que 
ao premio; lendo o concederlho generofidade, 
ainda quando fe pede como juftiça. Bem co- 
nhecia Angélica, que naô devia efperar fem 
primeiro merecer ; mas confiava em que o a- 
mor do Principe como naô admittia igualda- 
de nos exceílos, também nas piedades fe fin^ 

gula.. 



104 Reyno de Babilónia. 

gula rizava , e alentava o temor na fé da íua 
experiência. 

Jà era paíTada a horroroza tempeftade ; 
que teve mortal a efperança, dezanimando as 
forças para o difficil das emprezas, vendo , 
que Ceo , e Terra ameaçava , e inrefoluta na 
cauza, que alterava contra ella todos os Ele- 
mentos, formava daquelles eftrondos diverfos 
juízos. Jà lhe parecia eraõ para que defiíliíTe 
de taó difficultofa em preza , que mais que ven- 
cer feria precipitar , e logo tornava a cobrar 
alento , fazendo memoria daquelles anteceden- 
tes avizos , que a mandarão íeguir os cami- 
nhos para encontrar os acertos. Bem fey ( di- 
zia el!a nefta indííferença de affe&os ) que 
3) aos Aftros lhe naó faz o impetuozo das bor- 
,, rafeis dezandar a esfera , em que coftumaó 
3) luzir, porque deixariaó de fer Eftrellas, fe a 
5 , cobardia lhe trocdfe a carreira, antes de 
? , chegarem ao feu fim. Se o Sol naó tomate 
„ a nafcer, porque a fombra da noite lhe ec- 
„ clypfou o refplendor , naó lograria os privi- 
5 , legios de único, retirando-fe como todos. 
^, Morre a Roza, efimera do dia , rompe-lhe o 
3? ar a purpura, eftraga-lhe o tempo o thronoj 
,, e fica-lhe fó no defalinho o dafengano , irias 
5 ,veftindo nova galla, torna a oftentar as 
^maravilhas de formofa, e a mageftade de 
39 Rainha, e fendo a Roza huma flor na pouca 
„ durnçaô, o Sol huma luz, a que fe atreve o 
3 ,occazo, e a Eílrella huma luminária, que a 
2, apaga o dia, eu com mais alma, que a Ef* 

„trella 



Ganhado pelas armas do Ewpyreo. i oy 

>,trella, com mais duração, que a Roza , 
„ com melhor deftino, que o Sol, porque naô 
.,, heidc vencer huns nadas , que podem da 
„ terra fer vapores, e morrerem no ar como 
„ fumos. Que mayor gloria, que triunfar nas 
„ batalhas *, fem peleja naó fe alcança a coroa : 
„ eu quero coroar-me pelejando, para me glo- 
„ riar vencendo; quero buícar reíillindo, o que 
„ fó poflb alcançar amando. Vamos , coração , 
bufear o Príncipe., que elle bu Içado hade 
deixar achar- fe. Efta refoluçaõ do fervor ata- 
lhou logo o medo, porque ferindo fogo da 
ira, vio, que, defembainhadas as efpadas, entra- ° mttfí J* 
vaõ dous homens, que da contenda vinhaõ^.|^ 
cegos. DiíTe-lhe ella : Que fufpendeffem as ar- to/ 
mas , porque na pua prefença fò tinha entra- 
da o refpeito , fem haver porta aberta para a 
defattençaÔ. Ao que refpondeu hum delles , 
que na peleja fe moftrava mais valente. *A 
„ mim , Senhora, naô me eriíinaraô a refpki- 
„ tar bellezas , fenaô a vencer conquiftas ', c 
3,neíla jà tenho arruinado, naô f o a formofura 
„ de muitas Vénus, pias os defvios de infinitas 
9 , Dianas; com que ie vos cança a minha for- 
*, taleza, confeflai-vos rendida, que fem iílo 
? , naô cederey na batalha , nem nella efiaõ as 
„ minhas iras para fogeitar-fe a flores, fen^o 
„para efgrimir lanças. 

O outro com mais polido acordo d iíTe: 
„ Se vós , Senhora , tomares por voíTa conta 
„ defender a minha cauza, eu vos renderei as 
„ armas * e fera de ambos a vitoria, -que do 

O ^vcííb 



io6 Reyno de Babilónia y I 

j 5 voflu> alento fe acha dependente o meu esfor- 

^ço. Diííi o primeiro: lia eftou na poííe 

5 ,de veneer^ e naó quero deíiftir. Refpondeii 

. r o fecundo: Eu efpero acclainar por minha a 

,. emprez*) , porque e m mayor poder , queo voflq, 

„dcvo confiar. As armas da formofura, (diííe 

„ o primeiro , que era huma banda negra a fua 

?1 divizi ) eftaô tanto da minha parte , que nas 

„ coiiquiftas femore me rendem^ as palmas. So- 

? , bre as torres á$Fá vaidade (dille o fegundo, 

,, que tinha huma banda branca) efpero alvo- 

„rar as minhas bandeiras, e pôr por terra as 

^voflas efquadras» Para os voffos dezafios r 

("diííe Angeiica) nao achareis campo feguro 

nosmeiís Palácios , que jà eflao de melhor a* 

cor do as fuás guardas , e em vos muito duvi? I 

clofa a jufliça ; em hum r-, porque fe fia a fim \ 

arrogância nas inluftrias^ que fao deflrui- 

çao das verdades ; etn outro , porque bufe a a 

defcifa no débil das minhas for ças , cofiuma- 

das ds ruínas , que^ efias fao as ajudas de 

mflo , com que po ff o favorecer a fua cauzis, 

5V Pois fabey (diffe o da banda negra) que co- 

„mo comvofco he a demanda., á voífa vifta 

3 , hade fer a batalha, em que as experiências 

j^nie feguraó ficar a meu; favor o campo , e 

„nsõ partirei o Sol por vos naõ oliender. ÁQ 

r , que refpondeu o da banda branca. 

E/piri- Súfpende ei duro azero, 

*'**- Nó tir ouzadia» aquiy. 

Si de lo beilo triunfas r 
Imagines triunfar tambien <J& mi. 

A 



Ganhado ptlas armas do Empíreo, i o 7 

A que com mais coraje refpondcu o outro 
companheiro, ainda que diveríò no animo, fe- 
meJhante na valentia ; 

Comigo nó Ias armas Qmuafr 

Te atrevas a medir, 
Que tu ardimiento fuele 
Morir defmayo, quando empieza lid. 

O da banda branca, que ainda que armado, 
moftrava mais docilidade no génio, refpondeu : 

Del foberano Olympo, 
Alcafar de zafir , 
Los íoccorros vendràn, 
Que te hagan retirar como infeliz. 

A que com a cor perdida , vendo pizada a fm 
foberba, diíTe o de negro : 

Arma el pecho de fúrias, 
Verás , que a refiftir 
A mi poder no bafta 
Bronze brunido , rayo de piorno vil 

„E voltando para Angélica, lhe díffe : DavoíTa 
„ vontade, Senhora , depende pores termo a 
,,efta contenda, fobre que vínhamos pleitean- 
„ do , e para melhor julgares a minha rnzaó , 
,,vos quero dizer, que iou hum Potentado de 
^ tam largas jurifdicçoens, que as dilato por 
„ todos os efpaços do mundo , e fora do meu 

O ii 53 do- 



io8 Reyno de Babilónia jj 

9 , domínio, nem ha vida, que fe alente, není 
yy Coroa, quefe utilize. Asleys, que nos meus 
„ Impérios fe obfervaó , fempre faô a favor da 
„goito, , porque nelles fó o gofto da leys. A 
5 , quem melhor me ferve , atè os ares lhe ren- 
„ dem alentos, porque lhe fixam os alentos nos 
„ ares. Sou fenhor de diverfos poios, e nelles 
„ me tributam tantos thezouros , que naõ cria- 
„ ria a Aurora no defperdicio das fuás lagry- 
3 , mas as pérolas, fe eu lhe naõ dera para con- 
5 ,gelalas as conchas. Os Deozes me fervei 
5 , taô rendidos , que Apolo por mim fe lhe 
„ fecundaô os rayos, Júpiter em obíequio meu 
^, efgrime as iras, Neptuno enriquece os mares, 
Marte aviva as guerras , Vénus me foz obfe- 
quio nos triunfos daformoíura, Belona empre- 
ga as lanças, Mercúrio exercita as ligeirezas ; 
atè Cupido me rende as fettas , fazendo nreus 
tributários todos os a quem vencem os feus tiros. 
De meusvaíTallos fe naõ livraõ os Sceptros, que 
ns mayores Monarquias fe pregam de afliílir nas 
minhas Cortes. Se os campos reverdecem, eu lhe 
defempenho as efperanças ; fe o inverno os eíle* 
riliza, recuperam-fe na minha grandeza; e fi- 
nalmente, Senhora, eu fou o todo de tudo, 
que fem mim o tudo he nada, e fendo eftasas 
prerogativas do meu fenhorio , fe me opoz de- 
c!a>íidamente contrario para pertender entrar 
a do minar-vos, quem fó faberà affíigir-vos. Em 
mim achareis, a fatisfaçaó dodezeja, tudo que 
pode facrar-vqs ; em meu contrario o que fobra 
gara entiiílicer-vos. Em mim tereis congelado 

em 



N 



Ganhado pelas armas do Entpyrco. 109 

em copos de neve o rocio da Alva nos ardo- 
res do Eftio ; ardente o calor do fogo nas af- 
perezas de Janeiro. Na Primavera vos recreará- 
o prado com flores, no -Outono o pomar com 
frutos. Para lampioens tendes as Eíirellas na 
noite, no dia para enterter-vos o divertimento 
nos bailes, a melodia nos inítrumentos , e a 
harmonia nas muzicas y que tudo fe acha no 
grande dos meus eftados. As minhas gallas fe 
tecem dos melhores *fios , as minhas plumas dos 
matizes dos Ares , e as joyas dos diamantes da 
Esfera Celefle. Vede agora fe devo entrar con- 
fiado a conquiftar-vos , fendo eftas as circuní- 
tancias , com que^entro a pertender-vos. Vós 
fois formofa , e podeis captivar muitos alve- 
drios, accrefcentando nos cultos , que fe vos 
dedicarem, mais efta addicçaô á voífa belleza* 
Fazey oílentaçaó do que fois, que tempo vos 
fica para cuidar no que fereis. 

O da banda branca , que tinha eftado af- 
tento a eíta relação das alheyas grandezas, ref- 
pondeu. Naõ faô as voíías opulências as que 
hamde pôr por terra as minhas valentias, porque OdihvH 
jà eílas elevadas torres fe viraô em dilúvios de 
agoas fubmergidas^ ficando-lhe apenas relíquias i 
do que foraô, com certezas de que á voracida- 
de do fogo fe lhe hamde confumir atè as cin- 
zas, tornando ao nao fero de que hoje prezumis 
qiie fois. Eífa Aurora , que vos lizongça nas 
fuás Isgrymas, o vollb fim todos os dias vos 
prognoftica , o Sol , que vos alumea hoje com 
luzes, amanhaa com ecclypíes vos defcnga^ 

na; 



iío Rey no de Babilónia r \ 

na \ Marte vos diz, que naó he Deos, pois he 
ira, Júpiter, que naó he divino, pois fe hu- 
mana , Neptuno, que naó he firme, fe he inconf- 
tan-te , Belona , que naó he paz , porque he 
guerra, Vénus, que naó he foberan3, fe tem def- 
jizes; e Cupido, que naó he lince, porque he 
cego, que naó he Rey , porque he nada, que 
naô tem firmeza, porque vôa, que naó tem 
•verdade, porque he mentira, que naó tem im- 
pério , porque he filho dé hum ferreiro, que 
íó tem fettas, porque tem trai çaens. As flores, 
que fe vos tributaõ , faõ lizonjas , que fémur- 
chaõ, os pomos perigos , que amargaõ , as 
gallas fios, que fe desfazem, e as plumas pen- 
íamentos , que voaõ. Efte o cabedal do volto 
império, em que fempre fe arrifea quem fe 
engolfa. Os divertimentos faõ prantos difli- 
mulados , as melodias , que hoje faõ trinados 
clarins, amanhaã feram dezafinadas trombetas, 
<que toquem a enveftir , e naó a recrear. Em 
mim he taõ outra a eflencia , que fó tomo do 
dia a luz para naó perderme nas fombras ; da 
noite o temor para naó deípenharme nos tro- 
peflbs; das riquezas o conhecimento de que o 
ouro he terra , de que tem a mefma natureza 
as fepulturas ; & preciofo das joyas engano a 
que deu preço a cobiça ; e tudo em vos traças 
para introduzir minas. Na minha Corte vive 
a verdade fem aduhçam , o cuidado fem def- 
caminho, a diligencia com utilidade, as efpe- 
ranças com alento de eternas poíTcs. Se Angé- 
lica, na reda balança da ponderação , pezar em 

que 



Ganhado pelas armas eh Empyreo. i r r 

que parte fegiira melhor os feus interefles r 
nao trocara pelas apparcncias as realidades. Fi- 
que na Tua eleição a efeolha , que cuem a re- 
corda nao a violenta, porque a vontade força- 
da ofende mais do que obriga , e eu vou a eí- 
perap,. porque nao tenho ordem para conten- 
der. 

Rcfpondeu o da banda negra, que fern- 
pre faltava fiado nas forças, com que vencia 5 e 
com a fua coítuniada arrogância , diíle: 

Pouco importa me aparte? 
Se para confeguir 
Tenho armas cento a cento ^ 
Vitorias mil a miL 

Defpedidos os dous contrários, ficou Angélica 
difeorrendo o que alii paílara , íem refolver fe 
JJO qi!e efeolheria. A vontade votava a favor do 
gofío , e lhe moftraya , que na fabrica doUni- 
verfo fe empenhara o poder, e a fabedoxia , 
para todos os que haviam de habitala , e naó 
podia ler para ella ruina , o que para todos fi- 
cara recreação; mas logo lhe fazia grande fV y r- 
ça o íufío de errar o caminho; tornando a cahir 
noS laços do engano, a que ià volràra as cofias 
o conhecimento, e como para refíftir a eíles allal- 
tos eílavaó ainda debilitadas as forças, n no fe de- 
terminava a feguir o mais diffícil \- fem violên- 
cia do coração. O Príncipe, a quem íenao 
fícculràra a paliada conferencia , acodia ao ref- 
ggãídpj compadecido do perigo; e mandou o 

Em- 



tiz Reyno de Babilónia 9 

Embaixador dizer-íhe : Que elle como poderozo 
lhe abrira o mais importante dos feus thezou- 
ros , para que delles tirafle o preço, com q&e 
a íua pobreza fe remiífe; mas vendo, que ella 
agora fe inclinava a outras cflfcrecidas riquezas, 
íe reíolvia a tomar-lhe contas, ç, naô per.doarlhe 
<o mal, que íe aproveitara, de que liberalmen- 
te lhe dera, eentendelle as havia de punir co- 
mo Juiz, e naõ perdoalas como amante, e fe 
.queria ver o terrível daquelie tribunal, appíi- 
çaíle a vida a hum chryftalino efpelho , que 
trazia na maõ , que nelle acharia mais claro o 
íeu defengano. 

í Foram os olhos teftemunhas do perigo, em 
que a punha a fufpenfaõ , vendo a mageftofa 
ira do que havia de julgala*, o roftro quedava 
refpíendor ao dia , defpedia rayos ao temor. AU 
a vara da juftiça naô florecia , porque ameaçava, 
o livro, porque fe havia de ajuftar a conta, era 
de taõ miúdas addicçoens , que o mais ligeiro 
penfamento era nelle figura de algariímo, as 
teftemunhas defte a&o, o mefmo, porque en- 
tercediam, aceuzavaõ. Alli naô havia para a fen~ 
tença appellaçaô , nem demora para exccutalla, 
que os Aliniftros do fupplicio fó efperavaõ fo-j 
berana ordem para o caftigo de tantas dezor- 
deus. As portas do favor eftavaó fechadas pelo 
aggravo , e amortalhada a eíperança de mere- 
cer pela proíia do delinquir. Efta rigorofa 
prefpeóBva deixou a Angélica tam turbada , 
que efmorecidos os alentos começou o cora- 
do a fufpirar entre mortaes parpcifmos. Lar- 

ou 



\ 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 173 

gou oefpelho, refervando fóofufto, e começou 
a dezafogar o que fentia nefte 



ROMANCE. 

Non ín- 
trcs in 

Uando a contas me chamais ; judu í a 

Que vos elqueceis bem creyo , vo tuo< 

De que fó erros de contas 
Saô os cabedaes, que tenho. 



Q 



Se os talentos , que me deites 
Foraô defperdicio ao tempo, 
A quem foge , como poflb 
Pedjr, que pague o que devo* 

A moeda , com que entrei 
Nefte contrato , jà vejo 
Foy lavor da voíTa mão, 
Na minha o valor perdendo. 

Defconheci-lhe os quilates, 
Dando-lhe taõ baixo preço , 
Que o que todo hum Ceo valia, 
Dei por hum nada terreno. 

Se taõ liberal andaftes, 

Como aqui mudais de intento; 
E quando eftou mais perdida 
Quereis moílrar-vos mais re£to. 



Trif- 






Dimas, 



114 Reyno de Babilónia , 

Trifte, affligida, afluftada 
Da voíTajufHça appello; 
Naõ ao exceíTo da paga, 
Sim da divida aos exceíTos. 

r • ■ 

%.. . FL - 

Sei eu, que hum ladrão chegando 
Da vida ao ultimo termo 
Huma memoria pediu , 
E vos lhe deites hum Reyno* 

Sei , que a lagrymas vencido 

éaUnêí ^ vo ^° r *g or fevero, 

Deftes paíTage aos deliítos 

Para contar fó extremos. 

Naó entreis comigo em contas j 
Torno a pedir, porque temo^ 
Que pela divida fique 
Eterno o meu captiveiro. 

Se lagrymas faô valia 
Neífe Tribunal fupremo \ 
Jà as correntes do meu pranto 
Aos voílos pés vaó correndo. 

Mal fatisfeito o temor, paíTou nos clamores 
do pezar a incitar as piedades , dizendo : Co- 
mo pode, Senhor, por-fe em contas comvofco, 
quem nunca a teve comfigo ? Comvofco; que 
a vofTa re£la juftiça achou nos mais nobres dos 
vaílallos taes infidelidades , que fendo deftina- 
dos para validos , eítaó em eterno degredo ? 

Com 



Ganhado pelas armas do Empyrèo. 1 1 $ 

Comvofco; diante de quem tremem as mayo- 
res Poteftades> e vos pede o mais innocente j k 
naõ entreis com elle em contas, porque naó 
tem merecimento, que o habilite juftificado. 
Eu , em quem andaô de apofta os voíTos extre- 
mos corn os meus retiros; o mal, que pago as 
finezas com o exceflò , que tendes em repetilas? 
Eu , que fazendo ao idolo da minha vaidade 
facrifícios do meu cuidado , me defeuidei dos 
voílbs facrifícios? Como poíTo dar-vos defear- 
gos T fe me eftaõ aceuzando os meus deílrahi- 
dos penfamentos. Bem fabeis , que naó poíTuo 
mais bens , que os que me deites , fuíiicientes 
para por elles executar-me , mas naõ para de- 
fender-me. Confeito a divida , infeparavel da 
alma. Efta vos offereço em fatisfaçaô , porque 
fempre he do Senhor tudo, que adquirio o 
eferavo; e eu defta eferavidaô faço todo o meu 
cabedal , e efpero , que o rayò da voíTa luz 
desfaça a minha cegueira. Tinha o Embaixa- 
dor eftado prefente aos aifedkos, que nella oc- 
cazionou o ameaço do Príncipe, e ella lhe pe^ 
dio Jhos reprefentaífe a elle, em quanto fe 
preparava no feu coração novo templo , em 
que no fogo do amor fe queimaílem os des- 
lizes de tantas ommiífoens, o que veremos nos 
mais fuceffos. 



P ii CA. 



Ganhado pelas armas do Empyreo; iif 

CAPITULO IX- 

No mar de Babilónia naufraga a confideraçao* 



Nos alterados mares foçobrando 
Das encrefpadas ondas no perigo, 
Nas taboas , que lhe offerece o defengano, 
Acha o porto, que tinha jà perdido. 



QUe mal fe emendaõ os perigos , quando 
defmaya o temor de íbbmergir-fe nas 
ondas , quem íe entrega ás tempeftades. 
Engana a ferenidade das agoas ao navegante, 
offerecendolhe, em campos de liza prata, fa- 
tisfaçoens ao gofto de pizar em Delfins de 
madeira as liquidas correntes, que fendo p ri zaó 
dos mares , faõ muitas vezes cárceres das vidas. 
Embravece-fe o elemento aos fopros do vent;o, 
e em hum aííbpro traga aquelle grande edifício, 
em que fe criaó feguras , as que logo faõ ruí- 
nas , e naõ bafta haver tantos naufragantes , 
que daõ nos gemidos da dor vozes ao efcar- 
roento , para que paflado o conflito , deixe de 
haver quem fe entregue á inconftancia do gol- 
fo , efquecido jà o horror daquelle ameaço , 
com que fe fupunha fepultado o animo na 
confufa turbação do receyo. Em quanto a ruí- 
na ameaça , aífuíta o golpe , que o penfamen- 
to reprefenta j porém em vendo , que a execu- 
ção 



xi8 Reyno de Babilónia $ y 

çaõ tarda , logo o que foy fobrefalto , fe fica 
como focego. Os Argonautas naó temiaó che- 
gar ás portas do Inferno , adonde criaó fe a- 
chava o dezejado ramo de ouro, que bufcavaa 
fua cobiça, porque naó tinha naquella pavo- 
rofa eftancia perigado atè ali a fua vida, e 
ainda que entendiaó o tenebrozo da morada, 
era menos o temor , fiada a efperança , em que 
tardava o caftigo, e por huma imaginação 
duvidofa , fe expunhaõ a huma infelicidade 
certa. 

Jà a fúria da paíTada tempeílade eftava 
defvanecida, renovando o Sol nos feus refplen- 
dores a ferenidade ao dia, o prado nos rizos 
da Aurora mandava veftir de nova galla as flo- 
res , alvoroçando os ânimos o afinado clarim 
das Aves. As fontes jà naó murmura vaô , por- 
que alegres fó corriaó. Tudo convidava a ref- 
pirar , fepultado o que tinha dado que fentir, 
de que convalecida Angélica, e retiradas as 
fombras, em que fe lhe reprefentaraó as fuás 
ruinas , começou a fe alentar , no que a fizera 
efmorecer. Recordava-lhe a memoria os paf- 
fados ameaços para temelos , mns também a 
prefuadiaõ os divertimentos para dezejar fegui- 
los. Repetia os proteílos de naô oftender a fua 
fé,- porém queria refpeitala fem , que o goílo 
batalhaífe com o fofrimento, parecendo-lhe du- 
ra guerra eftar fempre com a mortificação em 
campanha. Mal armada entra Angélica na 
conquifta , e rnuito duvidofa lhe confidero a 
vitoria ' 7 que quem naó corta de todo as amar- 



ras 



> 



Ganhado pelas armas do Èmpyreo. 119 

ras, que a prendem , facilmente emprenderà no- 
va viagem, em que perigue. Jà lhe parecia cer- 
rado aquelle livro, porque fe vira executada, 
e rifcadas do miúdo da conta as dividas para 
que naõ chegavaô á fatisfaçaó os feus curtos 
cabedaes ; e alentado o animo , que enfraque- 
cera o receyo, fe prometia favoráveis pieda- 
des , crendo grande parte para alcanfa-las o ti- , 
bio affeíto, com que dezejava confeguMas , 
naô tendo que allegar no merecimento, por- 
que fenaó deixava a íi por amar o Príncipe, 
fendo elle no feu amor taó melindrofo, que fc- 
naõ obrigava de quem para penhorar-fe lhe en- 
tregava hum coração partido, quando ainda 
inteiro era pouco para facrificio ; que fineza, 
que referva attençoens com o gofto, he como- 
didade, e naô he fineza. Admiração de Ro- 
ma foy o valor , com que hum dos poderofos 
daquella mageftofa Corte, vendo accender na 
praça o fogo, em que por fentença dos Jui- 
zes haviaó queimar huma Dama, a quem elle 
amava com tanto extremo, que preferia o feu 
amor ao mais amável , que he a vida própria ; 
e elle defprezando aquella metade, que delia 
lhe ficava, voluntariamente fe lançou na mef- 
Jtia fogueira , accrefcentando com a fua morte 
novo holocaufto á laftima , e mais afinados 
eccos á fama. 

Efta façanha da cegueira , efle arrojo da 
inconfideraçaô , que feni interefie do premio* 
obrou allucinado o difcurfo, tivera difculpa fe 
a executara a razaõ, alumiada do conhecimen- 
to . 



tto Reyno de Babilónia , \ 

to, dando o amor a&ividades ás cíiamrms^ qué 
fuavizaó como refplendores , e naó ás que quei- 
maõ como lavaredas , adonde tantos amantes 
dos ídolos de Babilónia faó das fuás fornalhas 
vivas brazas, fem nunca chegarem a reduzir-fe 
a cinzas ; que eíta he a mayor infelicidade da- 

Suella falfa adoração. Entre o temor , e a con- 
ança , detido o feu penfamento, fe achava An- 
gélica , quando entrou hum pagem , que a 
fervia , a que chamavaô Divertimento, e tinha 
aceitação de todos , porque tinha invectiva nas 
ideas , graças nos chiftes , e engenho para di- 
vertir as imaginaçoens , que coftumaõ a entrif- 
ticer. Perguntou-lhe ella : Porque viera fem o 
chamar , quando naó eftava para o ouvir. A 
que elle refpondeu : Eífe he , Senhora , em mim 
o mais eítimavel, chegar quando tenho em 
que firva, ainda que me naõ chamem, que 
quem eftà triíte naõ me bufca, e quem alegre 
em toda a parte me encontra, que nem todos 
eftaó como vòs de candeas as aveíTas com a vi- 
da, e fem deixares que fazer ao feyo afpe&o 
da morte. Tudo para vòs he fepultura de vi- 
vos, e nunca dais dia á refurreiçaõ dos mortos, 
adonde muito prezada deitas fantafmas do te- 
mor, aíTombrais o que fois nas con/ideraçoens 
do que fereis. Lá fingirão os Poetas, que a 
Eftatua do Deos, que adoravaó, fendo de infen- 
íivel mármore, em lhe tocando os rayos do 
Sol, fe ouvia dentro delia huma acorde har- 
monia , por enfinar aos que lhe davam culto , 
que o mais puro do facrificio era o alegre do 

animo , 



Ganhado pehs\artnas do Empyreo. 121 

animo. Celebrava a Eílatua a formofura da- 
quelle Planeta , e queria, que o coração huma- 
no , na bem adornada fabrica do mundo , tam- 
bém empenhaíTe os fentidos, para naô deixar 
inúteis os affe&os. Vede-vos vos no chryflali- 
no efpelho daquella fonte , que a alegria das 
Damas he contemplar-fe formofas, e deixai o 
fuílo para a palidez das caveiras , que eu naó 
acho graça no que fe efpera, fenaó lo quando 
recrea. 

E que prevenção hade haver para o in* 
falível do mal, íè ao executar o golpe, naô ef- 
tiver prevenido de antemão o remédio? Ref- 
pondeu Angélica : Pouca efperança pode f car 
da faude, a quem naô cuidar na cauza para 
evitar a ferida. Martyres do cutelio (diífeelle) 
fei eu , que fizeraô os Dioclecianos *, mas da fua 
mefrna efperança fó vós fois otyranno , privan- 
do-vos a vòs dos attra&ivos de flor, e ao mun- 
do das maravilhas de Eftrellas , como fe as 
louçanias das primaveras, tiraífem a copa aos 
dezabrigos do Inverno? Vamos ao mar, Se- 
nhora, que no claro das agoas fe vem melhor 
as prefeiçoens da natureza ; e naô feja tudo 
pizar a terra das fepulturas, quem pode ter 
império no preciofo^ dos diamantes; e lá no 
dilatado do golfo, achareis exemplos de defdem 
nos defvios da formofa Galatéa , e de fineza nas 
do grande Polifemq-*, e ao fom das ondas, 
também eu com as Seréas, vos daremos mufica, 
que jà começo a enfayar aílun : 

Das 



122 Reyno de Babilónia > 



D 



As cadeas de hum temor 
Bem limado o ferro duro, 
Dezatar-vos jh procuro 
Martyr naó , mas ConfeíTor ; 
Se vos naó prendeu amor, 
E de ieus tiros zombais, 
Para que vos retirais ? 
Quando he da vida coroa 
Vida boa 

Se quando a Aurora amanhece, 
Entaô de Morfeo nos braços* 
Apertar do fono os laços, 
He o que mais fe appetece, 
Como efte bem defconhece 
VoíTo difvelo , e cuidado > 
Se no mal de difaelado 
O defcanço vos entoa 
Vida boa 

Quando deíTa ardente esfera 
O Sol fua luz retira , 
E em fepulcro de fafira 
Renafcer brilhante efpera 
A flor , a Ave , e a Fera , 
Seu focego ambicionando ; 
Mudamente eítaó clamando 
A' flor , à fera , à pefloa 
Vida boa 



Co- 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 123 

Como vós com melhor alma, 
Entre aflicçoens do cuidado, 
Do futuro , e do paífado 
Teceis vofla dura palma : 
Negando em cuftofa calma 
Os ouvidos à fortuna , 
Que em occafiaõ opportuna 
A voffb favor pregoa 
Vida boa 

Deixai fuftos , deixai medos, 
Que o divertir he viver ; 
Quem mais alivios tiver , 
Da forte piza os enredos 
E fam do inferno aremedos 
Os laços do fofrimento, 
Em que apurado o tromento 
Naõ deixa ouvir , quem entoa 
Vida boa 

Se fois Nayade , hide aos mares , 
Se fois flor , apparecei , 
Se Eftrella , refplandecei ; 
Se Pòmona , hide aos pomares ; 
E naõ cuideis em azares 
Da forte , formofa t ò fea , 
Se he Giganta, ou fe he Pygmea, 
Quando o goíto vos atroa 



Vida boa 



Q.1 Gof- 



124 Reyno de Babilónia , 

Goftofa eítava Angélica, ouvindo o donaire, 
com que o Divertimento a prefuadia a deixar 
as fombras da fua apprehençaó pelos alegres 
empregos , em que pada as horas , quem naô 
tem conta com a prefla , com que paíTaô. Quan- 
do o grande x^lexandre chegava a fitiar algu- 
ma Cidade, mandava accender huma tocha á 
viíla dos filiados , e lançar bando , que fe em 
quanto a luz da tocha naô confumia a matéria, 
com que ardia, fe rendeflem, lhes concederia 
a vida ; mas logo que a chamma acabafle de 
luzir, deixariaõ elles de viver, perdendo nos 
fios da efpada os alentos , com que íuftentavaõ a 
refiftencia. Eftimava o Monarca o triunfo , e 
para confeguilo entendeu, que as mais valentes 
armas eraó as azas, com que o tempo voa, 
dando á vida, em cada voó, huma ameaça, e 
deita aftucia fe valia para o que a menos cuf- 
to dos golpes, lhe alcançavaô os temores do 
juizo, que os efperava. E a quantos ignoran- 
tes naô aproveitaõ efíes avizos ? Soaõ os de- 
fenganos na voz das experiências : vem o cu- 
telo da Parca fempre levantado para cortar o 
fio da vida , e paíTaíTe a vida como fenaõ fora 
forte aquelle braço , e delgado aquelle fio. Se 
o entendimento fenaô embaraçara nas inúteis 
fabricas , que reprefenta , naô chegarão os ma- 
les , quando jà faõ impoífiveis os remédios ; 
mas eftas faô as condiçoens, em que fe dilataô 
os ânimos dos profeíTores de Babilónia, adon- 
de fe como as gallas da mefma peça das cin- 
zas. 



Ganh dão pelas armas do Empyreo. i zç 

/ 

A inconftancia , que em Angélica tinhsõ 
os proteftos, a defpenhavaó cada dia a novos 
perigos. Parecia-lhe , que jà nos laços da fir- 
meza tinha fegura a fua vontade , fem adver- 
tir , que a qualquer ar das occazioens fe que- 
bravaô aquelles laços , e tornava a fe fazer na- 
tural daquelles paizes a mefina , que acabava de 
fegurar-le eftranha das fuás leysj e entregue ao feu 
penfamento todo o domínio na razaõ , deixava a 
razaó captiva do feu penfamento. O mar eftava 
foccegado , as ondas faziaõ o feu movimento 
duvidofo, porque o vento Jhe naõ alterava o 
pacifico, e rendida a fúria do Boreas , fe fo- 
geitava ás fuavidades do Zéfiro. As agoas eraõ 
chryflalino efpelho, e naõ alterado golfo, as 
embarcaçoens nadavaô , porque os mares as 
naõ cnveftiaó •, a marinha fe via povoada de 
concurfo dos que adonde mais fe perdem lhe 
parece, que fenaô arrifcaõ ; e entrou Angéli- 
ca no diícurfo de que naõ feria fó para ella 
naufrágio , o que para os mais era fó enterter 
o tempo. Lembrou-fe de que o mais fervoro- 
fo vaííalo do Príncipe, e em quem defcançà- 
ra o mais importante da fua Monarquia , e ofi- St p edfQ 
zera pedra fundamental da fua confiança , ain- 
da que por fervilo deixará barcos , e redes no 
mar de Tyberiades , adonde huma vez fe tor- 
nara a embarcar , lograra a fineza de lançar-fe 
á fúria das ondas , porque o excefib do feu 
amor novamente fe acreditaíTe nefla valentia, 
também ella acharia , que allegar pizando , co- 
mo valTala, aquella chryflalina praça, que era 

dos 



nó Reyno. de Babilónia , ) 

dos eílados da mefma Coroa, e naó lhe eílava 
prohibida para paíTeala , quando a grandeza , 
que via , incitava o que refpeitava; determinou- 
fe a dar ao gofto cor de rendimento, que he 
grande engenheiro o amor próprio para ajun- 
tar materiaes fobre que fundar as fuás fabricas, 
dourando-lhe os deslizes , para que pareçaó 
menos culpáveis. Embarcou-fe , levando por 
piloto o Divertimento, e logo na variedade, 
a que fe entregou , íoçobrou a memoria , e deu 
á coita a cautella. 

Andava no mar hum pefeador taó deftro, 
O amor q Ue das fuás redes fó livravaó as pérolas, que 
%tnéeos no reíguardo das conchas íe efeondiaô. Nem 
Sentidos a cândida Doris eícapou de fua tributaria , nem 
o poderofo Nereo de render cultos ao feu im- - 
perio, naó valendo a fevéra izençaó das Nin- 
fas, para fruftrar o lanço ás fuás artes. Dila- 
tou Angélica os fentidos pelo largo campo das 
agoas , que, quebradas no lizo das pedras , até 
nas luas efeumas acha a vifta lizonjas ; e. o foy 
igualmente aos ouvidos a mufica do pefeador , 
que chegando o feu barco ao em que Angélica 
andava , cantou eítas 



ENDEXAS 



A 



maina ^ las velas, 
Pobre barquilla mia , 
Que el mar ai Cielo fube, 
Viendo que el Sol le piza. 



En 



Ganhado p elas armas âo Ewpyrèo. i Í7 

En fus olas de plata 
Soberbia fe diviza , 
Pues la Eft relia de Vénus 
En fus agoas fe mira. 

Adrierte quanto hermoza 
Sobre la blanca orilla, 
Es oriente dei Sol, 
Siendo dei Alva embidia. 

Prende las libertados, 
Que mirando cautiva ] 
E de fu eíclavitud 
Ni el mifmo amor fe libra. 

En íus ojos aprende 

La bel la luz dei dia , 
• E por arder en ellos 

Nuevo ardor refufeita. 

Triílezas divirtiendo 
En Caribdis , e Scyla ; 
Quando el gufto fe faívâ j 
Todo el amor peligra. 

Han dado en retirarfe 
Traviefas fus dos ninas , 
Porque fin verias imiera, ■ 

Quien por verias íufpira* 



Nò 



128 Reyfto de Babilónia- y ' - 

Nó te ocultes , le dize -] 

Una alma , que rendida 
En los grillos , que arraftra 
La vida façrifica. 

Logra las primaveras 

Sin fufto, que te oprima,^ 
Que quien te dió belleza, 
Nò que la adoren quita. 

Y pues a tus luzeros 

No ay pechQ, que refifta; 
Premite , que el amor 
Sus faetas te rinda. 

Al bello roficler , 

Que adorna tu mexilla, 
No es jufto, que un temor 
De palidezes vifta. \ 

Dexa vanos antojos, 

Que opueftos a tu dicha, 
De opacas fombras cubren 
En ti la luz dei dia. 

Para efcapar ao naufrágio, cerra o marinheiro 
os ouvidos á fuaviílima muíica das Seréas , que 
attrahindo as attençoens do navegante, perdem 
os fentidos o norte, e errsó a viagem. Efcu- 
tou Angélica as vozes da lizonja, e em as 
empinadas ondas da prefumpçaõ, fe foy a pis- 
que o conhecimento, e perguntou ao Barquei- 
ro : 



Ganhado pelas armas do Empyreo. ii£ 

ro : Dize-me, a que Deidade marítima fe de- 
dicaó os votos do voílo rendimento, que fe, 
como prefuadir, fabeis facrifícar, muito favo- 
rável fera o defpacho alcançado, naõ fó pela 
melodia da mufica , mas pelo bem explicado 
do aíiedio. Ao que elle refpondeu: Eui, Se- 
nhora , vejo a quem me rendi ; mas naõ entra 
na pertençaõ taó fegura a minha efperança, 
que ainda , que me podem animar as forças , 
deixem de aíTuftar-me as duvidas, temendo me 
fique contraria a forte , quando as oppofiçoens 
a tem tam baralhada , que receyo feja para 
mim azar, o que para outrem for ventura. 
Muito alto preço deve de ter o voflb triun- 
fo , fe o comprais a cufto de tanto fobrefalto, 
( difle ella , ) e quem entra nas batalhas com 
defmayo no animo, he o primeiro, que nega 
o feu merecimento. ConfeíTo (diíTe elle) que 
tenho contrario mais poderozo , e que para 
contender he menos a minha juftiça ; porém 
naô he a primeira vitoria, que ganha a vonta- 
de fem confultar a razaó, e a volTa fera quem 
me dê a Coroa, fe efcutares a minha prefua- 
çaô , fem dar ouvidos a quem vos fabe entro- 
duzir agouros. Vede-vos bella , e acabareis de 
refolver-vos a naõ vos tratares como inimiga, 
negando-vos áquelles applauzos , que coftúmaô 
dar gallas á formofura; que para ilTo fem de- 
pendência do eítudo , creou Deos no diáfano 
chryftal das agoas taô chriftalinos efpelhos , 
em que retratadas as fuás prefeiçoens \ fe eíli- 
mem pelo que valem. Grande pregador tem 

R em 



igo * Re}' no de Babilónia , 

em vós as minhas imaginaçoens, ( refpondea 
Angélica) e naó deixa o difcurfo de achar al- 
gum occulto fim nefte, que parece acazo , e 
fe vay introduzindo avizo ; porque divertir o 
animo, naó he ultrajar o refpeito, e Deos dà 
às creaturas tempo para tudo. Ora certo, que 
efte barqueiro (diíTe o Divertimento ) algum 
parentelco deve de ter com aquelle grande 
Aqueronte , e me prefuado andariaó ambos na 
mefma barca, porque fe elle da forças á co~ 
bardia, para vencer a vofía trifteza , atè os 
montes levará pelo rio abaixo , c de ambos 
contaremos a mefma façanha. 

Divertida nas malícias do criado, e cu- 
riofa das fubtilezas do Barqueiro eftava Ange* 
liça , quando fobre o eminente de hum bruto , 
e tofco penhafco, viu hum como marino monf- 
tro, que defmentida nelle a prefença de hu- 
mano , fe fazia fó natural ao fobrefalto. O af- 
pedh) fevero; os olhos fcintilando fogo; o 
vulto agigantado ; os braços pareciaó dous mo* 
vediços troncos. Veftia duras conchas , e to-» 
cando hum grande búzio , que lhe fervia de 
trombeta , defpertou os defcuidos , para que 
na fua rouca voz lhe efcutaflem eíles avizos. 



v 



Algate Dios por fortuna, 
Dizen las flores dei valle , 
Ayer lizonja dei campo 
Quando oy defprecio dei aire 



Alli 



«* 



Ganhado pelas armas do Eftipyreo. 1 3 í 

AHi eí jafmin peligrando , ) 

En los ardores , que efparce 
El Sol , quando de lo hermozo 
Airados defprecios haze. hy 

Te enfería, errada hermofura^ 
A temer, que en tu dezairc > 
A la luz dei dezengano, 
Se aclaren tus vanidades. 

Si tan ruidozos eftragos 

Miras, como antes que acabei f ■ ■«■'> 

Nó defpiertas dei engano, 

Que duerme ai fon de tus inales. 

Si intentas burlar dei tiempo, 
Como dexas, que te engane," 

Negando-te a los fentidos . -•> 

La fé de tantas verdades. 

. . . , , 

Si en mentidas iluzion-es * . ■ 
Eílà el difeurfo cobarde ; 
Mira, que el viento las lleva, 
Aun que dei viento renacen. U 

Dexa locos penfamientos , 
Antes que tus ceguedades, 
Te muettren el efearmiento »• - 
Que ai fin llega , aun que mas tarde* 

• " ' ' ' ■ ■' 

■ • - ; iii3 <. h a ' i ■ • •■ i 

i Rii Os 



Ifja Reyiio de BabiIoniá\ 

Os ardis na guerra faó créditos de valor, e 
teftemunhas da fciencia ; que para acertar nas 
conquiftas , muitas vezes faó as induftrias as 
que feguraõ as vitorias. Era o amor do Prín- 
cipe extremozo fem igualdade, e para fer con- 
refpondido,.como era amante, dava elle as ar- 
mas, que haviaõ de ganhar a fua mefma Co- 
roa. Viu , que naó baftava o fem numero dos 
benefícios , para evitar em Angélica o» trope- 
ços , podendo mais com ella para prendela o 
breve laço de hum divertimento , que á rija 
cadea de tam crefcidos intereíFes; e cançada a 
grandeza da Mageftade de ver o feu refpeito 
tantas vezes atropelado dos defcuidos , mandou 
que nas vozes do temor lhe foaíTem os avizos, 
antes, que a profia dos aggravos, fizeíFe os 
caftigos inevitáveis ; género taõ novo de fine- 
za , que fó no (eu amor fe via praticado. 

As offenças nos amantes , coftumaô fer 
fepulchro dos affe£bos , porque ou a vingança 
os deftroça , ou o retiro os eftereliza , fazeádo o 
coração pondunor , de naõ perdoar o queixu- 
me , que he ultraje do refpeito ; mas taô ou- 
tros faô naquelle Real peito os exceflos , que 
parece, que aggravos faô para o feu amor 
mayores eftimulos ; e quiz aqui , que obraíTe o 
temor occultp , o que naô tinha vencido a 
piedade manifefta *, porque em entrando a com- 
bater os proteftos da fé,, aquella fragilidade 
do barro, em que Angélica teve o feu pri- 
meiro principio, efmoreciaõ os fervorozos im- 
pulfos do agradecimento y ficando a divida fó 

; por 



Ganha do p elas armas âo 'Empíreo. 13$ 

por conta do defcuido. Advertia ella no def- 
penhado dos feus pados , confiderando-lhe os 
perigos; mas logo perigava outra vez a me- 
moria fugindo da confideraçaõ : que efla va- 
riedade he o morgado de que nafce dotada a 
humana natureza. Tornou em fí, cobrada a 
razaõ, que eftava detida nas redes da incons- 
tância, e querendo pelas feguridades do porto 
trocar o arrifcado dos mares , começarão a em- 
bravecer-fe as ondas , a que hiaõ açoutando os 
ventos, declarando eftes dous elementos tam 
impetuoza guerra, que cada hum esforçava a 
fúria, com que fe combatia. O mar com balias 
de efcuma fignificava a fua cólera, e o vento 
as rebatia nos fortes aflaltos, com que as hu- 
milhava. Os Tfitoens deixavaô as agoas pelas 
ar<§yas, niedrozos dos feus encontros; as aves, 
embaraíTados os voos , cahiaõ no precipício de 
que as naõ livra vaõ as azas ; nas embarca- 
çoens gemiaó os maftros , quebravaô-fe os re- 
mos, e defpedaçadas as vellas, tudo era eftra- 
go das fúrias , c os ânimos amortecidos efpe- 
ravaõ o ultimo termo da vida no alterado gol- 
fo, que lhe ameaçava a morte. Crefcia a tem- 
peftade, porque o vento das vaidades fazia in- 
char as ondas da tribulação , augmentava-fe o 
fobrefalto no artezoado do caftigo : a vontade 
refiftia o remédio ; o entendimento delirava 
aas propofiçoens da tribulação ; a memoria re- 
prezentava o de que mais fe affligia ; a imagi- 
nação a todo o difcurfo fe opunha; jà fe alen- 
tava nas efperanças, e logo desfalecia nc$ te- 
r ceyos. 



134 Reyno de Babilónia , 

ceyos. Nefte tremendo conflito aplicou Ange* 
liça a vifta por ver fe na terra achava quem 
a focorreife para os perigos do mar , e viu que 
nella eftava fentado o Príncipe, como teite- 
munha da fua tribulação, e como quem fc naó 
laftimava do feu naufrágio , e ainda que conhe- 
ceu jufta a fua ira pelos defeaminhos , que em 
íí naó ignorava , fe lembrou de que naquelle 
Real, e magnânimo coração , naõ fe extinguia 
a mifericordia a prefuaçoens da juftiça , antes a- 
chava fagrado na benignidade , quem fe rendia 
a pedir o focorro, ainda que fofle fó pela de- 
pendência. As afliçoens do fufto , ou as depen- 
dências do remédio, fiada na fineza do Princi* 
pe , a obrigarão a dizerlhe. 

So 
enhor pois de Ceo , e terra 
Es tu das luzes a luz , 
E o explendor , que produz 
Tua luz , fombras defterra : 
Efta tormenta, que ferra 
O paíTo à minha efperança 
Se transforme em mar bonança , 
Salvando-fe o meu cuidado 
Do rigor ameaçado , 
Pondo em ti a confiança. 
'■ "■ • • i 

Nos defacertos do fuílo , travada na lida dos 
receyos a refpiraçaô continuarão os fufpiros di- 
zendo. Olha, Senhor que fubmergida nos altos 
mares dos meus deli&os;, vou por infiantes pe- 
rigando 



Ganhado peias armas do Etppyrèo. i 3 £ 

ligando nos abifmos ; falva-tne, que pereço, 
pois fó tu nefte labyrintho de ondas podes fnl- 
var~me; engolfei-me no procelozo mar de Bab> 
lonia, moltrando-me em aparências o divirti- 
mento os feguros para a vida, e nefta engano- 
za prefpe£Hva do gofto vejo fe vai apique to- 
da a confiança , guie-me o farol da tua clemên- 
cia , antes que me a cabe de fundir a tempefla- 
de ; bem conheço , que eítas maquinas , com 
que os Babilónios encobrem os mefmos danos, 
que induzem, fam huns denfos vapores da ter- 
ra , que entregues ao ar , nclle quem os bufca , 
cm nada os cobra , como virão no alterado tu- 
multo das fuás paixoens os AÍIirios contra os 
Medos; os Medos contra os Perfas; os Perfas 
contra os Gregos , e contra todos eftes os Ro- 
manos, deftruindo , e diífipando o mefmo, de 
que fe animava a fua ambiçam ; e de toda efta 
conquifta que intereífes lhe lucrou o feu tra- 
balho, mais que moftrarlhe o defengano , que 
o mefmo efpelho , em que fc lhe reprezentava 
a ventura , lhe figurava a mortalha ; mas efte 
chriftal do conhecimento , efcureeido das fom- 
bras do deleite, fe hoje me allumea, a manhãa 
me cega, e torna a peluadir-me, rifcando da 
memoria , a mefifla luz , que dá o entendi- 
mento, deixandome, fó para naô perder-me nas 
duras rochas da minha cegueira, bufcar em vós 
quem me refgate. 

Ha Mageftade de taó ilimitaveis pode- 
res, que fe eftende o feu domínio às mais e- 
minentes esferas ; prende os mares y fogeita os 
». . ventos 



I3<5 - Reyno de Babilónia ,/ : '^ 

ventos, governa os orbes , e os mefmos aftròs 
lhe rendem obediência; mas de todo efte im- 
pério triunfa o amor, dando à fineza tam livres 
jurifdiçoens , que vence as leis da juftiça. Efta- 
va a fúria dos mares querendo ler cutelo das 
culpas , e quando o ofendido podia ficar vin- 
gado, fe moítra mais internecido ; e porque 
naó perecefíe a que amava, fe oftentou efquecido 
de que o offendia. Socorreu liberai o perigo do 
naufrágio , mandando defiro Piloto que atalha- 
fe o que o temor ja reprefentava infalível ; por- 
que na grandeza daquelle coração faõ def- 
quite das ingratidoens , o mutiplicado das pie* 
dades. Para Argonautas fazerem ditoza a fua 
viagem, deu Minerva permiíTaó para fe fabricar 
a nau Argos do tronco de hum carvalho, a que 
ella tinha dado falia , e fciencia, para que podefle 
advertir aos navegantes os perigos; e fe livraíTem 
de cahir nelles : diz Plínio, que efta nau fora 
lavrada com preheminencia da Deoza , incorru- 
ptivel aos aflaltos das ondas , e a os incêndios 
das chamas. Iílo que la foy idea na gentilida^ 
de, fe vê aqui na experiência, fendo o amor 
do Príncipe quem no inquieto mar de Babiló- 
nia com fcientes inteligências , enfina a fugir 
dos duros efcolhos, que coíhftnaó levar a pique, 
aos que fiam das fuás marés , a donde fam cer- 
tas as ruirtas. Dezenganem-fe os defcuidados , 
que fó as cautellas livram da voracidade das 
chamas fendo quem melhor as apaga , os que 
pelo internecido dos affe£tos fe embarcam no 
mar das lagrimas. Chegou Angélica a terra, 

por- 



Ganhado pelas armas do Ewpyreo. 137 

por beneficio da clemência do Príncipe , que 
alargando o braço , como poderofo, a livrou do 
perigo , deixando-a ponderar os repetidos ef- 
tragos , que nella faziaó os defacordos , para 
que advertindo naõ falta a mifericordia , ainda 
que erita a culpa , e fepultando as grofleiras né- 
voas , que fabricou a prefumpçaõ de formofa 
nas ondas das fuás confufoens, temeíle outra 
vez dezembainhada a efpada da juftiça, fem le- 
vantar os olhos ao feu bemfeitor, fe rendeu a- 
gradecida nos profundos adtos do arrependi- 
mento, e acompanhadas as lagrymas dos pro- 
teftos da emmcnda , dizia: Jà, Senhor, que me 
recordaó os mefmos precipícios, que me amea- 
çaó , e excedem as minhas dividas o fem nu- 
mero dos vodbs aggravos , pois tirais da mef- 
ma oftènfa motivos que manifeftaõ a voífa 
grandeza, fepultem-fe os meus deslizes no di- 
latado mar do voífo amor , e repetido o voto, 
que confagro ao vóílo refpeito, ficará nova- 
mente voífo hum coraçam , que a cada paflb fe 
perde, porque he meu. Sejaó voíTas as fortalezas, 
porque outra vez as naó dettruaõ as minhas igno- 
râncias. Confiado o feu remédio no voífo amparo, 
entro a pertendelo no memorial,que vos apprefen- 
to neíle 

ROMANCE 



j 



A 5 Senhor, dezatado o laço duro, 
Com que o mar alterado ameaçava, 
As taboas do naufrágio facrifica 
NeíTa clemência a minha fé fiada. . 

S Fra- 



138 Reyno de Babilónia f 

Fragilidades fam do humilde barro 
Eílas, em que a memoria tropeçava, 
E dj que jà punida a inconftancia 
A firmeza vereis eternizada. 

Se olhaes para o delito, quem duvida, 
Que o coraçam nos fuftos fe defmaya y 
Quando fegura a pena do caftjgo , 
Seres vòs poderofo , e eu culpada. 

Mas deíTa maó Divina o favor pede 
Huma alma dos rigores conti afiada, 1 
Qual a Eneas fera defiro Piloto , 
Que o rumo tome na fegura barra. 

Entre as iras de Scyla, ede Carybdis, 
A teus braços me arrojo confiada, 
Voto fazendo feres tu meu norte, 
Que ao Cabo feliz và minha Efperança. 

Entendia Angelica 5 que o Principe a efeutava com- 
padecido , maselle em a pondo na fua liberdade, 
a deixou , ate que o voto tiveíTe dezempenho , 
e depois de experimentada a prefeverança do ren- 
dimento, fe fizefle ella acredora do premio. Efte 
fó foi o caftigo do delito, mas naó fe negando 
a benignidade aos oceultos foccorros , acerefeen- 
tava em cada refpiraçaõ os benefícios por em* 
penho do amor , que a favorecia , a pezar dos 
aggravos, que ella naó emmendava. Veremos le 
fe emmenda o efquecimento no difeurfo da his- 
toria. 

C A- 



Ganhado pelas armas ãoEmpyreo. 139 



1 



CAPITULO X- 

Volta as cofias aos precipícios para jeguir os 

acertos. 




Jà dos falfos enredos Babilónios 

Cobrada a luz , que tinha amortecido , 
Do luzido farol da fé guiada 
Angélica vencendo vai o perigo. 



Uem fe arma da luz , triunfa das fom- 
bras. Naó ha mais feguro norte para a- 
certar a carreira da viagem , que leguir 
o brilhante refplendor de huma confiante fine- 
za. He ancora taõ incontraftavel, que nem os 
mais furiozos mares podem deftruir-lhe a for- 
taleza. Jà as experiências eraô mortalhas das 
efperanças , vendo que aos primeiros impulfos 
das venturas faltavaõ as promeíTas , ficando de 
Babilónia fó as confufoens. Difcorria Angélica todasfot 
pelos inúteis empregos , que lhe tinhaõ cuftado corre a 
tantos cuidados, e conhecia, que fó o fufto auxiliou 
dos cuidados tinha lucrado dos empregos; e 
nos dilatados eípaços da fua coníideraçaõ en- 
trou a verdade a dar leys ao difcurfo, medin- 
do os inftantes , com que em apparentes fortu- 
nas a enganava o dezejo com os infalíveis de- 
fenganos , que fe feguiaó áquellas promeflas. 
Via, que nas azas do tempo em appreílados 

S ii vcos 



os a 



. •> 



149 Rey no de Babilónia y 

voos, fe tinhaó levado os ires tantos annos,' 
fem delles ficarem mais teítemunhas, qucasre- 
cordaçoens , de que paflaraõ para a dor , e a 
cônftancia do amor do Príncipe, com quem 
andava de apofta a teima da fua ingratidão^ 
delia , e fazendo- fe cargo do próprio defagra- 
decimento , fe perguntava a fi mefma a razão 
de deixar , por conta dos defcuidos , o dezem- 
penho de tantos extremos. Jà he tempo ( dizia 
el!a) de defpertar do lethargo , em que, fepul- 
tado o entendimento, fó attendia ás illuzoens, 
com que nas farças de Babilónia achavaó gri- 
Ihoens os fen tidos , cegos para naõ reparar; 
que alli tudo que diverte arruina. Quantas ve- 
zes bufquei no aprazível dos campos deleitar 
a vifta no viftofo das flores , e logo me atemo- 
rizara o veneno dos Afpides, vendo o eftrago 
do que fou, na facilidade, com que ellas per- 
dem a formofura do que parecem. Os rios, 
que corriaó arrebatados chryftacs , fe eraõ ef- 
pelhos , em que me retratava, também erao 
nvizo , de que a vida com o mefmo voo fe 
precipitava. Se os mares me oífereciaò palácios 
de prata fobre alicerces de pérolas, logo fe le- 
vantavaó em coléricas montanhas para ferem 
fepultura das vidas. Aquelle ídolo da ambição , 
de que adornada a minha vaidade, enchia thezou- 
ros a idea, que he fenaõ huma pequena porçam 
de terra , que para fer em mim opulência , ti- 
nha fido para muitos jà fepultura. Aquelles 
diamantes, de que a prefumpçaÓ fazia gofto 
faô mais que humas luzes y que furta a eítima, 

çao 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 141 

çâô ao que he, para a dar ao que parecem, 
fem paflarem de fer veneno dilfiir.ulado em 
pedra, que a forças da invenção brilha. Quan- 
tas vezes as Iizonjas de Babilónia me convida- 
rão o gofto para o que parava nos golpes do 
fentimento. Perfuadia-me o applaufo de formo- 
fa a dar créditos a mentidos extremos ; mas lo- 
go encontrava o dezar de que me negafíe Dei- 
dade, quem me conhecia humana. Que amor 
houve, que na inconflancia naó desluziífe a 
mefma fineza, que exaggerava? E ainda nos 
dias; que dura , que focego naô ameaça? Em 
quanto perfuade com vizos de affedto he delí- 
rio do coração nos difvellos do cuidado, e lo- 
go que defmayaô os feus impulfos, nas imagi- 
naçoens do aggravo forma fantafmas o ciúme, 
que com agudos punhaes martyrizaõ atè a al- 
ma, que inquietaô , e nem na mais empenhada 
conrefpondencia achaó os dezejos cabal fatisfa- 
çaõ; porque nefta Babilónia, a que chamaõ a- 
mor , nunca podem achar fatisfaçaõ os deze- 
jos. Tudo para em huns fumos, que desfeitos 
no ar , de que fe formão , nem nos ficaõ fu- 
mos do que foraó ; e com eftes nadas levantaó 
es Babilónios edifícios á confufaõ , para que o 
defacordo dos que nas fuás redes captivsõ , 
nao acertem a quebrar os grilhoens , de que 
deixaô prender-fe; e que por efte infame delí- 
rio me negaíTe eu ao amor do Príncipe , em 
que cada dia multiplica os exceíTos , fem que 
nem o tempo arruine a fineza, nem a efíencia 
me pofla mudar a fortuna. Aggravo he efle, 

que 



i^i Reyno de Babilónia , 

que fó cabe na lua tolerância , e em mim he 
deli£to , a que nem a inconíideraçaõ pode fer 
difculpa. Do amor do Príncipe he medida a 
mefma eternidade, que na fua conftancia naó 
tem termo as horas, aílim como nos outros de- 
figuaes empregos parece fe contaó por eterni- 
dades ate os inftantes. Pois que faço ? Que 
deixo prender-me pelo débil fio de hum ca- 
bello, quando por hum cabello deixou aquelle 
Monarca prender-fe ! Seja efte conhecimento 
fepulcro do paílado defatino cayaó os falfos 
id^los, a que levantava altares a minha cegue- 
gueira, e feja o firme aço de hum nao quero 
o efcudo , que derrube trocidas as fetas , que 
aõ meu coração venhaô difparadas; fem que 
poíla dizer-fe de mim, que acertou hum cego 
mais, que hum lynce. Seja o meu peito, de 
quem por elle foy amor vendido, e naó fe 
atrevera a conquiftalo o amor vendado. Naó 
defmayem outra vez as propofiçoens do acerto, 
recaindo nos perigos do mal confiderado. Aca- 
be hum firme propofito de pagar benefícios, 
de deftruir errados penfamentos. O Príncipe 
£(Toflos he efcolhido entre milhares , e naó ha flor no 
campi. campo, que fe compare a efta flor. Naó haja 
também em mim mais fuave ramílhete , com 
que fe adorne o meu peito. 

Eftes firmes affe&os eítavaõ batendo ás 
portas do entendimento de Angélica, quando, 
ao fom de caixas marciaes , e fonoros clarins, 
vio , que atraveílavaõ a praça dous bem for- 
mados batalhoens de Soldados, que pareciaó 

querer 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 143 

querer dezafiar as esferas ao efgrimir das ar- 
mas. Eraó os dous Generaes ambos de galhar- 
do afpe£to , e grandes forças , ainda que em 
hum era a valentia eílencia , e em outro induf- 
tria: defte eraó as armas venenofas flechas, j mr 
daquelle abrazadas chammas; o das flechas ati? Divino^ 
rava vendado, e cuberto o roftro , o das cham- amor hu ~ 
mas com o peito aberto , e fó do coração de- m4n0m 
fendido. Noefcudo, em campo azul, trazia pin- 
tada huma Esfera, e nella hurnas taboas , em "iahas 
que fe divizavaõ dez cifras feparadas com eíhi da Le ^ 
letra : Com eflas Ceo e Terra fe conqitifta. 
O das flechas tinha no efcudo pintado o Ar, 
efcurecido de nuvens, e cheyo de azas, com 
efla Jetra : Qiianto mais venço fitais voo. 
Chegarão á viíla de Angélica, e fobre huma 
coiumna de mármore, que fe levantava no 
jméyo da praça, fixarão hum cartel, que dizia: 

Com três lanças conquiftar 
Amor huma Alma pertendej 
E fendo amor quem defende 
Sempre amor hade triunfar. 

Tocarão os clarins a alvoraçar os ânimos , e 
ao partir do Sol diíTe o das flechas : 

Se a render hum coração 
De amor hum fó tiro bafta, 
Quando huma lança contraíta; 
Três lanças para que fijô ? 

Ao 



144 Reyno de Babilónia , 

Ao que refpoadeu o das Iayaredas: 

de San- A torça de amor benigno, 
tfjfima. Vença o poder de amor trino 

Empreza , que he fingular. 

Indecifos eftavaó os dous combatentes ao rom- 
pimento da batalha , e conhecendo o das la- 
varedas a fraqueza do feu contrario, lhe diire: 
Naõ ha contender fem conftar o jufto , ou in- 
juílo da demanda , porque naó fique a vitoria 
íb em abono das forças, mas com dezar da 
razaô. A praça de huma alma pode entregar-fe 
mais por impulfo da vontade , que pelos gol- 
pes da ira. Saibamos a refiftencia, e entraremos 
na peleja com mais corage. Vós fiais-vos nas 
voffàs forças , ( refpondeu o das flechas ) e eu 
fó nas minhas experiências pudera fiar-me, que 
ao veneno das íetas naó refiftem nem penhaf- 
cos. Vede como delias fe livrarão coraçoens , 
fabendo eu nelies introduzir taes eítèitos , que 
fica natural corp a vida o mefmo , que lhe dá 
morte. Se eu fufpender os esforços (diíTe o das 
lavaredas ) feraõ voíTos os triunfos , que para 
ganhares o campo , he precizo , que eu lhe 
volte as cortas; mas para que vejaes, que em 
vòs o vencer he muito diverfo do inveílir, e 
vos naó fique a vaidade de que eu quero hum al- 
vedrio forçado , quando devem fer meus vo- 
luntários os alvedrios , atirai a primeira fetta , 
que eu vos dou a primazia; porque feja mais 

mani- 



Ganhado pelas armas âo Empyreo, 14$ 

ittanifefto o voíTo defengano. 

Attenta tinha eftado Angélica ao que en- 
tre os dous paliava, c taô defiguaes eraõ os 
effèitos , que no coração fentia , que inclinada 
ao das lavaredas pela fuavidade do incêndio 9 
dezejava dar-lhe a vitoria fem lhe cuítar a 
conquiíla. Tudo nelle achava iman para attrahi- 
la, como no outro temor para defagradala. 
Obrigada defte amante impulfo, começou no 
mais vivo do coração a fallar-lhe neíta 



DECIMA. 



D 



Eflas lavaredas logo 
Me abrazou huma chamma a£tiva; 
forque o meu coração viva, 
Qual Salamandra entre o fogo: 
Seja ao peito defafogo 
Efte mefmo ardor intenfo , 
E do coração no lenfo 
Com hum vivo rayo daquelles > 
Retrate amor, novo Apelles , 
De tal fogo o fogo immenfo. 

Naó fe lhe occultavaõ ao galhardo combaten- 
te eíles afteílos , porque como para illufirar 
tinha fciencia para conhecer o mais interior 
dos penfamentos , e fabia , que adonde elle 
punha os olhos fe lhe rendiaõ as liberdades v e 
tendo-os applicado a Angélica ; fem mais bal- 

T las, 



í 4 6 Reyno de Babilónia , ' " * 

las , que eftas luzes , ficariaõ vencidas as fom- 
bras. O feu contrario, a quem fe occultava 
efte myfterio, e esforçava as fuás efperanças 
no defacordo das cegueiras, inficionou as feitas 
no veneno das lizonjas , por faber , que eraõ ef- 
tas as bailas, que naquelle paiz alcançavaô 
'mayòres vitorias, e pondo-fe, adonde Angéli- 
ca podeífè ouvilo, lhe difie : 

BElla enbidia dei prado, 
Del corazon iman ; 
No me niegues el triunfo , 
Que en fé de tu belleza he de alcançar. 

Nó burladas mis flechas 
DeXes , porque fera 
Afrienta a mi poder 
El ardor de mis llammas defpreciar, 

Dexa ; que amantes cultos 
Ofrefca a tu Deidad , 
Finezas de diamantes , 
Conílancias de invencible pedrenál. 

Dexa vencer tus ojos, 
En quien Cupido eftà, 
Saetas enbidiando 
Para anadir mas gloria a fu carcas. 

Bem fabia o das lavaredas, que a vontade de 
Angélica eftava inclinada a deixar inúteis eftes 
combates, parque íacrificadá em melhores aras, 

queria 



Ganhado pelas armas eh Empyreo. 1 47 

queria pizar as fettas por império da luz, que. 
no entendimento lhe tinha amanhecido. He o 
coração fiel contraftc dos affeftos , e em oc- 
cultos avizos coftuma diftinguir a utilidade dos 
alvoroços. Para retratar a virtude dos Deoíes 
pintavaó os antigos hum Sol, que com hum 
íb rayo partia huma penha , achando , que á 
dureza de hum penhafeo bailava huma relí- 
quia da virtude divina para contraftala. No 
peito de Angélica obrou o mefmo milagre, 
communicado hum fó refplendor. 

Aquelias íete famofas Heroinas, fuaviffi- 
mos clarins , que na íua conítancia deraô Santa 
mayor gloria a Portugal na invi£ta Coroa, .§>*>*- 
com que as illuftrou o martyrio , Quitéria , e na * 
fuás Irmãs, innocentes Jafmins, que na primavera 
do feu primeiro Abril alcançava a fua formofu- 
ra vi£Hmas, que lhes rendiaó as liberdades, 
íbraó conquiftadas do carinho de hum Rey 
amante j e ameaçadas do poder, edatyrannia, 
naõ premaneceriaó valerofas em defprezar 05 
rogos, fe illuílrada a alma de mais ve.hemente 
impulfo , lhe naó dera as armas para alcançar 
as vitorias, e as que eraó inpenetravel rocha 
aos aíTaltos da peleja, renderão o coração ao 
toque de huma interior ternura , que accendeu 
nodifeurfo, ponderando mais úteis finezas, tra- 
zendo-as a comprar com o preço dos vidas o 
incomparável premio deílas finezas. Jà Angéli- 
ca eftava no acertado acordo de fazer íb cabe- 
dal do amor do Príncipe, e lhe introduzio o 
penfamento, que naó podia fer outro fenaó 

T ii elle 



i4& Reyno de Babilónia , 

elle o que com taõ a&ivas chammas combatia 
o forte do feu peito, e dezejava fofíe elle 
quem o ganhaíTe. 

Naõ ceifava o flecheiro de repetir os ti- 
ros, huns rebuçados nas adulaçoens da formo- 
fura, outros introduzidos nos fufpiros da per- 
tenção; e de humas, e outras bailas combatido 
o animo dafingela Aldeãa, inclinando-fe ao das 
lavaredas por intima attracçaó, alguma confo- 
nancia lhe fazia o ruido daquellas vozes , que 
foavaô divertimento , e efeutava a vaidade do 
próprio gofto. Naõ ha coração partido , que 
para foberano holocaufto naô chegue indeco- 
rofo, bailando a repartição de hum penfamen- 
\ to a deixalo indigno de aceitado : nem vale 
para ficar purificada a vontade, naõ fazer gof- 
to da prizaõ , porque he necefiario cerrar de 
forte os ouvidos aos eccos da offença , que 
ainda antes de pronunciados fe defpreze abor- 
recidos; que quem efcuta , facilmente fe afFei- 
çoa ; e naõ ha peito taõ dilatado , que fem ag- 
gravo de hum amor poíTa efputar dous amo- 
SdDm r es. Permaneça na memoria o que deve fer 
d lZ* J er único na vontade, e naõ fe arrifque a cahirno 
laço , quem chega a examinar a torça , que o 
armou. 

Conheceu o das lavaredas a fraqueza da- 
quella paixão, em que Angélica fe detinha, e 
como coftumado a fuás quedas, a defpertou 
nos avizos deita 



DECI 



Canhado pelas armas do Empyreo. 149 



DECIMA. 



S 



E meu peito ainda ferido 
Inteira pofle te deu , 
Como poíTo aceitar eu 
Teu coração repartido: 
Mas fe de amor deffendido 
Me prometer nova ley, 
Daquella antiga, que dey, 
Jà mudada a dura fragoa, 
Nefta taboa em fangue , e agoa 
Novo artigo tresladey. 



AfFrontada da fua tibieza , e cobrado o valor, 
que no ufo dos defcuidos parecia hir perden- 
do a força dos extremos, quiz Angélica no 
manifefto do feu repudio dar inteira polTe ao 
das lavaredas do mais importante da alma , 
moftrando, que jà fó amalo dezejava ter por 
vida, como lhe íegurou nefte 



SONE. 



iyo Reyno de BaâUtmla; 

S O NE TO. 

Svlfal *~* Sta de amor fineza remontada ;... 

nima A que immortal minha alma a fé íegura, 1 

mea de- Se de voíTa ley he firme eferiptura 

[iftTfica 6 - Em meu P eitó . avcr 5 is le 7 obfervada. 
uones " Jà do falfo Cupido naó quer nada 
tuas. Hum coração , que amar ao voíTo jura, 

Abrazando efTas taboas , em que apura 
A luz da fé , de que jà vay illuítrada. 
EíTe de amor incêndio rutilante 
Meu peito abraze , e em a£tiva chamma 
Se purifique o rendimento amante. 
Que fe benigna voíTa luz inflamma , 
Efte que fer protefta ardor conftante, 
Corno a alma immortal fera no que ama» 



De que impaciente o competidor voltou em 
iras o- que tinhaõ fido rogos, como fe pode- 
rá oppor-fe â fombra a luz, ao Sol a nuvem , 
e a noute ao dia •, fem que o dia 5 o Sol , e a 
luz déíTem permiíTaô para eíles ecclypfes mais 
agigantadas forças. Defatado das esferas da 
ira partiu aquelle vivente rayo , que para def* 
truir os altos edifícios da fé levava defembai- 
nhada a efpada , fazendo eftremecer a Damafco 
a cólera , com que ameaçava as ruinas a Jeru- 
falem; e o mefmo poder, contra quem fe ar- 
mou o deli£to, o enfraqueceu no caminho da- 

em- 



Saulo, 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 151 

empreza , cahindo duas vezes cego , o que pa- 
ra a vingança fe appretíara lynce. Ifto que fu- 
cedeu ao rígido valor de hum animo forte, 
experimenta cada dia aquelle fraquiflimo vapor, 
que levantado da terra naô permanece nella , 
porque acaba no ar, porque voa; amor emfim 
caduco, que atina quando defpedaça, e co- 
nhecida de Angélica a fua humilde eflencia,, 
lhe deu o defengano neftc 



SO.NET O. 

J-\ Partate de mim , Deos fementido, 
Jà conhecido teu poder , e engano , 
Que fe me ampara braço foberano, 
Sem duvida era verte deftruido. 

De teus cegos errores jà advertido 

-i As coitas te voltou meu defengano^ 
E de ultrajarte o coraçam ufano 
Se. coroa do triunfo confeguido. 

De tuas feitas caya a fortaleza, 
Que a mais altos trofeos dedicado 
Meu peito bufea a fegurar a empreza: 

Sendo da fê o immortal fagrado ; 
Q^uem refiftindo jà tua fereza 
Vitoriofo eternize o meu cuidado. 

Defpedido, mas naô enmendardo, o cego com- 
batente , para a officina de fuás ardentes feitas 
appellaraó as defmayadas efperanças ; prevenindo 

lavrar 



i$z Reyno de Babilónia, 

lavrar lanças de mais agudo corte, com que 
novamente arruinaíTe a fortaleza , que tinha pi- 
zado as fuás invertidas > fazendo , que na fúria 
da memoria fe accendellem mais xidVivas chamas, 
e da vileza do ferro formaíTe Vulcano novas 
armas, a que o efcudo do temor naõ pudeíTe 
refiftir , deixando render-fe às propofiçoens do 
amor próprio, que ainda ufava valentias de 
gigante, reprefentando na fuavidade dos paira- 
dos divertimentos taô trocadas as prefentes 
ifençoens. 

He efte inimigo o mayor contrario da juf- 
tiça , e nefte fitio foy acampar-fe com todos 
os íeus aliados, voltando as coftas à primeira 
empreza, por ver de mào partido o feu partido; 
mas deixou taô introduzido o feu veneno nos 
fentidos de Angélica, que, em declarada guerra, 
começou o penfamento a reprefentar-lhe no mal 
fortificado da fua defenla os perigos da bata- 
lha ; mas quando os foccorros vem de mais al- 
to império, fempre ganha a praça quem fegue 
as bandeiras da razam. Ficou o combatente das 
lavaredas fenhor do campo , c premiando em 
Angélica procurar-lhe a vitoria tanto a peito 
defcuberto , a fortaleceu de novos brios para 
os futuros encontros, dizendolhe : Agora vereis 
como triunfa quem por amarme peleja, que o 
Senhor dos exércitos naõ fe defcuida de acu- 
dir prompto adonde vê mais arrifcado o aíTal- 
to, para que naô periguem os que por elle fe 
empenhaõ, e nos mais árduos conflitos lhe mul- 
tiplica os alentos , e fe com taó dcfvelada lar- 
gueza 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 153 

É 

guezalhe danos extremos, com que ama, ajuda 

de cufto para a fatisfaçaõ , que efpera , que fem 
razaô fera bufcar tyranno poder, tanto a pe- 
zar de quem por fuílentar a paz , tomou íb- 
bre feus hombros a defenfa. Confidere o co- 
ração , que ingrato fe defvia , os lucros , que 
perde , fe tanto a diante dos merecimentos 
paílaó os prémios, naó com limite no tempo, 
mas fem determinar tempo , nem lhe pôr li- 
mite , que aflim como no poder naó pôde ha- 
ver igualdade , a quem labe merecer os extre- 
mos fe remonta a conrefpondencia ao mais ele- 
vado dos prémios. 

Angélica y que no peito via ateado o fo-# 
go , para que a pratica do novo Adónis tinha 
dado lobrada matéria, accendida a fé de que 
era o Príncipe, com quem fallava, lhe diíTe em 
alvoroços o rendimento, do que fentia 5 na ver- 
dade, com que jà o amava: 



JJ Afte de peleja amor ; 
Que na conquifta defmaya 
Hum coração , que a gemidos 
Efta dizendo que bafta. 

Depois de haver com meu pranto 
Regado eílè verde mappa , 
Donde nos ays dos jacinthos 
Lamentei culpas paíTadas : 

V Sc 



I5"4 Reyno de Babilónia , 



i 






Se declara a fogo , e Tangue 
Contra mim civil batalha* 
E de dous fortes guerreiros 
Se vè combatida huma alma» 

Dous Generaes taô valentes, 
Qjie ao furor das fuás armas 
A terra ellremece , vendo 
Difparar rayos por bailas. 

Ambos de hum officio,. e nome. 
Porém de fortes contrarias* 
Que hum venturas alFegura, 
O E o outro infliie difg raças» 

Hum de Vénus, e Vulcano 
Filho , e de eftirpe taõ baixa £ 
Que de fabricar enredos 
Se compõem a fua fabrica. 

Outro de Celefte Esfera . 
E defcendeneia taô alta , 
Que fobre as azas dos ventos 
Tem aíTento a fua Caza* 

A eíla Deidade infinita 
OíFreço com fé jurada 
Hum facrificio de fogo , 
Donde os fentidos fam brazas; 

Taô goílofo o coração 
Arde nefta a&iya chamroa^ 



Que 



Ganhado pelas armas do Ewpyreo. i$ç 

Que fó para mais arder 
Das chammas reíufcitára. 

Só da antiga Babilónia , 
Reduzida a cinza em nada \ 
Dura a memoria no pranto , 
No defengano a mortalha: 

Acabemos de huma vez, 

Senhor, taó inútil campanha, 
Que eu fó adorar-vos quero , 
De outro amor naõ quero nada. 

Jà , Senhor ( continuou Angélica ) eílà taó tro- 
cada a minha vontade, que illuftra o meu ía- 
crificio no dezejo de atear-Ihe o fogo;, e ref- 
pira a dor do tempo , em que deixei de amar- 
vos na adlividade de querer mais do que to- 
dos fervir-vos, ainda que vendo fe fufpende a 
diligencia nos vagares da execução, temo, que 
ao vento da minha vaidade torne a levantar-fe 
o pó da terra , com que fe ecclypfe eíla luz , 
que no meu coração começa amanhecer, e fi- 
que o engano da apparencia fendo fó verdade da 
perdição; porque fe os infalíveis de querer vos 
foraõ , como devem , efficazes , jà fora fervir 
iíto , que ainda parece dezejar. Compadecei- 
vos, Senhor, de me veres perdida em mim, 
porque vos deixei a vòs, bebendo das ciíler- 
nas immundas de Babilónia , e negando-me ás 
fontes de agoas vivas, que me offerecia a vof- 
fa fineza. Jà quero , fobre todas as couzas, 

V ii amar* 



l$6 Reyno de Babilónia, 

aroar-vos, fe atè aqui vos deixei por qualquer 
delias , e pondo na vofTa mão os meus cuida- 
dos , tudo que naô fois vòs , fique aos defcui- 
dos. 

Naó poude o amor do Príncipe fogeitar- 
fe mais aos limites do disfarce, e deixando 
conhecer-fe com agrados de amante lhe pòzos 
olhos, mas com mageftade de íbberano fe au- 
fentou , para que nella a firmeza 5 que prome- 
tia, forte impulío do amor, e naó da prefen- 
ça. Apartou-fe elle da praça, e ella o feguiu 
na faudade, como veremos no mais ? que íe 
paliou. 



CAPI< 



Ganhado pelas armas do Empyreo. t£? 

CAPITULO XI-- 

No chryjlal da fineza fe retrata melhor o co- 
ração amante. 

Jà de amor os adornos vay compondo, 
Neíle da ley efpelho chryftalino , 
Hum coração , que o duro dos diamantes 
Trocou pela pureza dos auxílios. 



HE o efpelho a lamina , em que melhor 
fe retrata a imagem , que felhe applica , 
divizando-fe nelle as imprefeiçoens pa- 
ra confufaó das vaidades , e repfefentando-fe ao 
agradecimento as dividas , em que nos pez o 
autor da natureza , para que á vifta do benefi- 
cio defperte a memoria, que adormecida nas 
fatisfaçoens de amar-fe , fe efquece de que a 
formofura naõ deve nada a quem a logra , fe- 
tiaó a quem a cria. Diga-o a creatura mais 
bella , a que deu fer o poder de Deos , efíe de- 
pofito de rayos , effa oftentaçaó de luzes , efle, 
que, com vizos de Omnipotente, fertiliza os 
campos, pacifica os mares, faz fazonar os fru- 
tos , he vida das flores , e alegria dos nafeidos j 
c de fi naô tem mais bem , que aquella appa- 
rencia, a que fuftenta a galla a mão, que lhe 
deu a galhardia, e para deíengano de que nem 
o Sol era mais, que o que lhe participava 

quem 



1^8 , Reyno de Babilónia }• 5 

quem mais que elJe brilha , lhe deu no li- 
quido chryftal dos tnares efpelho , em que vif- 
fe, que ao brilhante da luz fe íeguia o páli- 
do do occâzo, e feaaô gloriafle no oriente, 
o* que taó depreíTa havia ecclypfar-fe no tu- 
mulo. 

Tinha Angélica jà começado a emendar 
os deslizes de ingrata nas confideraçoens de a- 
gradecida , e os que foraô defvios , em que 
na6 reparava o cuidado , agora eraô cuidados 
para fugir daquelles defvios. Eftava o penfa- 
mento prevenindo os fuceíTos 3 em que coftu- 
mava tropeçar o defacordo , mas naõ vivia 
ainda taó defenlaçada a refoluçaó , que deixaf- 
fem de fe achar nella imperfeiçoens na fineza , 
que dependiaó de purificadas em mais nobre 
facrifício. Cuidava ella , cflue jà o feu amor 
era tao gigante , que podia medir as forças 
com o mais valente contrario , efquecida de 
que a vaidades de cera fe leguem precipicios 
de fogo, quando fenaó acautella o temor pre- 
venido pela confideraçaó ; que a pedra de to- 
que , em que hade examinar-fe a firmeza do 
perfeito amor , naó he fó o fenfivel dos aftec- 
tos , fenaõ a total negação das propoíiçoens, 
com que o gofto próprio coítumava multipli- 
car os empregos para lizongear os fentidos. 

Eftava Angélica enganada com o feu de- 
zejo , imaginação, que accendia o ar, que da 
terra fe forma 5 defde o berço alè o tumulo, 
para que ^aõ acabaíTe de abrazar a luz da ver- 
dade , que fem advertência hia desfalecendo. 

Huma 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 1 5*9 

Huma das donzellas , que coítumava affiftilla , 
e fe chamava Aura , de quem ella muitas ve- 
zes fe valia para divertiía , . vendo-a penfativa 
e mais deícuidada das joyas, de que ufava pa- 
ra o feu adorno , com o cofre , que as guar- 
dava, entrou a dizer-lhe: Que he iíto , Se- 
nhora, qual daquelles dous combatentes triun- 
fou da vofla alegria, que na verdade amfc^s 
podiao fazer fua a vitoria, e pelo que em vos 
vejo , parece vos ficou prizioneira na batalha , 
c vos deixou a memoria por defpojo no vivo 
da faudade, e atè de efmaltares a formofura 
vos efqueceis, deixando-a fem alinho, como 
quem fe aborrece de lhe pulir os quilates. Di- 
zei-me, que mal vos fizeraõ eftas pérolas, que 
para retratar-vos as congelou a Aurora nas con- 
chas. Efte Cupido de diamantes vede , que tal 
vez tenha femilhança com o que viftes efgri- 
mir na praça ; e por certo a fua galla toda a 
luz deixava ás efcuras. Também aqui tendes 
humas lizonjas de efmeraldas , que em Babiló- 
nia faô brinco de efperanças , reparai , que 
bem dizem entre o ouro dos vofibs cabellos , e 
fenaó fiais de mim faber prendelos , aqui ten- 
des oefpelho, a que melhor podeis toucar- 
vos, que para vos divertir baftarà , que vos 
chegueis a v£r; porque naõ efteja fempre o 
animo guardando as coftas ás triítczas. 

Era Aura de livre génio , e de leve pon- 
deração nos difcurfos , e parecendo-lhe , que 
com o chifte da malícia fazia mais efficaz o 
confelho , que no ar , que o fabricou logo íe 



í6o Reyno de Babihnià , 


defvaneceu , foy prefiftindo ; mas Angélica, em 

quem o amor do Príncipe tinha lançado a pri- 
meira pedra no alto edifício , com que fe de- 
fendia das ruinas, que a ameaçavaó, ainda y 
que inclinou os olhos ás gallas , jà fenaõ a- 
gradou de vellas , porque eraõ de mais nobres 
quilates as de que queria guarneeer-fe, para que 
cwPrincipe a viíTe , e refpondeu com aquelle 
defabrimento , que coftuma cauzar nos fentidos 
o fogo , quando com mais illuftres chammas 
fe atea ; e diíTe-lhe : EíTas pedras , que jà pa- 
ra o amor foraó de toque , hoje para o meu 
gofto faó de efcandalo. Naó lhe nego ainda o 
valor, porque as vejo luzir, mas faó relâm- 
pagos, que annunciaõ rayos, e na minha me- 
moria eftaó de aflento humas relíquias do de- 
fengano , que prefervaõ das tempeftades. No 
claro efpelho do tempo quero fó ver-me outra, 
jà que tantos annos cm outro menos chryftali- 
no me vi fempre a mefma. Hoje faó outras as 
minhas plumas, porque o vento levou as vai- 
dades ; que naó ha veneno taó nocivo , que 
adoçado com o falutifero da razaô , fenaó ve- 
nha a tirar delle alguma utilidade. Ay , Senho- 
ra, (refpondeu Aura) nos mineraes do diverti- 
mento também fe achaó pedras preciofas, que 
faó cordeal para as malencolias, e vós da con- 
tenda dos dous guerreiros trouxeftes pene- 
trante golpe. Naó vos nego (diíTe Angélica) 
que aquelle cego me abriu os olhos , e lhe ad- 
verti os erros por beneficio da luz, que naó 
conhecia como quem andava às efcuras ; mas 

eílas 



Canhado pelas armas do Etnpyreo. 1 6 1 

eftas filagranas , que faó refpiraçoens do cora- 
ção , naó as pondera quem como vòs fe pre- 
za de viver nos ares. Pois Senhora ( tornou 
a dizer Aura ) porque o ar leva o mais ligei- 
ro, para que elle vos naõ lance adonde naó 
quizereshir, fazei laílro defta preciofa pedra- 
ria, e vereis, que no mar de Babilónia faó as 
riquezas as que feguraó as viagens , e efte co- 
ração de rubim bem pode por pedra fina to- 
mar a altura do Sol. 

Pegou Angélica no coração, parecendo- ®**£ 
lhe, que via nelle copiado o fogo, que no engana* 
feu peito ardia , fatisfeita de que naquelle in- coração 
cendio fe tinhaó jà purificado as fezes, que * umàm 
taõ transformadas deixarão os dotes , com que 
nafcera , e eftavaõ apagadas da fua ingratidão 
atè as cinzas , que efle he o engano , em que 
tropeção os que principiaõ, por novo caminho, 
a feguir a fua jornada , e aos primeiros pálios 
achaõ, que tem vencido a carreira, fem repa- 
rar o difficil das eftradas , e os defpenhadei- 
ros , em que fe encontrão os perigos , de que 
fó livra quem leva por guia a defconfiança de 
íi , e o temor de errar o caminho , por fer 
grande a diílancia, que lhe falta por vencer, 
ainda quando fe lhe reprefenta o muito , que 
jà tem andado. 

Eftava o Principe efcutando a pratica," 
que fempre as de Angélica o achavaó prefen- 
te , como quem a zelava atè do mefmo Sol , 
que avia. Entrou femfalar-lhe , e pegando do 
cfpelhO) que entre as alfayas dos paílados def- 

X lizes 



IÓ2 Reyno de Babilónia 1 

lizes eftava como teftemunha da fua inutilida- 
de , fe lhe poz defronte, e ella entre os alvo- 
roços do favor , e o refpeito da mageftade, 
ajoelhada quiz moflrar, que fe rendia á fé com 
que jà o amava, fazendo-lhe facrificio do co- 
ração, que tinha nas mãos lho oirereceu , co- 
mo copia , do que jà lhe tinha dado por fine- 
za; mas vendo, no puro chryftal do efpelho, 
aquella vi&ima taô cheya de manchas, quanta 
ella jà a fupunha adornada de graças , enfra- 
quecerão os alentos conhecendo o pouco , que 
fe tinhaõ adiantado os feus pados. Ali vio, 
que o que ella cria abrazado incêndio de amor 
no vivo fogo do rubim , era huma apparencia 
de chamma em huma realidade de pedra , que 
luftrada aos golpes do buril, enganava , como Ia- 
vareda , ficando fempre dura por natureza* 
Conheceo, que o ouro da fé lhe diminuirá os 
quilates por naõ eftar purificado nelle aquelle 
pó , que trouxe da terra , e por mal feparado 
delia, ficava de menos valor. Nos diamantes 
eftava& huns affedtos corruptos pelo nafcimen- 
to, e venenofos por defconhecidos. Vio, que 
nas efmeraldas fe congelara a efpeíança, impa- 
ciente na dilação das dezejadas poííes, quedef- 
te mal enfraquecem as que de errados bens fe 
alimentaõ. Magoada de ver que nao ficava o 
coração digno de foberano emprego, fendo 
tantos os defeitos, que nelle eftavaõ manifef- 
tos , acodio ao internecido dos rogos , para 
evitar na piedade do Príncipe os repúdios. Jà 
advertida de que fó hum humilde rendimento 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 16$ 

podia fuprir o a que naõ chegavaõ os fcus pe- 
quenos cabedaes, e acompanhado dos fufpiros 
o feu requerimento lhe diífe neíla 



DECIMA. 



p 



Ols es luz de Ceo , e terra , 
Que á terra, e Ceo luzes deu 
Defte coração , que he teu 
Efcuras fombras defterra: 
Eftes nadas, que em fi encerra t 
Vapores da terra faô , 
Que desluzida a oblação 
Deixaõ, fe a naó fortifica 
EíTa mão, que fabia applica 
Ardor ao meu coração. 

i 

r f j 

Jà vejo, Senhor, (continuou Angélica) que og 
thezouros de Babilónia , quando a ignorância 
os avalia , faõ ambiçoens para a vaidade •, mas 
tocados pelo conhecimento fe exhalaó €n\ fu- 
mos para o defengano ; porque fó he cabedal 
de preço fazer de amar-vos cabedal. EíTas 
mentidas Deidades, a que levantou altares a 
cegueira, efquecida de que Deozes multiplica- 
dos defmentiaõ a eíTencia na repartição dos at- 
tributos, paguèm-fe embora da impureza do 
voto , que a fé , que a vòs por único vos ado- 
ra y dando de mão ás appareneias, bufca para 

X ii ador- 



I 

IÓ4 Reyno de Babilónia] 

adornar-fe as realidades , fendo a deixaçaõ de 
tudo, que naó fois vòs, o preciofo adorno, 
com que entre a merecer-vos , e para naó de- 
fagradar-vos fede vòs quem enriqueça dos vof- 
fos dons efte coração , que nas aras do refpet- 
to vos entrega a minha fineza , que eu pobre 
de cabedaes naô poífo dar-lhe mais galfa , que 
a dos dezejos , e de vòs depende a execução. 
Efte generofo aftèíto, com que fem attender 
ao próprio intereíTe do premio , fó peço o que 
pode agradar aos voíTos olhos, para que me 
naó fucccda o queáquelle indifcreto convidado, 
que por entrar nas vodas fem as veftkiuras 
nupciaes , foy lançado nas trevas em caftiga 
de apparecer fem o devido luftre na caza das 
luzes. Alcance de vòs o favor de aprefeiçoares 
Egodi- em mim o amor, para que poffa dizer: Meu 
tcâo amado para mim , eu fó para o meu amado* 
aderne 1 ^ vo $ y Senhor, fó quero amar, que compre* 
csverfk hendeis o Univerfo : fe vos quero poderofo , 
«jus* vòs governais o infinito, fe vou bufcar o lu- 
zido , vòs dais luz á luz elemental ,. fe quero 
achar o liberal, vòs creaes , e repartis os the- 
zouros , fe a formofura , vòs dais que envejar 
ás Eftrellas. Difpendeis agrados aos campos 
na bdleza das flores; retrataô-vos os mares na 
riqueza das pérolas , e finalmente vòs me dais 
liçoens de amor nos extremos de amar-me ; 
pois que pode fadar o meu dezejo , que naó 
tenha em vòs multiplicado , fe taõ opulentas 
circunftancias acho em vòs todas applicadas a 

benefido meu, de que vencida a minha pafla 

da- 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 165 

da rebeldia , quero render-vos purificado hum 
coração enternecido, para que o façais mere- 
cedor de fer coração voflb , extindlas nelle ain- 
da as cinzas das voilas offenfas; que bem fey 
naó quizeíles entrar na caza daquelle grande oCentu- 
homem , que guardava nella os ídolos da falfa ria*, 
adoração , e naó era jufto , que vòs verdadei- 
ra Divindade entraíTeis naquella fementida ca- 
za, e fó da fua defemelhança quer o meu pei- 
to prezar-fe como centro voílb. 

Naó ha para quem ama mais apertado la- 
ço , que os proteftos de bem conrefpondido. 
Entaó fe apura o excedo, quando fejuftifica o 
amor ; fendo fetta , que ferG dous coraçoens , 
a que entra em hum coração. Goftofo 
eftava o Príncipe de taõ amante extremo , e 
fazendo alarde da fua real fineza , fegunda vez 
Jhe fegurou , que a fua voz fazia doce harmo- 
nia nos feus ouvidos , e para que mais o a-, 
mafle, lhe refpondeu : 

Novo coração teu fou , 

E de amor a chamma a£Hva 
Fará , que em doce uniaô viva 
O coração, que te dou. 

Deita amorofa pratica fe augmentavaô no peí* 
to de Angélica as adHvidades do feu amor , 
com defprezo das apparentes íuavidades , que 
lhe propunha a rebeldia de contrários penfa- 
mentos, e entertida em reíiflilos, a deixou o 
Príncipe , por dar-lhe mais que merecer em 

fufpir 



t&6 Rey no ât Babilónia] 3 

fufpirar a fua prefença , quando fe ouvio , pe- 
la regiaô do ar, huma fuave harmonia, que 
entoara efta 



DECIMA, 

O Ufpiro , que ai aire vano 
Subes en ardiente llamma, 
Si nafees voz de quien ama," 
El morir incêndio es Uano : 
De lograr tu ardor ufano 
El aire, batiendo luego 
Sus mifmas alas ai ruego, 
Buela encendido calor , 
Que fuelen alas de amor 
Anadir mas fuego ai fuego. 



Na officina do peito ficou Angélica lavrando 
nos fufpiros fettas , que combatiaõ o Ceo , 
para que chegando ao Príncipe o ruido , fe 
pagaíle do exercício , com que ella deixava 
mais defiras as fuás finezas, que quiz fufpen- 
der com aífombros , quem fe aflbmbrou do fo- 
go dos fufpiros , e quiz com innundaçoens de 
agoa , que no rio do efquecimento naufragafie 
a memoria, e fe foíle a pique a vontade, mor- 
rendo a mãos da compaixão o que tinha naf- 
cido a impulfos do amor. Soaraõ as vozes de 
hum internecidô pranto, que a foluços fe 

quei- 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 1 67 

queixava das contrariadades do fado, ç foy em 
Angélica mais poderofa a piedade, que o te- 
mor , chegando a inquirir a cauza de ta6 bem 
chorada pena , e vio , que era huma dama , 
que trazia na mão hum eipelho quebrado. Eraff^jJ£ 
ella taô formofa , que pudera crer-fe , que o mana hs 
Sol fizera aquelle eftrago , envejofo de que fe-.' r w 

** • rr n t «t da aitna> 

nao vifTe nos feus rayos a belleza, que no 
efpelho fe via. Vinha a dama veftida com hu- 
mas roupas encarnadas, cortadas da purpura 
das rozas , e podiaõ prefumir as rozas de que 
ella fe adornaííe com a fua purpura. Eraõ de 
ouro as guarniçoens , a que dava efmaltes a 
belleza. Os cabellos fe encrefpavaõ ufanos de 
poderem nelles contar-fe os rayos de ApoIIo. 
Os oihos nao eraô Eftrellas , porque as Eílrel- 
Jas fe corriaó de lhe excederem feus olhos. Ser- , 
viaõ dous rubins nos feus lábios de thezourei- 
ros das pérolas , de que avarentos cerravaô a 
porta a taõ preciofa mina. Era finalmente 
prizaó dos alvedrios , e emprego das vifías. 
Compadecida Angélica de ver que fe queixava 
da forte, quem devia á forte tantos extrerfios 
de belleza, lhe diíTe: 

ConfefTo , Senhora , que ou vós defeo- 
nheceis o que fois , ou mentis no que chorais ; 
que naô pode haver tanta cegueira na fortuna f 
que negue em vòs o merecimento , por acre- 
ditar a inconftancia na^fiia variável roda, e fe 
me fiares a cauza de tanto defperdiçado aljô- 
far, em mim quando nao acheis remédio ,fem- 

pre achara confolaçaó o yoíTo pranto. Enxu* 

gando 



Í68 Reyno de Babilónia i \ 

gatido as lagrymas, e defembuçando os luzei- 
ros , lhe refpondeu ella : Se vòs me quebrais 
os brios, como podeis adormecer-me a dor, 
fe fois a que lhe dais a matéria ; mas porque 
fiquem manifeftas as razoens do meu queixume, 
quero repetir o aggravo , a que íó pode fer 
cura a fatisfaçaõ. Eu, Senhora, nafei em taó 
infaufta era, que empenhadas a meu favor to- 
das as graças , contra todas dezembainhou a 
efpada a minha inimiga eftrella , deftinando no 
breve da minha duração o fenfivel deftroço 
de tantas prefumpçoens , como me deu em dote 
o applaufo de Babilónia , chamando-me por 
antenomafia a formofura da Corte, a enveja 
de Vénus, a fétta de Cupido, o defdem de 
Diana , e a lavareda de Vulcano. Naô havia 
coração , que naô foíTe facrifiçio meu. Por mim 
fe dezembainhavaô as armas de Marte , fe na- 
vega vaõ os prateados campos de Neptuno , fe 
encendiaô com o ar dos fufpiros os palácios 
de Mercúrio, earraftravaó cadeas os alvedrios. 
Eftes eraõ os triunfos de que fe adornava o 
templo do meu refpeito; eftas as vi&imas, 
que me oíFereciaó os que nas minhas aras fe 
facrificavaõ , mas trocou-fe a forte de íorte, 
que faõ hoje voílas as vitorias , e fó meus os 
defalentos. Vòs fois a que levais as palmas, 
de que a mim me naô ficaõ nem as cinzas, 
que a voíTa belleza atea nos peitos chammas, 
e jà de mim naó voaõ nem as faifeas. Vede, 
que defprezais em vòs o que roubais em mim, 
epizais os attributos com que vos fefteja a 

Corte , 



I Ganhado pelas armas do Empyreo. 169 

* 

Corte, naõ como quem os. naõ quer, fim co- 
mo quem os naõ logra , fc ainda para velos 
vos falta em que retratalos , transformando o 
defengano por arte «aquella luz , que no efpe- 
lho havia agradar-vos por femelhança ; e como 
injuria minha yps defdenhais do mefmo de que 
devíeis prezar- vos , que naó ha para huma for- 
mofura mais crefeidodote, que oftentalla para 
os cultos , e naó efcondella para os rendimen- 
tos. Eftas façanhas do recato, que vos tem in- 
troduzido os voflbs aliados, faõ huns abrolhos, 
ique ainda reverdecem na grolfaria da terra, 
que vos deu o primeiro fer , e vos naó deixa 
elevar o penfamento enlodado no pó , que vos 
aíTombra , e tudo pára em quebrar-me os olhos 
nos defpedaçados chryftaes, em que fe retrata- 
va a minha monarquia, que oftendida deftas 
femrazoens , vem a queixar^ fe, para que a 
voíTa emenda atè aquella ferida, que executou 
o voíTò temor , ficando nós ambas de bom par- 
tido; eu reftituidas as vjtorias , que vós fazeis 
perder-me , e vòs ganhando os tributos , de 
que vos vereis coroada, premitindo-vos fer- 
vida. 

Indeciza ficou Angélica na reftituiçaõ, 
que devia dar a taõ importante roubo, como 
o de que fe via arguida, quando a publicava 
cauza das fuás magoas, ao mefmo tempo, que 
lhe renovava na memoria das paliadas eftima- 
çoens os perdidos cabedaes , em que fe vii ao 
utilizadas as fuás vaidades. Emmudeceo para a 
refpoíta, detido o difeurfo nas fombras do 

Y amor 



A inter- 



ina u Reyno de Babilónia \ 

amqr próprio. Conhecida a tibieza do animo 
pelo Príncipe, que, ainda que occulto aos o- 
lhos , fempre fe achava prefente aos fuccefios, 
tomando por fua conta •apreíTar os refguar- 
dos, que eraô defenfa dos perigos, mandoa 
com particular poder acudir *o deímayo da- 
quelles enfraquecidos alentos, hum venerável 
"cefoíA ancião , que na fua Corte valia por peílba de 
Santo A- grande dignidade, e em quem o Príncipe co- 
goflinko nhecia taó^fieis prerogativas , que naõ fó hou- 
vale nos ye occaz j a õ em q Ue nomeou pelo titulo da 

feusdôvo. grande , mas lhe deu o mayor elogio, que ca- 
*<"- be no fer de vaílalo, dizendo era hum ho- 
mem, medida do coração de hum Deos, e 
taó zelofo da real Coroa , que a peito dcfcuber- 
to algumas vezes a deffendera de grande nu- 
mero de inimigos, conquiftando Reynos ganhara 
para o Príncipe tantos vaíTalos, quantos fó poude 
contar a fama , enchendo das valentias do Fèií 
braço os orbes atè chegarem ao Reyno do Em- 
pyreo tantas façanhas. Nefte, muitas vezes, 
grande homem , depofitoii a magefíade taô en- 
cendidos efpiritos , que lhe fiava o feu Sobe- 
rano as mayores emprezas âo feu ferviço , de^- 
zempenhadas com aquelle valor Africano , que 
durará immortal á pofteridade fem o fepultà^ 
rem as ruinas do tempo. Entrou effe Heróe 
da caza reaí, como prezado Embayxador do 
Príncipe, com autoridade da peíFoa, e magil- 
terio da fabedoria . e olhando çom feveridade 
para Angélica T the di de: O pouco cuidado ,que 
tendes tido de fortifica* as deffenfas deite Caf- 

tella y 



Ganhado pelas armas 4o Empyreõ. 171 

tello, npplicando-lhe as guarniçoens,q o fuílentem 
em nome de lua Alteza, o poz norifco de que, 
combatida a fua muralha , défle com toda a 
eminência em terra , ganhado o pofto pelos 
inimigos da Coroa, e para qtie nefle ailalto 
naó fiqueis prizíoneira , me manda fua Alteza 
reformar as guardas , antes que vos vençaõ os 
tiros, que naõ ferieis vós a primeira , que por 
falta das cautellas fe deixaíle cahir nos ardiz 
da guerra. A que vos apprefenta efta Senho- 
ra , por parte da voíTa formofura , fe hoje he 
efpada , que dezembainha a vangloria , á ma- 
nhãa o pode fer da dor , cortando pelo débil 
fio da vida , de que eftà na mão do Êrincipe o 
efcudo , e fó elle pode fuftentar que naõ caya • 
reduzida ao nada efla eftatua , que fe levanta fi- 
wulacro das attençoens de Babilónia ; e fenaô 
dizei-me : Que lhe valeu a huma Helena , que 
ardefle pela luz dos feus olhos toda Troya em 
chammas, fe delias naõ renafceu merecimento , 
o que pela traição fe abrazou deli&o. Que lu- \Eruii- 
crou a formofura de Dalida em render o mais f jfjJ u / s 
valente dos alvedrios > fenaô de accumular ef- valdoáL 
tragos á fua infedilidade para deftroço de tan- 
tas vidas , quantas acabarão nas mãos das for-. 
ças. De que lhe valeu áquelle , que chorava 
haver palmo de terra, que naõ fogeitaílè o 
feu braço , fenaô de ver deftruido todo o feu 
império em tantos dominios, quantos teve por 
cfcravos o feu poder. Accazo durou a pompa 
ao que irado contra o Elemento da agoa re* 
duzio os rios a breve* regatos , para que mais 

Y ii a feu 






%) \t Reyno de Babilónia 3 

a /cu falvo os pizaílem os brutos, que ferviao 
de alimentar a íua foberba. Que permanência 
tiveraô os deleites, que pareciaô eternos aos 
idolatras das fuás íuavidades, e foraó momen- 
tâneas as fuás experiências. Que vitoria fez durá- 
vel a vaidade, que logo a naõ abateíle o de- 
fengano, Diga-o aquelle íòberbo bárbaro , que 
fe mandava apellidar açoute dos nafcidos, e 
vomitou o fangue com a vida aos primeiros 
enfayos das fuás vodas. Que deve a belleza 
ao amor de quem a celebra, que naó feja.hu- 
ma mentira da vontade, que começa lizonja, 
dura defvio , e acaba aggravo, fendo hoje def- 
prezo do.gofto o que hontem foi difvelo do 
• cuidado. A primeira vifta he elevaçam dos fenr 
tidos , e logo morre faftio dos dezejos. Que 
poíTe houve no amor que o dia de tomala naõ 
abriíTe a porta para aborrecela : logo fe a for- 
mofura em lhe correndo a cortina, que a re- 
buça , he horror que aflufta , he guerra , que 
mata , he defengano , que defprefuade ; fe as 
forças fam crueldades que arruinam , Iam lava- 
redas. que tudo transformaõ em nadas; fe o 
amor ne fumo , que no ar fe confome, he pe- 
na , que com o vento voa, he paixam, que fó no 
engano predomina ; que perdeis em pizar o 
em que vos arrifcais , fe em pizar o pò, de que fó 
fica a memoria no efcandalo , e a dor no arrepen- 
dimento, vos poupais a muitos males , que du- 
rão pezar, e permanecem captiveiro. No amor 
do Príncipe fegurais huma coroa, de que he 
Ãàdora a conftancia j e ganhais fttim Reyno, a 

que 



Ganhada peias armas do Empyreo. j 73 

que naó pode contraftar a oppoíiçam de nenhum 
exercito. Voltai as cofias ao ameaço , porque 
naõ feja mortal o golpe, e vivei para Rainha, 
para naô morreres efcrava ; e vos , Senhora 
fbrmoía , que animais prefumpçoens de vidro fo- 
bre alicerces de pò , fabei , que Angélica naf- 
ceo para cuidar o qu^ hade fer , pizando o 
que vos lhe prefuadis que he , e quem a ador- 
nou das prefeiçoens, a quer tam defcuidada 
delias, que fó efquecelas fcja o feu cuidado. Ef« 
fe efpelho , que chorais quebrado pelo defenga- 
no , foi luz , que lhe fez mais patentes os na- 
das para fugirlhe, eas armas para vencer-vos. 
Ao refplendor das verdades fugirão as 
fombras, c ficou pálido horror da morte o 
que era apparencia da formofura, que defappare- 
ceu ao mefmo tempo que o venerável Áíiciam 
fe defpedio , deixando confuía , a que nô en- 
gano achou allucinada , e fortalecida para o 
mais que fuccedeo 3 como hiremos vendo^ 



1 



CA. 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 175- 

CAPITULO XII- 

t 

Dar cojlas ao perigo âjfegnra o acerto. 



A iltuftrar da fineza os extremos 
Do campo os focegos pertende a fufpiros £ 
Que nas praças encontra o cuidado 
Altares j que culto lhe dam fementido» 



AFormofura dos campos he o mappa , em 
que melhor fe divíza a pureza dos aftec* 
tos. Ali acha a fineza realce aos feus extremos, 
moftrando na folidam que bufca , que no ob- 
jeílo que ama , acha fó fatisfaçoens ogofio , def- 
viados os fentidos das diftracçoens do cuidado, a* 
prendendo a arte de melhor amar ou no verde 
das folhas, que alentaô as efperanças, eu no 
fazonado dos frutos , empenhando os alvoroços 
para as poíTes. Ate a variadade das flores 
faz facrificar ao amor os penfamentos na fig- 
nificaçaó das fuás circunítancras, competindo 
a pureza da fé com a nevada candidez das Af- 
fucenas , que coroadas de fino ouro , retratai* 
©s fubidos quilates de huma foberaEa adoraçam. 
As Rozas íè abrazaé incêndio do prado , como 
no peito amante fe evitam do amor as chammas. 
Os Cravos, que fam fortaleza aos combates do 
tempo, também nos aíTaltos de Babilónia et- 
taô dando liçoens de KÍiítençia nas contraria- 

dades 



176 Rey no de Babilónia 9 

dades dos fentidos. Ali fe encontra oppofta à 
inconftancia da vontade a firmeza, com que o Gy- 
rafol prefevera , no que contempla ; no melin- 
dre, dos Jaímins o perigo das mudanças; na 
Violeta a humildade , com que delpreza a van- 
gloria ; e na Mofqueta a ifençaó , com que fe 
defende. O canto das aves parece queixume , 
e he louvor ; o rizo das fontes fe vê zombaria 
da dureza das pedras , fe nem lavradas pelas 
correntes das agoas mudam a natureza de ficar 
fempre para pedras. Correm os rios a fortale- 
cer as plantas , como as lagrymas em quem a- 
mn a purificar as ingratidoens. Em tudo acha o 
amor incentivos para creícer , e advertências 
para mais fe captivar. Aflim o conhecia Angé- 
lica , enfaftiada das diverfas condiçoens daquel- 
la Corte, adonde a lida do animo era guerra, 
que desfalecia; a infedilidadedos moradores de- 
fengano do fofrimento. Ali batalha com a juf- 
tiça o intereíTe, e fempre elle leva as palmas, 
porque da a femrazam as fentenças. A mentira 
domina nas verdades, que defpreza; os fufpi- 
ros dos pobres fam quem dà calor às magoas, 
ea opulência dos foberbos quem aílbpra o pò , 
para que fó deíle cabedal fe enchaó os olhos 
dos neceífitados. Ali a^tyrania he cruel parca das 
vidas, as femrazoens coftume da grandeza, e tu- 
do laítima na perda das almas , e defafocego 
de quem lhe chora os precipícios. 

Dezejava aja advertida Aldeaã mudar de 
applicaçaô os feus cuidados , conhecida a inútil 
fadiga, em que tinha paíTado tantos annos, 

fem 



• ' 'V " j 

Ganhado pelas armas do Empyreo. i yy 

feni mais ganhos, que ver confumido o tem- 
po , e fem lucro, nos importantes talentos , de 
que â dotara a natureza , determinou lecupera- 
los, deixando os intrincados labyrinthos, em 
que fempre achaó redes os pensamentos pela 
agradável eftancia dos campos, adonde fe en- 
contrão tantos defpertadores para os fentidos. 
Sabia ella , que ainda do mais dezerto páramo 
podia divizar o palácio do Príncipe , e efque- 
cida dos divertimentos dezejava aprefeiçoar os 
affe&os, e habitadora dos campos Elyfíos a- 
deítrar-fe no defprezo dos Babilónios , adon- 
de fe enlaçaó os que naô bufeaõ o fio de ouro 
da coníideraçaõ para vencer o efeuro enredo 
daquellas moradas. Neíles difeurfos fe enterti- 
nha determinada a pedir ao Principe a levaíle 
para donde fó de amalo vive/Te , quando ouvio 
Jium grande reboliço no terreiro. Chegou aosvicto 
ver o que era , efquecida do que propunha ,fmpreo- 
que fempre a curiozidade arruina, quando te^f^fj 
deixa vencer delia odezejo. Vio, entre grande ^«™" 
concurfo de gente , huma forrnofa Dama , que 
moílrava ter dado nos léus adornos muito tem* 
po ás vaidades. Era o veftido de rico , cor de 
fogo , lavrado em memorias de diverfas cores > 
c entre ellas efta letra ; 

De obfer valas me alimento; 

Aos lados vinhaô dous galhardos mancebos, to- Osaffec- 
àos plumas, porque todos ar. Hum veftía àe t6jJa 
a»l, lavrado em penas de prata, no broco vontaàs ' 

Z hum 



lyS Reyno de Babilónia , 

hum efcudete, que dizia : 

Tudo heAr. 

O outro veftia de branco fem guarniçam, nem 
miítura. No efcudete efta letra; 

Em branco fico. 

Eftes dous braceiros ao fom de hum clarim , 
que a efpaíTos tocava 3 diziaó a vozes eftas 
endecafyllabas - 

ENDEXAS. 

T 

■* Lluftres Babilónios , 
Attended ai pregon , ^ 
Que en fuave armonia 
En claros concetos , y claufulas dulceS 

Intima mi voz 
Venid ai pregou. 

Oy dei alto palácio 
Un decreto baxó , 
Que convidando ai hombre 
Le llama, a que mire los triunfos de amor. 

La voluntad es quien, 
Para maior 4>lazon , 
A feftivos aplaufos 

yiene Uamando ai hombre*, ai Ave, y flor. 

Ven- 



Ganhado pelas armas ão Empyreo. i?<> 

Vengan las hermofuras 
Admirar el ardor, 
Qjje enciende las faetas, 
Quando de fus ojos amor fe valió ? 

No fe niegue ai feftin 
Humano coraçon , 
Que huir ai regozijo 
Es de civil acuerdo indicio maior* 

A premiar las finezas 
Labrado con primor 
La voluntad prepara 
Al oro dei gufto el puro cryfoL 

* Nó los cobardes paíTos, 
Sufpenfos dei temor, 
Hagan defden dei gufto, 
Que es afrienta dei noble la omifíon.* 

Goti indiferentes impulfos entrou a batalhar o 
coração de Angélica , que como pouco exerci- 
tada em domar paixoens , naó fabia applicar- 
3he as defenfas , ainda dezejando armar-fe delias, 
Propunha-lhe o gofto, que examinafle o fim 
daquella aventura , porque fatisfazer huma cu- 
Tiozidade naó era offença da fé, quando dava 
tanto calor ao dezejo o publico pregam 9 
que o incitava, e que a fer contra a foberania 
da mageftade do Principe naó confentiria elle 
o íeu aggravo fern deftru ir Babilónia \ masnaô 

Z ii ad- 



i8o Reym de Babilónia \ 

- 

advertia, que premitir, naó he o mefmo que 
querer; e muitas vezes para provar os quila- 
tes do valor na peleja , fenaô cortaô logo as 
forças ao inimigo, para fer mayor o applaufo 
na vitoria do confliíto. Naó refolvia a curiofa 
Aldeaã divertir-fe, fatisfazendo a vontade, por- 
que naó cobrafTe ella mais brios dando-lhe no^ 
vas coroas; mas fabricava difcurfos, com que 
fem faltar a hum , lografle dous empenhos. O 
mais forte fempre vence; a efte fe rendeu o 
coração pelo poder das luzes. Chamou o Em- 
baixador do Príncipe, que para acudir-lhe nun- 
ca eftava longe, edifle-lhe: 

Quero , Senhor , informar-vos do meu 
perigo, porque deis contra elle esforço aos 
meus extremos , que deixem inúteis as prepa- 
raçoens dos meus contrários. Bem fabeis, que 
as minhas forças trazem a debilidade defde os 
meus princípios, e que naó ha cautela, que 
fegure , adonde a fraqueza foy herança. A von- 
tade com impérios vay adiantando o feu par- 
tido , e he fiar muito de mim deixar-me no 
campo defarmada. O Príncipe he amante, e 
poderofo , e fabe , que para efcapar do encan- 
to das Sereas muitas vezes naó bafta a recor- 
dação do naufrágio. Eu quero amar , mas te- 
mo enfraquecer , que tem a vontade muito vi- 
gorofa artelharia , e alfentada entre as fortifi- 
csçoens da Corte, mais a feu falvo faz as fuás 
enveftidas. A palavra de hum fim fó a diffi- 
ne huma fyllaba, epode dar-lhe confentimento 

o dezejo fem advertência do coração. Se o 

Prin- 



Ganhado p elas armas do Ewpyreo. 1 8 1 

Príncipe naô applica o que pode, naó fie de 
mim o que devo. 

Com filencio, de quem ponderava, efcu- 
tou o Embaixador que ouvia, e refpondeu: 
Se vòs quereis ver , em que páraó as venturas, 
para que aquella voífa inimiga vos alvoroça, 
depreíTa fera o voílb defengano alento do vof- 
fo furto, que os defacordos do Paiz , ainda 
que pareçaõ lizonja, muitas vezes faô avizo , 
e acabareis de crer , que as traiçoens contra a 
coroa do meu Monarca neíla officina do enga- 
no fe fabricaõ. Applicai a vifta a efte myfte- 
riofo mappa , e vereis o que paíTa em Babiló- 
nia. Tirou hum chryítalino globo , e lhe man- 
dou lhe firmafle os olhos , e difleíTe o que por 
elle via. Examinou ella o vidro, e vio, que 
tranfmutado o fitio em huma populofa Cida-OwíW* 
de, era o trafego delia confuzaõ de todos, écemapa* 
utilidade de nenhum. Dava a todos leysa \on* f£Kcias 
tade com injuria do entendimento, que prezo '*****' 
nos grilhoens do gofto era delle tratado como 
efcravo. Em meyo de huma dilatada praça fe 
levantava hum lumptuofo palácio de artificio taó 
primorofo, que pareciaô as pedras efpelhos, 
em que o Sol fe via para toucar-fe de rayos, 
que em competência com as bellezas, que oo 
cupavaô as janelas , eftavaõ em renhida campa- 
nha fobre qual levava a primazia ; fe ellas na 
formofura , fe elle nas luzes. No mais eminen- 
te lugar eftava a Dama , que lançou o pre- 
gão , para o culto da fua foberania com os 
doas braceiros a feu lado, PaíTeavaÕ a praça 

muitos 



i2% Key no de Babilónia} 

muitos Adónis, que ardendo no fogo da fua 
fineza faziaó facrificio de empregar todo o 
cuidado , e ao ar dos fufpiros fe defvaneciaô 
os penfamcntos. Adornavao o Caftello multi- 
plicadas guaritas , que fendo muito para appa^ 
rencia , erao nada para a realidade. Alli efta- 
vaõ as fedas dando mate ao matiz das esferas, 
e na fua variedade fe retratavaó do tempo as 
inconítancias. Viaõ-fe na praça feftivos torne- 
yos, e nas fuás voltas enfayava a fortuna as 
mudanças da fua roda. Havia muficas , adonde 
as confonancias davaó , que envejar á melodia 
das Aves , excedendo a arte ao natural da fci- 
encia. Em outra parte eftava o acorde dos inf- 
tromentos fendo prizaô dos fentidos , fazendo 
gloria de efcutalos aquella apprehençaõ, quede 
tudo o nuis fe defcuidava. Para os das juftas 
havia prémios, .depofitados em huma menza de 
finiffimos mármores , e de merecelos havia de 
fer juiz a triunfante Dama., que quando a von- 
tade avalia, atropelada vay a razaó. 

Nao faltava , na mal governada Corte , o 
divertimento de reprefentadas fabulas , que 
equivocando a mentira com a verdade, alcança- 
va créditos de verdade a mefma apparencia da 
mentira. Todos pareciaõ andar alegres com o 
que lhe cabia de ventura , ainda que o dezejo 
de mais ventura excedia o que lhe cabia ; que 
a ambição fe tinha em que cevar-fe, nao che- 
gava a fatisfazer-fe. As gallas pareciaõ em 
huns cortadas dos rayos do Sol no luzido do 
ouro, guarnecidas do metal das eftrellas no bru-, 

nido 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 1 83 

nido da prata ; porem em outros era a defnu- 
dez, quem affrontava o fuperfluo , por naó acu- 
dir ao precizo do neceffitado. Na marinha fe 
admiravaó Delfins de madeira , em que os re- 
meiros aprendiaõ do vento a ligeireza para cor- 
tar as ondas , e das Aves as plumas para nos 
galhardetes toucar os ares. Tudo era delicia 
aos olhos, tudo ao goílo recreação, e taõ ele- 
vada eftava Angélica no que via, que de tudo 
o que naó era ver fe defcuidava. Perguntou- 
lhe o Embaixador : Que vos parecem, Senhora, 
as glorias de Babilónia. Deixai-me ( refpon- 
deu ella ) faciar a fede de ver , fem que me tur- 
be a ver de vos fallar , que fenaó pode per- 
der-fe fem dor hum átomo de vida , como 
quereis, que para efcutar-vos defperdice eu nem 
Jiuma refpiraçaõ de gloria. Depreda ( diíTe 
elle) haveis de largar por horror, o que a- 
gora efíimais por defconhecimento. 

Logo os que foàraô feftivos clarins, fe 
trocarão emtriftes fordinas. Tocou a rebate a 
fúria de Marte; a huma parte fe ouvia guerra, 
guerra, em otitra cortava a parca os debilita- 
dos fios das vidas , a que fe feguiaó lamentá- 
veis eftragos da morte. No palácio fe atearão 
as lavaredas , moftrando no irremediável das 
chammas o defengano das cinzas. Na mari- 
nha era eftrago das ondas o que nadara gaIJa 
das agoas; o vento derrubando as Torres, 
preparava no defpedir das pedras as fepulturas. 
Jà os torneyos eraó brigas , e o tinir das efpa- 
das enfayo para as feridas , e fe cuvia, entre o 

laby- 



184 Rey no de Babilónia, 

labyrintho efte queixume do eftrago : 

G lori * s Acudam-me , que a morte vay abrindo 
km/faõ As portas, porque a vida vay fahindo. 

cinzas da 

vida. j) palácio diziaô: 

Agoa, porque nas chammas vay ardendo 
O peito, que eftà o fogo padecendo. 

No mar gritavaõ ostriftes naufragantes: 

Ay, que as ondas me levaó ao profundo 
Da morte, donde a vida vay dar fundo. 

Huns diziaô : Qtie me affogo : Outros gritavaõ : 

Que me abrazo. Serrado o ar de pallidas nu« 

yens , a que fubidas do mar as ondas parecia 

cfgotar as fuás agoas para cahirem chuveiros. 

As gallas, que brilhavaõ luftres do poder, fe 

viam teftemunhas da ira , ^ que os golpes das 

efpadas tinhaó no fangue mudado as cores» 

Nas Damas o encendido das rozas era pallido 

defmayo do fufto : tudo- confuzaõ o fuceífo, 

fem haver fagrado, que o folfe ao defafocego , 

quando entre a tribulação moftrou a terra em 

hum grande terremoto, que atè ella do que 

paíTava fe eftremecia , e defapparecendo toda 

aquella apparencia, fe ouvio huma voz, que 

dizia: 



En 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 1 3j 



E 



N la confuzion trifte 
Defta deíecha esfera , 
Defpierte el defengano, que dormia, 
A las vozes dei llanto , que te enfena. 

En eíle llanto amargo 
Veras la diferencia , 
Que entre lo verdadero ] y fabulofo 
Empiefa vanidad , y acaba pena. 

' Las eminentes Torres 

Proftradas mira en tierra; 

Porque el poder en polvo las dehaíe , 

Quando el engaíio en hum© las fuílenta. 

Bffas luzes hermofas , 

Que eran de amor faetas , 

Son miedos, fon horrores, fon defmayos 

Del dolor, de la muerte, y de la quexa» 

Efcucha el efcarmiento , 
Que aqui en trifte cadencia 
Te acuerda , que dei fuefío no te íles, 
Que las dichas fonadas fon quimeras. 

Largou Angélica o vidro confufa , emmudeceo 
íiffbmbrada , e o que tinha ideado o dvorcço, 
parou lufto. TornaraÓ-fe pallidas as Rofas* 
vendo a prefla , com que mudarão de fer as 
altivezas. DiíTe-lhe o Embaixador; Aqui vedes, 

Aa Se* 



iSó Reyno de Babilónia ; 

Senhora, em que pára o que em Babilónia 
mais recrêya , e fe as eminentes Torres , que, le- 
vanta a vaidade, defapparecem fumo, porque fe 
edificam em pó , fendo eftes os materiaes , com 
que os cegos Babilónios levantaô as fuás emi- 
nências, de que podem gloriar-fe os feus ama- 
dores , fe atè o que parece perpetuo he a mais 
certa teftemunha das ruinas ; e como pode , na 
débil natureza das flores, haver hora t i^ que 
confie, fenaô deve haver inftante, qu^ na<V af r 
fufte. A pedra Efpeculares era taó, rija , que 
merecia o nome de pedra , ainda fendo aos o? 
lhos taõ tranfparente , como o ar mais claro , e 
diáfano. Com efta apparencia , que podia crpr 
a vaidade era formada na esfera celefte , man* 
dou Neron , que delia ie lavraífe hum templo 
á Fortuna , para que obrigada a mentida Dei- 
dade da pureza do voto, fícaíle, pela reveren- 
cia, fempre a feu favor firme a roda. Apurada 
na obra a prefeiçaó dos artífices, e a liberali- 
dade do autor , fe fatisfazia a efperança de ter 
tanto da fua mão a própria felicidade. Concor- 
ria a' admiração dos que viaô pelas tranfparen- 
tes paredes o adorno das magnificas falias t 
dando a efte Templo, mais que ao de Diana, 
o titulo de huma das maravilhas do mundo; 
mas diverfo do penfamento foy o fucceíTo , que 
o edifício cahio defperdicio da mortalidade, as 
pedras naô fó foraó fepultura da grandeza y 
mas delias a noticia do mineral, fení haver pa- 
ra a lembrança , nem huma pequena reliquia , 

porque extinefca-a matéria 3 e o fetf primeiro 

nafei- 



Ganhado pelas armas do Empyreo¥ 1 87 

fiafcimento, apenas fe conferva a memoria pa- 
ra a dor da perda no impoffivel de recuperada. 
Naõ padeça a voíTa refoluçaõ o mefmo eftra- 
go , ainda que os encantos, que vos fuavizaó , 
queiram fer rémora da voíTa viagem , que o 
SoF deflerra as fombras , e quem as piza , en- 
v "ece das fuás luzes. 

Defpedido o Embaixador , e cobrada ella Q pe „^ 
j$$ paliado íbbrefalto , mandou , pelo mais ligeiro m< n iobe 
dos ftus Secretários, de quem fiava os mais in-My- 
timos fegredos do feu coração , e coftumava fer '/^ml* 
defafogo nas afflicçoens do animo , que diíTelfe 
ao Príncipe o mal , que na fua auíencia palia- 
da. Pedilhe (lhe dilfe ) fe. digne de ver-mej 
porque 

De amor meu peito ferido 
Em nenhum lugar defcança ; 
- Que quem he minha efperança 
i Lhedé a polTe de remido. 



de 
e 



Foy o portador , que caminhava com azas 
ar, ainda que partia com paíTòs de fogo, ^ 
naô tardou o Príncipe, attrahido das activida- 
des de tanto incêndio , em fe fazer prefente , e 
amante; e como fe lhe naõ encobriaô de amor 
os extremos , vinha informado de que os def- 
troçados bens de Babilónia tinhaõ cançado a 
Angélica das lidas das fuás praças, e fufpirava, 
no retiro dos campos, apurar a fineza dos feus 
cuidado?, entregue fó á contemplação de amar 

Aaii fera 



<s% 



i88 Reyno de Babilónia , *§ 

fem as pertubadas leys , com que os Babilónios 
coftumaó divertir; que quando amor toma do 
coração inteira pofle, tudo o que naó he o 
mefmo amor, fe defeftima. Entrou o Príncipe, 
jà deporta a purpura Regia , e trocada no 
groflb fayal da Aldeaá as infignes roupas ; 
que fe ufaó na fua Corte, adonde o fuavr ; 
dos ares naô neceílita de deffenfa, porque '1- 
vento naõoftende, porque recreya como Aura, 
o inverno naô afflige, porque alli fempre he 
Primavera, fem o rigor do Eftio, nem a efte- 
rilidade do Outono, tudo fatisfaçao do goílo, 
fem dilaçoens da efperança , e defte paraiío 
baixou o Príncipe por fineza, adonde Angélica 
o efperava dezejofa de habitar na fua compa- 
nhia. Vinha elle veftido de huma graciofa pe- 
lica de innocente cordeiro, falpicada de amo- 
res perfeitos, que fó o perfeito do feu amor 
foube inventar efte caprichofo veftido, e lar- 
gar a coroa de ouro pela das rofas , que coma 
eftava o peito de amor picado , delle aprendeu 
a flor incêndios, e lhe deu os efpinhos para 
coroar os extremos. Trazia os pès defcalços , 
que quem ama , pizando neves as accende em 
brazas. Angélica, que, preza pelos grilhoens 
da fua memoria , aborrecia as liberdades da 
Corte, e fó fufprrava o folitario dos campos 
para dar defafogo aos feus affeflros , eftava taõ 
abftrahida nefte amorofo penlamento, que naô 
repararão os olhos nos alvoroços do coração, 
que ardia fem faber que as prefenças lhe inf- 
piravaô as chammas. Diffe, fem ver, queellea 
ouvia , eítas EN- 



Ganhado pelas arwfff do Etnpyréò. i S9 



p 



E r N DEXAS, 

Veni,di. 
ledte mi, 
egrtdia- 
ITiur tu 

Latas olorozas , agrum, 

Honor de los valles, SSSSn 

Que adornais los campos | vinis. 
Perfumais los aircs. 

Vos , que graciofas 
En Aura fuave 
Competis las flores^» 
Suítentais las Aves : 

El prefe&o amor 
De mi fé confiante 
Firmeza os enfena , 
Porque fois mudables, 

Y pues fois dei prado 
Eftrellas fragrantes , 
Al foi, que os alumbra 5 
Dezid de mi parte : 

Que de mis fufpiros 
Efcuche verdades , 
Que fubiendo llamas^ 
Cenizas nó baxen: 



De- 



190 Reyno de Babilónia y 

Dezidle , que muero 
De mis foledades ; 
Si quiere, que viva, 
Que buelva a mirar-me. 

Que fe de fus ojos 
Luzes me faltaren , 
Temo que la vida 
Al dolor defmaye: 

QjLie a Ia Aldeã vamos 
Para folo amarle, 
Y hagan mis finezas 
Mas gloriof^ alarde- 

Permítio o Príncipe dehcar-fe ver , e ella co«* 
nhecendo nelle , que eftava a favor da fua per- 
tençaó , fem efperar as dilaçoens do refpeito, 
porque he mais confiada a fineza do amor , 
chegou a elle alvoroçada , e fazendo-lhe do 
coração novo facriíicio, lhe diíle: 

O 1 quietes , mi nmado , 
■Que a la Aldeã ramos, 
En buena hora amanefca en el valle 
Del valie el encanto* 

Del campo lo florida 

Tus luzes admirando 

Para alfombra a tus plantas offrefca 

Horecientes mayos. 

La 



Ganhado pelas armas do Empyrio. 191 

La voz de las Aves 
Los aires volando 
En acordes trinados faludea 
Las dichas dei campo. 

Que amable eftàs , m] bien ] 
Vertido a lo aldeano , 
Yel nevado pellico , que efmaltas 
El Sol vá eUbidiando. 

Si la oveja perdida 

Bufcando và el cuidado , 

En mi tienes la perdida oveja J 

Que bufea en ti el pafío. 

Vamos , Senhor ( continuou ella , ) que quan- 
do a voíla mão guia os paílbs , atè os abro- r 
lhos fam flores, que eu tendo em vós o lyrio res * nta " 
dos valles, aprenderey fortaleza para fazer rof- 
tro aos perigos, e adornado meu peito do fra- 
grante ramilhete de myrrha , darey que enve* 
jar às filhas de Siam , vendo que achey a flor 
do campo, efeolhida entre milhares. A que o 
Príncipe refpondeu : Que fuave fóa nos meus 
ouvidos a tua voz, porque o teu nome he pa- 
ra mim óleo, derramado para curar meu peito 
ferido. Neftes enternecidos extremos eftavaô 
reciprocamente empregados os dous amantes y 
que deixada a mentida grandeza de Babilónia 
foram bufcando a íingeleza dos vales, adonde 
achava tantos defpertadores a obrigação, fem 

que 



a 



lyz Reyno ãe Babilónia. 

que os arrifcados fucceflos , em que tropeçam 
as inadvertências , fejam laços , que prendam os 
voos. Chegarão a-huma campina , pobre por 
na fcimento, porque nada tinha devido à arte , ain- 
da que por foberano agricultor eftava alcatifa- 
da dos innocentes matizes, de que a bordou a na- 
tureza. Repicavaõ as campainhas nas ditas de 
Angélica , e para defpertar-Ihe o agradecimen* 
tolhe applaudiam as venturas ; ali fe viu a 
fingela papoula moftrar no abrazado da cor, 
que deve veftirfe dos incêndios, quem recebe 
os benefícios. La fe entremeteu hum Cravo , 
que fem artifício para fer grande, fe ficara na 
esfera de pequeno , e fe lia nas fuás folhas a 
feu defengano, dizendo: 

Se com hum Cravo naó para 
Do tempo a roda importuna } 
De que lhe ferve a fortuna 
De fer flor y íe a naõ repara. 



Todo o campo he myfterios , ( difíe Angélica ) 
porque em tudo fe eícutaõ vozes para o vofíb 
applaufo, Senhor, efe vem veftigios das voíTas 
maravilhas, e atè os mefmos aftros, que aqui 
alumeam , fam fombras , que vos retrataõ : di- 
tozos os que feguem os voílbs caminhos , e 
fam contados no vofíb rebanho, adonde vive 
focegado o difeurfo fem as fombras do enga- 
no , como me diz eíla formoía AcuíTena, em 
quem leyo. Do 



Canhado peias armas do Ewpyreo* 19 



De pérola a prefumpçaó 
Tive , mas fou flor emflm ; 
E me fica em branco a mim 
Da pérola a duração. 



Arrebatado o coraçam de Angélica nas fuaves 
delicias do feu amorofo emprego, que, mais 
que alyrade Orpheo , e a cythara de Am fiam, 
fabia attrahir, clamou ao centro das piedades, 
dizendo, que a cobriííem de flores, que eftava 
enferma de amores , e neíle amorofo deliquio 
a deixaremos , atè dar conta dos feguintes Ju- 
eeílbs. ** 



Bb CA- 



f 



o 



Ganhado pelas armas âo Empyriét* lç$ 

CAPITULO XIII- 

Quem fegut o Sol , vence a fombra. 

Jà das brilhantes luzes arraftrado 
Hum coração , que andava fugitivo \ 
Vay incitando os voos do dezejo 
Que atè agora nas preíTas foy remifo, 

PUrifícadas as fezes do ouro da fineza no 
cryfol da reíiítencia á própria vontade > e 
deixadas ao defprezo as vaidades, que ti- 
nhaô taó mal debuxados os empregos do góf* 
to, vivia Angélica taõ defvelada em smar, 
quanto tinha fido cuidadofa em oftènder. Voa- 
rão as cinzas > que cftavaó impreífas na memo- 
ria pelo engano da fantazia, e ficou a dura 
pedra , em que arderão , para padrão do fen- 
Cimento do que foy, e eterna efcriptura do 
que havia de fer. Os robuftos troncos, que 
fe levantavaó gigantes na humilde campina da- 
quella aldeã , eraõ arcos triunfaes , que ador- 
nava o conhecimento , para feftejar a feliz en- 
trada do feu defengano. Vivia na florida pra- 
ça daquelles bem matizados oacnpos fatisfeita a 
alma , que fe fupunha jà taô longe dos enre- 
dos da vida, efcutando nos copados boíques 
de bem lavradas efmeraldas aquelles affinados 
clarins, que voavaõ familhetes de pluma, e 

Bbii a toda 



196 Reyno de Babilónia] 

a hora davaô liçoens ao agradecimento , recor- 
dando da fua confervaçaõ o beneficio. Alli a- 
chavaõ a meza fem dependência do cuidado, 
gozavaô a liberdade fem o difconto da calum- 
nia , e empenhados de tanta divida madruga- 
vaõ para confefiala, defpertando a quem com 
a obrigação de ter mais alma para a remunera- 
ção dormia , que atè o iracional crimina , quan- 
do a ingratidão para a emenda naô defperta; e 
fe alguma hora a memoria fe põem da parte 
da divida, logo o ufo de efquecela, torna por 
qualquer outra lembrança a fepultala. Aquella 
curiofa mulher , que, violando real decreto, vol- 
tou a ver o mefmo de que a mandavaô fugir, 
ie cohverteu em eítatua de fal para efcarmen- 
to dos que, conhecida a piedade, no tolerado do 
caftigo, voltaõ os olhos ao que deixaó , "quaifc 
do ns grandes emprezas fe perdem , atè no que 
em hurn voltar de olhos fe arrifeaô. 
: Conhecida pelo Príncipe a fragilidade da 

Aldeaá, fenaõ com huma columna de f©go r 
como ao feu Africano mais valido, com os 
reflexos da fua formofura , a guiou , para que 
finda aos eccos de Babilónia fe fizeífe natural 
do Empyreo, aprendendo nos campos Elyfios 
a fer flor perpetua na conftaacia , jà que tinha 
fido flor mudável nos bem me queres dos des- 
lizes. Naô podia ella com os feus próprios 
impulfos feguir os apreflados voos , com que 
elle media diftancias , porque a poder infinita 
fe facilitaô atè os que faó impoífiveis á mais 

empenhada dei igçncia, e fem tanta ajuda de 

cuílo, 



Ganhado pelas á rmhs âo Ewpyreo. I97 

* cufto , como lhe premeria , quem nada fe lhe 
difficulta , ainda o penfamento fufpendéra ; 
porque com forças naturaes nem elle fe adi- 
antara. Deitas cobardias , herdsdas da terra , 
em que teve a fua primeira origem, atiravaõ 
as valentias do amor, que ainda naõ chegando 
a fer gigante lhe parecia a ella baftante para 
obrar façanhas; engano, fabricado na imagi- 
nação , e tantas vezes deíhuido pela experiên- 
cia , que a confiança fe he efcudo de taô fino 
aço, que deixa fruftrados os golpes nos mais 
iuriofos combates, também por indifcreta he 
muitas vezes laftimofa ruina das que pareciaõ 
vitorias. Digaõ-no alguns Soldados, que fe- 
guindo a voz do Empyreo pelejarão a fogo, 
ç fangue contra os de Babilónia , e defpois de 
demolir altas Torres, ganhar bandeiras, prof- 
tar exércitos , por huma vangloria do que ven- 
cerão, vieraõ a cahir em captiveiro infeliz. Def- 
tes perigos, de que deve temer-fe ainda o ani- 
mo mais robuíto , fe livra fó quem conhecen- 
do o pouco , que pode , fe terne do nada , que 
vale, fe para alentar-lhe o braço a naõ guia 
poderofa mão. Entre o vigorofo alento , que 
Jhe infundia o amor, que do Príncipe fe lhe 
communicava, e o temor, que lhe reprefenta- 
vaó as pafladas quedas, preíiflia Angélica, fà 
fiada no arrimo , que a fuílentava , jà def- 
mayada pelo que de íi conhecia , mas fempre 
que a memoria recordava os benefícios do de- 
fengano, queria levantar templos ao agradeci- 
mento, confufa na diílimulaçaõ , com que tinha 

fido 



T9$ Rey no de Babilónia , 

fido tolerada a fua profiofà rebeldia. Eílas 
eraó as luftrofas armas, com que triunfava dos 
aíTaltos do feu penfamento , quando lhe pro- 
punha as divertidas horas, que em oppofiçao 
ás folidoens da Aldeaã , paliava nos diverti- 
Trahe meílt os da Corte de Babilónia. A efta pálida 
te 6 euf- nuvenl ^ e oppuferaó hum dia as luzes do Sol , 
remusinevio Angélica huma cinta , que tendo huma 
odorem extremidade preza em altiflima esfera , com a 
^|^ 1 q1 outra lhe cingia hum braço, e era de taô for- 
rum. mofas y e aprafiveis cores , que parecia pedaço 
. do arco íris, quando vem pacificar as tem- 
rapafhf peftades , e alumiando o ar com clariffimo ref- 
guia p a - plendor lhe moftrava hurna eftreita , e com- 



wa a 



. P e ' prida eftrada, para donde a conduzia, e enten- 
tiitenaa. ^ gu devia feguillo , o que fez com intrépida 
refoluçaó, entrando pelo apertado do caminho, 
fem que o fufto defanimaíTe o valor, foccorri- 
do da fé, que lhe dava luz para acertar em ta6 
difficil empreza. 

Aos primeiros paflbs reparou , que , feme- 
ada a terra de duriffimos abrolhos , naõ eftava 
delles livre efpaíTo , em que fe firmaífe o pè fem 
dor. Era a afpera vereda cerrada pelos lados de 
groílos efpinheiros , adonde o rigor dos tron* 
cos parece que feria atè os olhos, que fe lhe 
applicavaó. Eftava aeftrada cortada a efpaflbs 
com afperiífimas penhas , de donde podia to- 
mar liçoens a conftancia, e de todas as pedras 
corriaõ humas lagrymas de agoa , em 
que fe defatavaô atè õs penhafeos , e naõ def* 
ckõ como rizo das fontes, fim como pranto 

das 



focinhado p elas firmas do Empyreo. 199 

das pedras ; porque atè as pedras derem cho- 
rar, quando da dureza das pedras fe vem rir as 
fontes. Elevado na fua corrente , como quem 
delia aprendia a defprender os grilhoens , que 
tinhaõ fido prizam das liberdades, eftava lavra- 
da em rrjo mármore a efiatua de hum homem Maca- 
veftido de huma afperapelle, o cabello ondeado rio * 

{>elo vento, e naópelo artificio, os olhos na 
bnte, e fó a agoa nos olhos. Defmentia-fe vi- 
vo pelo immove! , enaô o parecia pelo natural 
da femelhança de homem. Junto delle fe le- 
vantava hum pedaço da mefma rocha , em que 
eftavaõ entalhadas eftas letras : 

Lagrymas, fe fois de amor 

Naõ pareis , 
Que retrato meu fereis 

Em rigor. 

Macário em vos aprendendo 

A chorar > 
E ficou no ardor a ora* 

Ardendo 



Paflbu adiante ; porque a luz , que a guiava , 
iiao parou aqui , e o feu norte era aquelfe 
luz. Continuada a afpereza do caminho $ em 
que o duro das rochas eítava incitando as for- 
talezas ^o animo mais robufto ; entrou Angé- 
lica a ponderar com o fcu penfa*r,ento as con« 

1 ira* 



\ 



103 Reyno de Babilónia \ 

tradicçoetis da fua vontade, dizendo : Eíle rlgof 
pode refiftilo a força de quem para batalhar 
ja nafceu armado de fortaleza, como Macário , c 
o que pode huma flor gigante , como hade imi» 
talo hum jafmim cobarde. Eu quero amar^ 
mas poflb amar fem me expor a morrer. Vol- 
tar as coitas às fuavidades de Babilónia fim hc 
cuftofo, porem a minha fineza poderá pizalas, 
porem a vida de indomáveis feras naõ he para 
quem fe creou em mais racionáveis empregos. 
Nefte argumento tinha vencido grande efpafíò 
da fragoía eftancia , quando chegou a hum cer- 
rado arvoredo , adonde nem o Sol tinha entra* 
da , defendida pelo inpcnetravel das Sylveftres 
ramas, e taô enredados eftavaõ os troncos, 
que fem grande trabalho naõ podia examinar- 
fe o que encerravaõ aquellas rufticas patedes. 
A diligencia , ou o myfterio venceu facilitar- fe 
huma eftreita porta, que cuberta de fecas ca- 
nas eftava delias taõ tapada, que, fem particu- 
lar permiílam, ixaô era fácil a entrada. Atrope- 
lando fuftos , e pizando medos , entrou Angé- 
lica naquella , mais prizaó , que domicilio , e 
vio huma mulher, aquém os rigores tinhaô ta& 
trocada a figura , que podia duvidar a vifta fé 
fe enganava no que reprefentava, O veítidoera 
hum eflxeito, e groíTeiro faço , a cabeça, em 
que ainda fe divifava o ouro em fios , eftava 
meada embaraçada dos ares, o roftro era tef- 
temunha da formofura , que fora , € ja moftrava 
o defengano, que era , os adornos da^caza fe 
dfrayaô no defpido da terra por cama, o mal 

lavradq 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 201 

lavrado de huma pedra por traveíleiro , huma 
tofca Cruz por alfaya de preço, e huma ca- 
veira por efpelho. Eftava taó vivamente la- 
vrada efta myfteriofa imagem , que , enganada 
com a femelhança, chegqu Angélica a per- 
guntar-lhe quem era, e defprefuadida do que 
imaginara, vio na mefma pedra efcriptas eílas 
letras; 



E 



'-*«?. 



Sta , que vedes correr ; 
Jà de Antioquia foy mimo* 
Hoje fó tem por arrimo 
Do que foy o feu temor: 
Honte as pérolas pizou y 
Das efmeraldas fazendo 
Alcatifa, porém vendo 
De mortal a duração , 
Para mais alto brazaó 
Viveo Pelagia morrendo» 



Certa de que fó para muda liçaô aos feus me- 
lindres fe lhe moftravaõ de Pelagia as peniten- 
cias, deixou a eftancia, mas naõ a idea , di- 
zendo: Sim foy afpera ávida defta mulher, a 
que o extremado da belleza , o defperdicio das 
riquezas , que pizava , as Angulares gallas , 
com que encantava a quem a via , dando-Ihe o 
titulo de preciofa margarita, trazia encsnta- 
il l Ce dos 



201 . Reyno de Babilónia l ' > 

dos os alvedrios , mas nem a todas fe commu- 
nicaô os mefmos alentos, e eu poíTo naô fer 
taõ robuíla , porque ella tal vez tivefle com- 
pleição mais delicada. Verey adonde me leva 
efía veloz carreira , que mearraftra, que tal 
vez fe pague fó de que ame, e naô de que 
pene. 

Deixou a cabana , e foy bufeando o fim 
daquellefragoíb caminho, entendendo, que ain- 
da paílava a mais quem a prefuadia nas afpe- 
rezas, que lhe moftrava. A poucos paflòs che- 
gou ás margens de hum Rio , que em manfas 
ondas fe hia dilatando por entre copadas fayas, 
que íerviaó de muro para refguardo das fuás 
agoas , e na fua corrente levava defpojos , que 
ínoílravaõ fer de alguma grande batalha , e 
com o próprio penfamento diíTe: Que eftra- 
nho he para mim o ufo deitas armas, ainda 
que naó defeonheço , que com ellas fe ganhão 
triunfos nos mais fortes aflaltos. Se eu naô ti- 
vera tanto , que vencer no que me deslizey , 
naô me aconfelharaõ para taô profíofos defeui* 
dos taó crefeidos golpes; mas que hadefazero 
animo, adonde o rigor he fobrelalto ? Efterio, 
que corre defpenhado, me avifa, que nada 
pára donde nafee , e a mim fe me introduzia > 
que nafeéra para naô pararem os alentos da 
minha vaidade, que hoje vejo deflroço do 
meu defengano. Mentia-nie a illuzaô do de* 
zejo , e agora a exhala em fumo o meu conhe- 
cimento ; mas recolhamos eftes , que parecem 
defperdiciosj e talvez feraô thefouros, , 

Eíten? 






Ganhado pelas armas do 'Empyreo. 203 

Eftendeu a mão á veloz carreira, com 
que corriaõ as agoas, e tirou delias huma 
meya roupa, tecida de duros ferros , e do mef- 
mo metal algumas cadeas , humas enlaçadas , e 
efpinhofas , outras , que rematavaó em rozetas 
de igual artificio , com muitas femelhantes al- 
fayas : Que he ifto , ( diíTe aíTuftada a admiração 
de Angélica) quem coftumada ao delicado de 
brandas fedas poderá fofrer o rígido de taò 
agudos ferros, fenaô for quem embalando no 
berço das afperezas os primeiros enfayos da vi- 
da , fizer, fem eftranheza , vida deites enfayos J 
Para fineza he pouco , e para duração he tan- 
to, que naõ poderá duraç muito efta fineza, e 
abbreviar-lhe o tempo parece gofto de diminu- 
ir-lhe o exceífo, e eu que jà comecei de amar, 
dezejo accrefcentar , e naó diminuir o facrifi- 
cio; mas vejamos como aífim fe vive, por mais 
que a mim me pareça, que aílim fe morre, 
que talvez traga o rio os cabedaes de quem 
bem morre, para defpertador de quem mal vi- 
ve. Quero com o fio de prata deitas agoas 
guiar-me no labyrinto de tantas confufoens. Fi- 
que no immovel tronco defte alto freixo 2gora 
o de que fará importância á manhaã o meu fe- 
guro. Continuou o caminho , para que ainda So . ^ 
levava a mefma luz por norte, e a pouco ef- foiit^u 
paço vio hum grande numero de Águias, que 
fazendo efcolta em hum pequeno valle , eítavaô 
cercando hum vulto , que ao pé de hum feco 
tronco tinha o feudefcanço, e as Águias, tendo 
privilégios de Rainhas, fe prezavaô aili de cui- 

Ccii dado- 



orna 



204 -Reyno de Babilónia 

dadofas fentinelas; e com prefeverante dell- 
gencia cortavaô com os harpados bicos verdes 
ramos , de que cobriaó o egnima , que guarda- 
vaó , e o borrifavaõ com a agoa do rio, trazi- 
da nas penas das fuás azas ,. de que facudiaó 
efte reverente chuveiro. Chegou a fufpenfa 
Aldeaâ a examinar taõ novo fucceílb ? e achou 
huma mulher, veftida de íecas folhas , que ten- 
do defpedido do corpo a Alma , guardavaô a- 
quellas Aves decoros ao feu corpo. O páramo 
era taô pouco habitado, que fenaó via nelle 
final de ter fido pizado de humana planta r 
nem de inhumana fera , e fó com efpecial def- 
tinélo o affiítiam aquellas Águias, mandadas por 
mais alto decreto. Levantou ella os olhos ao 
tronco, e vio nelle cravada huma faca r que 
inofírava ter fido o inftrumento, com que fe ti^ 
fihaô' entalhado eftas letras: Aqui viveo So- 
froniã Solitária , fem mais companhia , que a 
fua fineza , e por alto decreto efcreveo o feu 
nome , a donde prejevera ignorada dos homens y 
e refpeitada das Águias. 

Ao pé do mefmo tronco em huma liza 
taboa de mármore fe liaõ eftas 



V/ Igan-me , aun los r ufticos paramos 
Sirvan-me de teftigo las felvas, 
Calmen-fe de los vientos las iras, 
Digante de mi nombre las fenas: 

Pie- 



3 



Ganhado pelas a rwas do Empyréò. 9S| 

Pielago de chryftal efte rio 
Hablete en fus vozes ligeras; 
Cuentete de mi vida cl ocazo f * 
Circulo de mi muerte la Esfera 

Termino de Sofronia el efpacio 
Rigido oy fe admire en la tierraj 
Vidíima, que obediente ai preceto 
Ruftica en la relva fe aífienta; 

- Pródiga la belleza ocultando, 

Syneopa , que fu amor reprefentaj 
Clauíula folo a un Polo reduze 
Fertiles de fu amor las finezas; 

Lleuente Ias comentes las armas ^ 
Rápida fe admiro la pelea , 
Aguila, que nafciendo fublime^ 
Fragila Salamandra fequema: 

Âmbares , que enbidiavan las flores # 
Nácares, que oftentó fu belleza, 
Tímidos dei engano ai eftrago, 
Symbolos los dehafe la arena : 

Cândida en fu muerte fe admira^ 
Nitida en fu aurora fe oitenta, 
Libanos, que le dan Ia mortaja, 
Paxaros, que le íirven la ofrendaw 

Que mais evidencias efpera o meu coração pa- 
ia transformar os defvios, em que fe fufpende, 

nas 



^o6 Reyno de Babilónia. ■ 

nas deliberaçoens, em que fe utiliza ? Eftas; 
que na aula dds defenganos, aprenderão a def- 
prezar vaás apparencias, que a fopros do tem- 
po defapparecem fumo, tendo luzido chamma, 
talvez tiveílem menos robuítas forças, e obra- 
rão com vida de vidro finezas de bronze , e 
eu , que devendo ao Príncipe , as que, enchendo 
os Poios, confundem até os abyfmos , porque 
heide por amar-ttie deixar de amalo ? Pelagia , 
appetecido grilhão das liberdades, que defpre- 
zando o mais preciofo das riquezas trazia de- 
baixo dos pés as pérolas , de que fe prezaõ as 
coroas, era o ídolo de Antioquia, a margarita 
preciofa por antenomafia, tendo-fe por dito* 
fos os coraçoens , que aos feus olhos ardiaó 
flammantes. vídtimas , fe defpojoude tudo , que 
dava calor á fua vaidade, por dar mais luftre 
á fua fé , fatisfazendo ao feu amante na extre- 
mofa demonftracçaõ de fepultar a fua formofu- 
ra no eftreito efpaílb de quatro troncos, em 
que formou o feu palácio , negada aos applau- 
fos de Babilónia , e naturalizada fó nas foli- 
doens do Ermo , que efcolheu para theatro dos 
exceíTos do feu amor , e eu , que com a moeda 
das ingratidoens comprava os precipícios , em 
que fó lucrava os defacordos, ainda naõ acabo de 
edificar feguros, que me deffendaô de taó pe- 
rigofos lances ? Grande rebeldia em agradecer; 
grande liberalidade em difpenfar ! 

Sofronia, a quem faltavaó inftantes no 
dia para numerar os triunfos da fua formofu- 
ra , taó opulenta nos bens da fortuna , que fe 

glo- 



Ganhado pelas armas do Empyree. 207 

gloriava a fortuna de render-lhe os feus the- 
zouros, era elevação da Corte, defmentindo 
a duração de mortal com as apparencias de 
Deidade, confufa no multiplicado dos benefí* 
cios, que recebia, e envergonhada, como ge- 
nerofa , do mal , que os pagava , buícou o íeu 
brio traças, em que lograr os mais raros pro- 
greílos á lua fineza , vivendo em taó folitario 
deferto, como fe para habitação fua nafcéra 
ella fó no mundo. Dos dezabrigos fe lizongea- 
va o goflo, dando-lhe o campo as mais íazo- 
n?das viandas para a fua meza , fem mais pra-* 
ticas , que as que tinha com o feu amante. Só 
a elle vio em todos os annos , que ali viveo. 
Até o feu nome fe ignorara , fe o mefmo a- 
mante lhe naó mandara o efcreveíTe em hum 
tronco , quando para premiala a levou comíigo 
ao leu Reyno. Raros faó os prodígios de quem 
fabe amar, que ficaô eternos na fama , porque 
o feu clarim feja pregão , que lhe conferve a 
memoria entre as ruinas do tempo. Saó as de- 
monftracçoens do amor taõ poderofas , que do* 
mefticaõ as feras, e as creaturas mais feras, 
que os brutos, apoftaô ingratidão com o mef- 
mo amor. Efta verdade fe vé em mim taójuf- 
tificada, como fe prova nas finezas do Príncipe 
tantos annos mal conrefpondidas da minha in- 
eonftante vontade, naó bailando para firmala , 
nem as obrigaçoens , nem os exemplos. A ' 

plantaLothos, que nafce nas correntes do Ni- DizPIU 
lo , he^jeroglyfico do agradecimento : tem a pro- mo * 
priedade , que em quanto o Sol alurnea o 

Emifc 



2òí> Reyno de Babilónia , 

Emisferio , o fegue ella , como quem dos feus 
rayos recebe os alentos de que vive, e era 
elle chegando ao feu occazo, ella fe fepulta nas 
agoas , atè que torna a renafcer no feu orien- 
te, e então aeixando dos chryítaes a urna , cobre 
de frondofas ramas a fua mageflofa pompa, para 
tornar á fua comtemplativa fineza. Semelhante 
extremo fe refere da Ave Ibis , que feguindo 
com os olhos a Lua, cm quanto ella alumea, 
de vela fenaõ aparta, e quando jà a naô divi- 
íà, a Ave, como mortal fe fepulta , atè que ou- 
tra vez com a fua luz cobra alento. Que 
mayor aíFronta de hum animo racional , que 
yer-fe excedido de quem com menos alma vive 
co(n menos de bruto. Acabemos de huma vez 
de emendar os paílos ,. que nos acclaraõ as 
luzes, e feja hoje a ultima rebeldia, que mal- 
quifte o meu amor, deixando-me levar de quem 
pela mayor ventura me moftra o caminha de 
alcançala nos fuaviífimos extremos , que me 
prefuadem a que efqueça as afperas montanhas, 
que ameaçaõ as minhas ruinas. Se os eccos do 
mufico Amfiam fobre os muros.de Thebas aíTen- 
tavsó domefticas as feras mais intragáveis , co- 
nto naô bafta para prender- me os affeftos a- 
doce cadencia do amor do Príncipe; fendo at> 
tributo da fua foberania vencer amante a quem 
S. Mat-fe lhe refiíte ingrata. Diga-o aquelle , que nas 
tbeus. ca j e y as <ja f ua cobiça tinha taó captiva a liber- 
dade , que tudo que naó eraô as uzuras v doin- 
tereíTe , defconhecia por ventura , e chamado 
dos eccos do amor íacrificou -quanto o pre.n- v 

di$ 



Ganhado pelas armas do Tjnpyreo. 209 

o 

dia J por fer fecretario dos fegredos de quem 
o chamava; e eu com mais efficazes vozes, 
que o onzeneiro , naó acabo a defprenderme 
dos falfos cabedaes, com que deixo enlaçarme. 
Ceifem ja, Senhor, os meus vagares, e levai-me 
#os odoríferos cheyros das voiías moradas. 



-D Afte , naô mais de engano, 
CeíTem as apparencias fabulofas, 
Que cauzaram meu dano 
Quanto mais bellasfim, mais enganofas, 
Deixando em dor interna 
Por huma breve vifta pena eterna. 

JBe fam do mundo as glorias, 

Que em hum momento -fó defapparecem^ 

ídolo das memorias , 

Que voa fumo , quando luz parece, 

Como a Tântalo vejo 

-Morrer o logro em meyo do dezejo. 

Leva-me jà o amor atraz de ti , para que figa 
© refplendor da tua , for mofara. Leva-me dos 
enredos de Babilónia as dbces liberdades da 
tua Corte, rompe os grilhoens , que me tem 
injuftamente captiva , e feguirejt^s ligeiros 
palfos, porque fe caminha ao Reyno dodefcan- 
ço. Leva-me áquella perfeita uniaõ , a donde 
refpira a mefma alma , que fe enlaça , á fúavif- 

Dd fim* 



2io Reyno de Babilónia f 

O 

fima transformação , donde o amante, e o a- 

mado ficaó por fineza hum mefmo compofto 
de perfeiçoens , e jà que a minha debilidade 
naô pode feguir-vos a voos, íeve-me o que 
amo , mas que feja de raftros , que hindo com- 
vofco, a mefma vileza da terra fera palácio do 
Empyreo, e lograrey nas roflas luzes ver def- 
truido o tenebrofo das trevas. Corra , Senhor, 
ás felicidades , quem fe defvelou nos precipí- 
cios, que para attrahirme o coração me ferve 
de eílimulo o cheyro dos volTos perfumes, 
porque 



D 



E tu fuaves aromas 
Tan ambicioza me miras ^ 
Que ai olor de tus fragancias 
Mi amor las felvas fatiga» 

Flores, tualiento reparte, 
Y el alma delias azida 
Al âmbar de tus unguentos 
Enamorada camina. 

Eres balfamo preciofo, 

Que de amor \>or las heridas 
>< Ardientes Rozas exhaía, 

^ ra S r ^^s llamas refpira. 



Nefícs 



. 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 24. 1 

Neftes amorofos delíquios da fineza eftava jà 
Angélica taó transformada , que tudo que naó 
era amar, parece lhe aborrecia, e bem achada 
no afpero do caminho fez nelle afíento 5 como 
ceremos no mais, que fe fegue. 



Ddii . C A- 



- 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 213 

CA P ITULO XIV- 

Quem bufca as delicias , deslujlra as 

finezas, 



Nos amorofos laços das ternuras 
De Angélica os affe&ps influídos 
Parte a bufcar o amante , que repoufa 
«Mais amante nos braços do martyrio. 



O 






S mais íbbidos quilates das finezas he 
__ amar fem alentarem o valor as efperan- 

ças de lograr a íuavidade dos favores, 
que íb deve y quem muito ama , prender o cora- 
ção pelas prefeiçoens do amado , tendo fó o 
an^or* por premio ; que amar , como quem ef- 
í/pèra, nao he amor, he intereíTe. Jà as doçu- 
ras de amorofos fentimentos tinhaÔ alvoroça- 
do o animo da reduzida Aldeaã, avaliando 
hum fenfivel aíFeâo por tao agigantado mere- 
cimento , que lhe parecia ter direito para per- 
íender igual remuneração à fineza de deixar as 
conftrfoens da Corte pelo retiro, de que fe cria 
habitadora, malquiftes com o feu gofto aquel- 
Jas horas, em que o Príncipe lhe negava a 
fua prefença , dando por menos experimenta- 
da mayor valor ao logro das permifíbens, que 
à effícacia das memorias , que lhe puniaô as 
paliadas variedades y com que os deslizes da 



VOUr 



a 14 Reyno de Babilónia 



> > 



vontade tantas vezes fizeraò eftragos na ra* 
zao. 

Pagava-fe de bufcar à fua fatisfaçaô os 
prémios da fua diligencia , ainda tendo nella taó 
pouca actividade os difvelos , que , com perda 
da própria commodidade , naõ fe alentava o cui- 
dado, porque logo enfraquecia o empenho, 
que defta errada propofiçam fe adorna o amor 
imperfeito, quando*as ligeiras plumas de qual- 
quer amante penfamento lhe parecem vigoro- 
fas azas, que dam remontados voos para tranf- 
cend^r altiffimas esferas, e como fe as experi- 
ências naó foram teftemunha dos precipícios, fe 
íepultaô os avizos na urna do efquecimento, per- 
dido o acordo , de que deve a confiança fegu- 
rar-fe nos alicerfes do temor , pondo tal reP- 
guardo à luz , q a guia, que o ar da prefumpçam de 
que tem vencido , naó apague o reflexo, que a en- 
caminhou na noite de Babilónia a dar os pri- 
meiros pados pelas eílradas do Empyreo, a 
donde afpira achegar o dezejo , mas a fraque- 
za do animo , fugindo de pizar abrolhos , fó 
bufca o ameno campo de mimofas flores, en- 
ganada a vontade na perfuaçam de que fe pode 
vencer fem trabalhar. Efta mal fundada idea , 
que nos errados difcurfos coftumaó introduzir 
os penfamentos, fam ostropeíTos, em que pe* 
rigaô os menos acautelados, deftruindo por a 
mar-fe a íi quanto podiam lucrar no que de íi 
deviam tem er fe. 

Filippe, Rey de Macedónia com ma is juí- 
zo , que fé , mandava , que todos os dias pela ma- 
nhã* 



Gaiiha do pelas armas da Empyreo. 215. 

nhaã lhe lembrafTem que era homem , para naô 
efquecer-fe de temer como mortal , e o fuflo 
do fim ferviíTe de efpelho, em que eftudaífe 
o feu defengano , madrugando a luz do conhe- 
cimento para naô cahir na noite das vaidades , 
quem fe arrifcava aos precipícios entre aslom- 
bras de aerias prefumpçoens. Naô reparava 
Angélica no muito que , às fuás tibiezas exce- 
diaõ as heróicas finezas do Príncipe , e o alto 
preço, porque a remira do groíTeiro captiveiro, 
em que nafcera , fobindo-a ao eminente eflado 
para que a deftinàra , e parecendo-lhe , que era 
excedo , o que ainda naô paflava de primeira 
impulfo , largou por breve efpaço o defc^nfo 
do fono , em que , fufpendido todo o acordo , fe 
defcuidava dos perigos, entregue toda aos fo- 
cegos , querendo, entre as commodidades do gof- 
tô , achar remunerado no favor o que ella de íi 
cria fuperabundante difvelo, e com a efcaíla 
luz deile inútil dezejo , entrou confiada na 
pertençaô de logo achalo obrigado, fem ter 
que allegar-lhe mais que huma deligencia , que 
naô paflava de imaginaria, e f ada no que deli 
fupunha , fe determinou a txplicarlhe a fua fi- 
neza ncíte 



ínledla 
lo meo 

ROMANCE. E" "°- 

ctesqux 
iivi, 

que di- 

Fuera pedaços viíes ©fmcaí 

De mi fantaftico fueno ; 

A- 



A. 



ii6 Reyrió de Babilónia t 

Aprovechemos la luz 
De la razon a reflexos, 

Eftas fombras coloridas 
Con las tintas dei dezeo , 
Si las deftempló el error 
Las emiendç el efcarmento» 

Si en las laminas dei gufto ] ] 
Erro lineas el defpeno, 
Las çenizas ..dei defcuido 
Buelen átomos dei viento. 

Oh como dichofa el alma 
De amot en tu fuego ardiendo, 
Es cera lo que fue bronze, 
Bolcan el mas tíbio aftefto ! 

Aqui a exceílosde finezas 
Rethoriço diga el pecho % 
Que folo en dizir que te amo, 
Son los íufpiros difcretos. 

Dizir , que amo no es ofenfa. 
Si de amor el noble empleoi 
Và dando a la adoracion 
Hidalgas fena£ 4e prçmio. 

Al furor de las memorias , 

Que me reprefenta el tiempo j 
Enfrene lo que tu puedes , 
Pues lo que yopuedo es menos. 

o Donde 



Ganhado pelas armas do Empyreo. iiy 

Donde hede hallarte , bien mio, 
Si en tanto dolor violento , 
Pedaços, aun mas que votos, 
De mi corazon te ofrefeo. 

A mi ruego nó te ocultes, 
Quando rendida prometo^ 
Que hafta el ultimo fufpiro 
Hade fer de amor extremo, 

Àl pecho en ardiente fragoa 
Del corazon los alientos , 
En vez de remédio , íirven 
De nueva matéria aí fuego, 

Ya reduzido a finezas 

En mayor bolcan ardiendo, 
Mas rethoricas las Hamas 
Dan mayor calor ai ruego. 

Nó me nieges las piedades , 
Pues oy mi amante difvelo," 
Te dexa, mas que a razones> 
A gemidos íarisfecho. 

A quem naó pafla da esfera de homem pode 
huma fenfivel ternura parecer extremo, ainda 
quando naõ he mais que imaginado obfequio ; 
porem o Príncipe, que por monarca do n^ais 
elevado império, tinha fublime intelligencia,' 
çonheceo, que Angélica fó pelo dos Vavores 

Ee atra- 



li S Rey no de Babilónia > 

atrahida, fe exercitava nas difveladas demonf- 
tracçoens de empenhada; e levada do gofto, e 
nao da fineza, comprava huma vaidade como 
preço de hum rdidimento. Negou-lhe a fua 
prefença , porque o fuíto de naõ achalo , íbfFe 
cautella para nao perdelo , e ainda que fenaô 
aufentou , efteve taó occuíto àquelle cuidado de 
que fe defobrigou por ommiílb, como quem 
queria , que m$ actividades do difvelo fe fizet 
fe capaz do premio de bem conrefpondido , 
ííando da experiência deixar patente o infalí- 
vel de que amor, que attende a alcançar, naó 
pode chegar a merecer. Foy o fobrefalto pedra 
de toque, em que o coração de Angélica ad~ 
vertio a nulidade do voto , que ofrerecia para 
emendar-lhe o imperfeito no defentereílado. 
Repetia os pádòs , multiplicou os fufpiros, 
examinou o apofento, e defenganada de achar 
o que bufeava , focegou o defejo , embalado 
no berço da efperança , prometendo-fe o bom 
logro de que o Príncipe, como amante, naõ fo- 
freria dilatada auíencia , quando ella ja fe con- 
feíTava faudofa. Tibiamenteama , quem taó de- 
preífa canfa; mas deftas ommi ílbens fe vefte a- 
quelle amor, que querendo fazer galla das fi- 
nezas, fe adorna com o fambenito das próprias 
commodidades. Volta a cobrar o perdido fono, 
contente na primeira diligencia , ainda vendo-a 
mal defempenhada , quando ouvio hum ay, 
que no campo foava taô laftimofo, que a fez 
parar aefeutar a cauza de taô enternecida quei- 
xa, que em mal formadas dizia ; 



Ganhado pelas armar do Empyreo< u$ 



Ay infeliz fortuna , 
Ay forte avara , 
Que te perdi em ti , 
Porque em mim te bufcava. 



Com a mefma dor continuou aífim a laftimar- 
fe: Adonde hade achar recurfo a minha aíflic- 
çam, perdida aquella efperança , de que as ex- 
periências foraô tantas vezes fiadoras , e hrje 
ja fam efpinhos do repudio , as que ent>:6 erao 
rozas pelo incêndio ; trocadas pela ingratidam 
as chora, fem remédio, o meu defengano , que 
quando ás ternuras fe negaó os ouvidos, be 
porque nas mãos do aggravo morrerão os af- 
íedtos, e naõ fica jà fagrado o que deve am- 
parar a emenda. Voltou-me as cofias a pieda- 
de, perdi de vifta o favor, errados os cami- 
nhos do cuidado, e fenaô pofib jà cobrar o 
que defperdicey , parece mais juíto mudar de 
emprego o difvello , que fe he infalível o dam- 
no, para que hade perder-fe também a vida no 
fentimento, fe em quanto ella dura, pofib , por 
ley natural , tratar de amar-me , para que ago- 
ra-, e depois helde aborrecerme ? A fentença 
eftà dada , e naõ a muda o tribunal , que he 
rc£to: tenhamos do mal o menos, fe lá me 
efpera fem duvida o cftrago , goze-fe antes o 
divertimento, que fugir ao com que wé pofib, 
lie injuíliça , que fe pugna. Bem entendeo An- 
gélica, que aquella pratica também cem ella 
u- Eeii falia- 



tio Reyn& de Babilónia } 

» 
fallava, e querendo apurar, quem era, que egni- 

maticamente lhe arguira os penfamento^, ap- 
plicou a vifta , e conheceo era hum homem , a 
quem as infignias de militar moftravaô fer pef- 
foa mais , que ordinária , o trage de raayor of- 
tentação do que moftravaô os queixumes da 
fua má forte v o qual em a vendo fe adiantou 
a bufcalla politico, e perguntou cortez: Que 
AicceíTo a defvelava a horas , em que todo o 
cuidado emaô dormia , mas fe havia cazo, em 
que etle pndeííe dar-lhe o remédio, o faria co- 
mo quem tinha por brazaó acudir aos que deí- 
le fe amparavaó. Abriu ellaa janella, a qoeatè 
alli as vidraças tinhaô fervido de cortina, e 
refpondeu : Eftais vòs taô mal com a voíTa for- 
tuna, que naô deixais efperança de poder e* 
niendar a alheya , mas como compadecer dos 
afftiétos he generofidade do animo, me laftimei 
de ouvir-vos em quanto infeliz, fuppofto me 
defagradou crer-vos impaciente nas contrarie- 
dades do mundo. A tolerância ( diíTe elle ) 
nunca pode fer merecimento, que a paciência 
he cobardia, quando a esforçar a dor fe ajunta 
a grandeza da peíToa aggravada com as def- 
porporcionadas condiçoens das fentenças , e pa- 
Ta que vòs faibais, que devo, como nobre, 
naf> fogeitar-me aos limites do fofrimento, di- 
rey quem fou, e as cauzas, que me fazem fen- 
O Efpi- fiveis os males , que padeço. Eu , Senhora f 
Víi'!* rafei com taô altos privilégios, e efpiritos taô 
'pojiõ d elevados , que pude oporme ao mais poderolo 
Mm* dos Monarcas y q por ter da fua mão recebido 

o Scep- 



Ganhado petas armas do Etnpyreo. 1 2 í 

o Sceptro , entendi me era devido aflentar a 
minha cadeira igual à fua. No chryftalino efpe- 
lho da minha fciencia conheci as perfeiçoens, 
com que me dotou a natureza , e que por dias 
merecia amar-me a mim , tanto que a todos os 
JBabilonios trouxeíTe a dar-me adoração , mas 
taõ outro foy o fucceflò do que me prometia o 
meu penfamento, quedevendo-fe-me culto, pa- 
deço iremediavel degredo. A mefma infelici- 
dade vos vejo padecer a vòs, pois por que- 
rer-vos poupar a hum feníivel tromento, vos 
deixou o amante^a quem queríeis, e fe aufen- 
tou , como vedes, moltrando, que era femra- 
za6 ainda o tibio affeílo , que applicais a naõ 
matar-vos. Efta tyranniannohavieis de achar em 
mim , fe trocada a forte, me défleis o coração, 
que elle vos compra a preço de mortificaçoens 
voífas, como fuccedeo a eíTas de quem viftes as 
imagens , atenuadas nos defertos por força de 
impiedades , e o mefmo quer de vos, quando 
intenta vos efcondais atè da fortuna , que vos 
fegue, porque naô eflimeis o que fois. Dai me 
palavra de feres minha, e vereis taõ outra a 
voífa forte , que pareça fó para lizonja do vof- 
fo gofto crearaõ frutos os pomares, flores as 
plantas, e os mares pérolas. Será tributo á 
voíFa belleza, quanto o Sol illuftra, quanto as 
Eftrelías influem , quanto os Ceos rodeaô. Ve- 
reis, que altero as Esferas , que pacif co os 
ventos , que inquieto os ares , que faço refpei- 
tada a vofla pefiba , pertendidas as voíTas pren- 
das, e adornado dos mais importantes t hei ou- 
ros 



221 Reyno de Babilónia i 

ros o voíTo trato ; e naõ vos pareçaõ falidas 
as minhas promeíTas , porque me vedes confeí- 
far infortúnios, que em mim naó he ifto di- 
minuição do poder , he cólera, de que fe ul- 
traja a mageítade do meu fer. O que vos pro- 
meto, como grande, defempenharey,como rico, 
c moftrarey , como fabio. 

Naõ fe inclinava Angélica a aceitar taó 
largas oftèrtas , mas naõ tinha para fugir de 
ouvillas aquella valentia de animo , de que de- 
via armar-fe a fineza para credito da fé, antes 
fentia no mais intimo da alma hum a inquieta- 
ção das potencias , que a tinhaó em declarada 
guerra. O encuberto pertendente, que lhe co* 
nhecia o dezafocego , multiplicava os rogos, 
por melhor lograr os laços, dizendo : Naó vos 
fufpenda , Senhora, o temor de que pare cm 
illuzoens, o que prometo realidades, que para 
o meu poder pouco he eclypfar o Sol, amorta- 
lhar o dia , apreíTar a noute , alterar os ventos, 
e defprender da fua esfera os rayos, que a 
Júpiter para elles empreito o fogo, a Mercúrio 
dou ligeireza aos voos, a Plutaó aíTopro as la- 
varedas , a Neptuno pacifico , ou embraveço 
as ondas, á Marte encolerizo na guerra, ea 

Cupido dou o veneno para as fettas, elhe fou 
guia nos triunfos; e quem aífim domina as ju- 
rifdicçoens aos Deofes, vede fe podeis duvi- 
dar-lhe os impérios. Se me ouviftes queixar de 

infeliz , foy porque me aggravou quem com 
diverfos eífeitos vos quer dominar os paíTos, 

fepultando-vos as luzes nas cavernas dos dezer r 

- i a tos y 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 225 

tos, e desluftrando-vos a belleza, atenuada nos, 
rigores do máo trato. Já tendes dado muitos 
dias a viver de violências , defcançay agora das 
tyrannias , que para vos dar merecimento ten- 
des crefcido motivo, que malencolicas ideas, 
íe jà vedes baítaraó a malquiftarvos, de que 
vos íerve arrepender-vos ? O mal eílà concluí- 
do , e fe hade fer caftigado, em quanto tarda, 
logray o bem do divertimento , que eu tenho 
Reyno com tantos habitadores , que iobraõ a 
fazer-vos companhia, fe quizeres feguir os meus 
pados. 

Aqui chegava o cautelofo encuberto, 
quando ao reflexo de hum grande relâmpago, . 
íe acclarou a fombra da noute , em que flu&ua- ceoacit 
va o coração de Angélica, e lhe ficou paten- raann- 
te , que o que aííim blazonava de Rey era hum ía f aà * 
Ethiope de taó medonho afpeéto , que de velo 
podia desfalecer o animo mais robufto. A for- 
ma defmentia o fer de humano, aíTèmelhando 
o mais disforme monftro: os olhos fcintila- 
vaô fogo , o alento refpirava fumo , e ao ef- 
talo de hum eftrondofo trovaó fe ouvio no ar 
huma voz, que diíTe: 



R 



Etire-fe la fombra, 
Que a la luz dá combate^ 
Porque la noche m-uere , 
Luego que el Sol refíafce. 



Ca mii 



\ 



£24 Reyno de Babilónia, 

Cafnine azia èl abyfmo 
Quien entre Mamas arde, 1 
Que locas prefumpíiones 
Suelen precipitar-íè. 

Los rayos , que ilumina 
El poder; a abrazarle 
Hafta el centro camiríen,' 
Que és de íbbeibias carcel. 

Caiga infeliz luzer© 
A donde fu hofpedaje 
Sean Uamas ardientes , 
En que fu ardor fe inflame, 



Ccflbu a voz , mas naó os efféitos delia , por- 
que repetido o ecco nos efpaços do campo, 
ioava o imperial decreto no concavo das pe- 
nhas, para mayor confofaô do que desfeito em 
horrorozo fumo era teítemunha evidente da 
fua infelicidade, baixando ao efcuro reyno das 
trevas , por fe atrever manifefto oppoíitor das 
luzes. Naõ faó os fucceífos femprg remédio aos 
enganos , porque fepultados no efquecimento, 
ficaô inúteis á confideraçaó. Jà Angélica fe ti- 
nha viílo outras vezes nas ruinas de Babilónia, 
ameaçadas fuás próprias ruinas, porque naõ che- 
gavaõ as forças a fer efcudo , que a defendeíTe 
de taó mortaes golpes , e teriaó chegado ao 
ultimo rigor, a .naó eftar fempre a piedade 
cerrando as portas ao cafligo* 

3 Infe* 



Ganhado peias armas do Ewpyreo. 22$ 



í 7'-« «" * 



Inficionado o ar com o peftifero alento 
do precipitado pthippe, e aíTuftado o coração 
da enganada AÍdeãa, trocou em vigorofos paf- 
fbs os lufpendidps arFe£tós, dando novo calor 
ás deliberaçoens, esforçava diligencias para def- 
mentir deslizes. Tornou a bufcar o Príncipe, 
exaftiinando o mais pcculto do. próprio peito, 
para ver fe nèlle achava guia , que à encami- 
nhaíre na' fineza, porque a mefma luç , que 
lhe moftrou o perigo , deu actividades ao cui- 
dado, advertindo o difcurfò os defperdicios do 
tempo , e conhecida a fraqueza , em que tantas 
vezes tropeçara o feu penfamento, deixando 
que as noras da jrrefoluçaó pareceflem erros 
dá vontade, fe reprehendia de cobarde," por ver 
que bailara para o feu defpenho, o que naõ ti- • 
nha mais fer, que perder o que teve, para 
eternamente chorar o que hoje era. Começou 
a temer-fe de fi, lembrada de que aquelle P TÍ ~ jj m i 
meiro homem, que com privilégios de Mo- 
narca fe lhe deraõ íbberanias de Rey uni- 
verfal, naõ fò máximo entre os homens, mas 
reconhecido , e refpeitado das niefmas feras , o 
mais prendado entre os racionaes, e figura ex- 
prella do feu foberano autor, dezafiado pela 
mais débil força fe deixou vencer tarito do 
primeiro combate, que arraftrada do goíto a 
fortaleza da razaô , çahio vencido , porque da 
refiílencia fe deixou defarmado , e perdida a 
coroa , e o património , fó lhe ficara por he- 
rança o amargo da dor no defacordQ do luccef- 
fo, que aind^a dura nos íeusdefceodentes', e 

Ff v: & 



J 



Í26 Reym de Bahihníâ^ " 

fe ifto fuccedéra a quem em outras prerogati- 
vas podia confiar-fe, ella,que tinha a fragili- 
dade por natureza, e jà mais arruinada nas 
quebras do barro , como fcnaô temia do que 
podia pairar de imaginado a confentido, quan- 
do o eftrago daquelle veneno , naó ficara fó no 
íer terreno , mas fobira a fua operação ao mais 
alto das esferas, fazendo, que os feus habita- 
dores mediílem a grande diftancia , que vay do 
Çeo ao abyfmo. O fuílo , que motivou o pof- 
íivel defta infelicidade , e a recordação do be- 
nefício daquella luz, deu mayor aéhvidade ás 
deligencias para buícar o perdido bem r em 
que continuou disvelada , e confeguio ditofa , 
que como bufeou o amor no mefmo manancial, 
em que eftava reprimido, fem duvida havia al- 
cançar o extremo premiado. Chorou magoada, 
rogou enternecida , dizendo : Vinde, filhas de 
íiaô,a fazer companhia aos meus triftes fufpi- 
ros, e vereis na caufa delles, que faó as mi- 
nhas lagrymas, muda eloquência para explicar a 
minha dor. Bufquey ao que ama minha alma , 
c quando cri eftaria nella , como morada fua , 
fó encontro o defengano, porque fe defencon- 
trou delle a pureza do meu aiFe£to. Parecia- 
Ihe ao meu coração , que naô era o fogo , que 
nelie ardia , de outra matéria , que naô fofle o 
amor de meu amado ; mas enganei-me com o 
que amava , e bufeando-o a elle , me encontro 
a mim, taó diftante daquelle caminho, em que 
fó acerta quem a fi fe deixa , que padeço a dor 

de aufente, porque naô foube apartar me, do 

que 



/ 



I 

Ganhado peias armas da Empyreòl líy 



que bafta a defunir-me. Bem fey , que á gran- 
deza de hum monarca lhe feria eftreito alver- 
gue o meu peito; mas fe vos , Senhor, na -" 
voíTa primeira infância fizeftes digno palácio 
huma lapa palhiça , no meu coração encontrá- 
veis dureza de pedra , fragilidades de palha , 
ingratidoens de bruto. Deíèncontrei-vos , Se- 
nhor, porque na noute da minha inconftancia, 
rebelde aos voffos benefícios , cega , e fem luz 
nas trevas da minha profia, naô podia acertar 
os pados , fe os defencaminhavaó as fombras. 
Bufquei-vos em huma alma, que mais parecia 
minha , que voíla , e devendo bufcar-vos pela 
fineza de fervir, fó me appreíTava a anciã de 
me ver premiar. Bufquei-vos emfím para 
mim, quando devia efquecer-me de mim por 
amor de vos ; mas efta minha ignorante 
fineza tem a difculpa de minha : emmende-a 
agora huma luz voíTa , para que , vencida a . . « 
fombra, que me defencaminha, acerte o difvelo lomeo 

a encontrarvos , defcançando em hum coração uoôs* 
aman te. 

Dezafocegada , como temerofa , fiou no* 
ramente do cuidado a fua ventura , repetindo 
fervorofas diligencias , a que fobiaó de preço 
©s fufpiros , querendo nas actividades prefen- 
tes emmendar as tibiezas paliadas. Naó fe 
encontrão os prémios fem os rogar o mereci- 
mento, que amor, que fe contenta fó de nao 
offender , pouca ambição moftra em fe adian- 
tar; mas efla he a differença, que vay de hum 
açior cego a hum amor lynce , fe ainda de iiu* 

Ff ii ma 



* 

228 .; lley.no de Babilónia^ y 

ma moderada fineza fe deix;óu b príncipe achar; 
em hum incomparável extremo , porque naf 
Cruz do feti amor o achou Angélica crucifica* 
do pela ingratidão ; porque fe vifie , que o feú 
amor fó defeançava nos martyrios , e injuriada 
ella de fe ver defagradecida, quando mais de- 
vedora, lhe diíTe: 

i-VJL Eu cuidado difvelado 
Encontrar-vos procurava ; 
E porque em mim vo$, bufeava 
Me enganey com o meu cuidado : 
Jà de melhor luz guiado, 
Porque foy voíTa efta luz, 
Vos achou de amor na Cruz 
Os rigores padecendo, . 

E amor voííb extremo vendo 
Novo extremo em mim produz. 



As.preplexidades nos difeurfos fam infalíveis 
eíFeitos na novidade dos fuecefíbs. Via Àngelicp, 
que o Príncipe, no incomparável da fua fine- 
za, eftava arguindo a ingratidão, de tsô rrçá 
conrefpondencia 5 novamente confufa fe temeu 
como culpada, e querendo acudir a fatisfaze- 
Iq; ouviu, que aufeiuando-fe. dizia. 



Por 



Ganhado pelas armas do Empjreo] 129 

Por entre efpinhos, c lanças, 
Mares de fangue vertendo, 
Te afleguro padecendo, 
Cuílofas tuas mudanças,. 

Temeu o defvio, e recordou a memoria do 
que tinha encontrado nas afperezas do dezerto, 
adonde os exceflbs de tantos folitarios cora- 
çoéns excediaô no rigor as forças do natural, 
e reprehendendo fe por tibia , pafTou aos deze- 
jos de fervorofa , ainda que as raizes, que tan- 
to fe tinhaõ profundado na terra , brotavaó ef- 
pinhos por flores , fecando as efperanças de 
bem fazonados frutos, por mais que os impul- 
fos do arrependimento regaíTem as plantas com 
a agoa das lagrymas , quando para mudarem de 
cílencia traziaô de Babilónia o feu principio, 
contra quem, armadas as valentias do Empyreo, 
foraó ganhando campo , como veremos no fe- 
guinte fucceflb. 



C À* 

o 

\ 



\ 



Canhado pelas armas do Empyrèo. 231 

C A PI T U L O XV- 

NaÔ podem os humanos alentos com o fogo 

do amor. 

Vencido a defenganos o cuidado 
Dos fulminados rayos jà fugindo i 
Socorro pede ao golpe penetrante 
Hum peito defmayado em fogo viro» 

OS proíiados golpes do defengano , as âc* 
mo K d as Torres , que em Babilónia edi- 
ficou a vaidade , cabidas ao débil ar de 
fcum fufpiro, e o mais forçofo combate, que 
foy a luz do conhecimento para aclarar o pe- 
rigofo pélago , em que naufragaô todos , que 
no alterado mar de Babiffcnia fe entregaô ás 
fuás ondas, tinhaó jà taô cançado o animo de 
Aragefica,, que fem mais cuidado, que aflegu- 
lar o feu perigo, ponderava as ruínas de que fe 
yira ameaçada, e a fineza, com que a deffen- 
dera , quem dos mefmos aggravos tirava mo~ 
tivos para os remédios. Jà o coração eftava 
taõ outro, que dezejava novo coração para fa- 
crifcio novo r fem que dos pairado* incêndios 
fe vi/Tem nelle nem as cinzas. Avivava efta la«- 
vareda confultar com o difcurfo o para que 
lhe davaô affumpto as propoíiçoens da fé , re- 

cor- 



<%1% Reyno de Babilónia j 

cordando-Ihè todos ôs excertos de que eftava 
devedora, e quanto fe via diminuta nos defem- 
penhos, de quem /para melhorar-lhe a fortuna,' 
naõ, fó entregara a liberdade , que nafcêrafera 
fogeiçam ; mas negando-fe aos impérios de ven- 
cer, pizárà a prezada monarquia de coroa Re- 
gia pela humilde fervidam daquelles, de quem 
ò*Gett era feg^ mo Senhor. Lembrou-íe de huma Ca- 
rina. * tharina da Alexandria,trocadas as fetas, de que na 
fua formofura o amor fiava os feus triunfos, 
pela rigoròfa, e fanguinolenta roda, em que 
ganhou do amante a mayor forte. Vio huma 
S.CUra. Clara de Aíliz , defprezados os melindres de flor 
pelo groffeiro trato do dezabrimento, e pelo fo- 
go, em que o feu peito ardia, fe efquecera do 
S Ma P aterna ' affedto , que o fangue alimentava. Re- 
jeS.Ma- parou na belleza de huma Rofa de Lima, que 
na. 'fe toucava de efpinhos, fe alimentava de fel, 
e fe vertia de rigidas peles, por defprezo dag 
4edas, das plumas, ,e do mimofo das viandas. 
Nos reflexos deíies clfryftalinos eípelhos , em que 
o iol aprendia a luzir , o diáfano das fontes a 
purificar f e ^ eos jardins a florecer, lhe ficavaó 
manifeftas às efcuras fombras da ingratidão , em 
que tantas vezes eeclypfàrá oscrefpufculos, com 
que a Aurora começara no feu entendimento a 
amanhecer, ainda que à oppofíçàô de ligeiros 
penfamentos faziam nélla âfificipâda a noite dos 
deslizes. O acertado d^ftes juizoS cauzou taó 
vigorofos eífeitòs, qíie riaó cabendo nòs éftrei- 
tos efpaços do íílencini ^ rôtiiperârii òs fuípiros , 
quanto callavaô atè ali as fuás inconítancias ; e 



J. - li-Si 



Ganhado feias aPwas do Empyreo. v$ 3 

determinada a acabar de huma vez com as co- 
bardias, augmentou o incêndio neftas eXpref- 
nvas vozes: 

Jà, Senhor, e Príncipe excelfo, (dizia ella ) 
íe acha taõ rendido o meu alvedrio ao vofle 
império, que tudo que naó he a fogeiçaó, 
defconheço por liberdade. Ao pezo dos bene- 
fícios cahiraõ aquellas fabricas, que tinha le- 
vantado o meu defagradeci mento, e guiada jà 
pela razaó a minha cega vontade, quer dar hoje 
tanto calor às finezas , que fupraõ hum dia por 
fervorofas, quantos errarão por cobardes, e ain- 
da quando me naõ veneeflem reconhecidas as 
minhas dividas, me prenderiam confideradas as 
voílas perfeiçocns, que fó na6 chega a amalas, 
quem naõ fabe conhecelas. Aílim vivia eu nos 
labyrinthos de Babilónia , esforçando as fuás con- 
quiftas, rebelde ao poder das voflas armas, tro- 
peçando nas infediljdades , fem dar palio para os 
acertos; dando-vos as coftas , como fenaô fora 
a voílà face a que da ao Sol rayos , com que 
brilhe, à noute Eftrellas, .com que alumeye , 
às flores fragrâncias , com que fuavizem. Vos 
fois cândido, e rubicundo, efeolhido entre mi- 
lhares; Aos Cortezoens do vo(To Reyno,em 
paga de grandes ferviços , fe lhe dà o ver- 
vos por premio , fem que lhe fique nada, que de- 
zejar depois de chegar a vos ver. Na voíTa 
monarquia naó entra a tribulação, naó a con- 

?uiílaÕ as forças, e fó a alcançaõ as finezas, 
equena praça he a de huma alma para domi- 

Gg ciha> 



• 



t$\ Reyno de Babilónia f 

cilio da vofla grandeza, de que abrazâdo o 
meu coração cm ardente incêndio , desfalecem 
asfprças para fupportar taó vehernentes cham* 
mas , de que íb faõ dezafogo eítes fufpiros ; 

J\ O rayo penetrante 
De meu peito homicida^ 
Minha alma jà rendida 
No fogo efpira amante. 

Efte voraz incêndio, 

Que o coração me abrazaj 
Quanto refpira he braza $ 
A que arder he remédio» 

Morra na ardente fragoa 
De taõ fino querer , 
Porque amor fabe arder » 
Das lagrymas nefta agoa* 

Se pequena faifea reprimida rebenta em a£li«- 
va lavareda, incêndios de amor, encerrados no 
peito , que muito he % que nos vitaes alentos 
façam eítragos. Tendo Hecuba nos Palácios de 
JVtorfeo fufpenfo o difeurfo entre os lethargos de 
hum fonho y lhe reprefentou a fantazia , que delia 
fialcia huma tocha, que prendia fogo em tudo 
o Reyno , e foy o fonho vaticínio de que por 
«nduítría de Pariz, feu filho , ardeu Troya nas 

yorazes 



Ganhado pelas armas do Empyrió. 235^ 

vorazes chammas , de que fó ficaram na memo- 
ria as cinzas. Ifto , que em Hecuba foy appre- 
henfam do penfamento, e fe verificou verdade 
na experiência, fuccedeu a Angélica por eífei- 
to da fua confideraçam. Applicou-feo difcurfoa 
ponderar as perfeiçoens do amado , e ateou o 
fogo no peito com tam agigantadas fortalezas , ^ 
qs mefmas refpiraçoens , que defafogam , lhe 
pareciam a ella chamas , que queimam. Traça 
foy do amor, para verificar o feu poder, quan- 
do a huma feta que atira, todo hum Vezuvio 
fe exhala , em que desfalecidas as forças, 
enfermou o coraçam na ardente febre do amor. 
A eíte grilham da fua fineza quiz Angélica a- 
pertar o laço, bufcando na amenidade dos cam- 
pos mais efpaílos , em que dilataíTe osfufpiros, 
e podeíTem , com mayor defafogo , explicar-fe os 
feus extremos. He a formofura dos campos li- 
vro, em que melhor fe aprende a arte da amar. 
Ali, na reíignaçaô das arvores, acha liçoens o 
difcurfo para negar- fe aos impérios da vontade 
própria, vendo, que huma planta, com menos 
alma, deixa os progreflos da vida às difpoíí- 
çoens da Providencia , para renunciar na obe- 
diência os benefícios da creaçam , e quanto mais 
profunda as raizes nas humildades da terra , 
com mayor vigor crefee a fua louzania, fenda 
o verdor das fuás folhas línguas de efmeraldas, 
que publicam ditofas efperanças. Tudo ali faô 
çrtigos , em que fe apura a Fé dos affectos ! 

Aftrologo , em alcançar os movimentos da 
Esfera Çelefte, eílava o coraçam de Angélica, 

Ggii tomando 



236 Reypo de Babilónia. 

tomando a altura do Sol , que também na lin- 
guagem dos feus rayos lhe dava liçoens de ar- 
dores, quando apoítando com elle luzes o co- 
nhecimento, fe confundia de que lhe excedeífe 
nos extremos quem ainda , menos obrigado , 
parecia mais agradecido, fem queixar-fe daindif- 
ferença dos tempos. Determinada a emendar 
no feu amor eíla injuria , entre* a ternura das 
lagrymas , e o defejo de remir as paíFadas ommifc 
foens, dizia : 

Amor, fe na arte de amar 
Mais vale o mayor ardor,' 
Ou queima dous coraçoens. 
Ou naõ abrazes a hum fó. 

Entregue a ertes amorofos deliquios eftava An- 
gélica fazendo merecimento de exercitalos, taó 
elevada no laço, a que novamente fe prendia 
a lua vontade, como empenhada em deftruir a- 
cjuelles grilhoens, que jà foraó memoria, e ha* 
je fe conftituiraõ efquecimento , quando aggra* 
vados os funptomas na doença, de que pela 
faudade fe via jà enferma , fe entregou, aos 
efficazes accidentes de que queria antes morrer, 
que farar, que eftes faô os poderofos effeitosde 
hum amor, que impreflb na alma, fica como 
eíla immortal. Ditoza vida , a que naó pode 
ãtrever-fea morte; felice morte, que tem privi- 
légios de eterna vida ! Là fingirão os Poetas i 
Promotheo, prezo com cadeas de ouro , quan* 

tio captiyo, e depois de rcílituido à fua Jiber- 

: — ' dade$ 



Ganhaão pelas armas do Empyreo. 33? 

• 

dade , por confervar a memoria do trato de- 
mageftade, trazia nos dedos os fuzis do grilhão, 
porque o tempo naô eftragafle com efquecimen- 
to a lizonja do refpeito; e daqui fe originou 
ferem fymbolo da lembrança os anéis, com que 
fe adornam as mãos. Naó , como o fabulofo 
Promotheo , mas como ao verdadeiro Príncipe 
do Empyreo, reconhece Angélica prezo nas ca- 
deas do feu amor, e para eternizar a corref- 
pondencia defla fineza fem a malquiftarem os 
defvarios de tanta inconítancia ,° deu todo o 
poder á fé para naô temer eftragos na memo- 
ria, e fortaleza à efperança para confiar, e naó 
fe tornar a efquecer ; e neftes dous Poios, en- 
carcerada a liberdade , eram prizaô do feu pen- 
famento as dividas, com que a tinha penhora- 
do o amor do Príncipe, de que jà naó podiaô 
dividir-fe os fentidos , occupados em taõ alto 
emprego os penfamentos. 

Nefte lethargo, em que a deixou a pene- 
trante feta , de que fe via ferida , faudoía do 
bem, que amava, e ofFendida do tempo, em qué 
no duro penhafco da fua rebeldia, fe ficavaô 
inúteis pelos falfos bens de Babilónia, os que 
fe lhe afleguravaô feguindo as bandeiras do 
Empyreo^ p? r deo na vehemencia da dor os alen-* 
tos o coração , e fem forças no íbfrjniento; cch 
meçou a pedir aos fufpiros nova matéria , em 
quefe avivaíTem as chammas; que amor que fe 
paga do que ama, parecendo-lhe , que haíla , 
pouco tem que allegar no que facrifica. Hade 

hum peito amante kt taõ ambiciofo âas fuás 

a&ivida- 



*3§ Rey no de Babilónia f 

a&ividades , que lhe pareça tibio o incêndio ; 
ainda que a alma fe equivoque com o mefmo 
€ogo, em que arde. Reípírando lavaredas a 
acharam duas formoías Paííoras, que ou por 
myfterio , ou por acazo, entraram a vizitala; 
ambas fabiam atrahir , porque ambas fe davaó 
a refpeitar. Huma fazia gala de pizar efmeral- 
Efperan^ âS ^ prezada fó de apafcentar efperanças. Veftia 
mio&fi. huma roupa verde, perfilada de còr de roza; 
aezê o corpo apertado com huma cinta da mefma 
côr, os cabeltos coroados com huma capela de 
louro , e como quem nos perigofos mares de 
Babilónia efperava fegurar a fua viagem , tra- 
zia por arrimo huma ancora. A companheira tra- 
zia roupa branca , preza com hum fendal , cor 
de fogo. Efta cobria o roftro com hum delgado 
Afèvê volante, e ainda que vinha cega para ver , era 
/<wí>/£cj]y nce p ara penetrar: ambas myfterio de extre- 
mos, porque eraõ extremo os feus myfterios. 
A de verde empenhava amala pelos prémios , 
que prometia , a de branco facilitava impoíli^ 
veis, alhanando dificuldades. 4 Ambas fe fuf- 
penderam vendo o defmayo , a que Angélica 
aos primeiros impulfos desfalecera , e queren- 
do faber de que procedera taó impenfado acci- 
dente, viraô , que ellã o disia. antes de pie* 
guntarlho , refesindo eíte 






no- 



Canhado pelas arma? do Empyreo* 239 
ROMANCE 




_ Uien muriendo efià de amor f 

Y aufente muriendo eftá, 
Solo én publicar, que muere^ 
Pucde la vida encontrar» 

Desfalecido el aliento 

Del golpe ai rigor fatal, 
Toda es defmayos la vidaj 
Que acaba de no acabar. 

Zagaias , fi en mi advertis 
Paliareis, que en mi pezai 
Son vozes de la fineza 
Las mudezes dei afan* 

Si dei amor algun dia 
Llegaíles a expriment^f 
Lo aftivo de una paílion, * 
Que mata fiendo immòrtal í 

Ya que en la florida eftancia 
La verde alfombra pizaisy 
Mirad donde ama una flor, 
Una alma como hade amar J 

Lo encendido dei clavel 
Q ue adora > os puede enfefíar g 
Pues de amor ni lo infenfibte. 
Se libra de fu carcàz* 



Co* 



%& Reynó de Bahihnla , 

Como fe a Berir no baftara 
Una flecha tan fin par, 
Nubcs delias apontando 
Toda el alma herida eftà. 

DeziLde ai que es mi homicida, 
Dezilde fi lc encontrais , 
Que fe atira ai b lanço , en mi 
Ya no ay blanco para mas. 

Dezilde, que a ver fus ojos 
El alma quiere bolar , 
Pêro con alas de cera 
Quien ai foi fe hade acercar ! 

Que buelva a verme, porque 
De fu amorja a£Hvidad 9 
Aunque a la vifta es cenjza j 
Al pecho es ardor voraz. 

Affitn , formòfas Paftoras , ( continuou Angélica) 
vejais conrefpondido o voflb amor , fem que 
o fufto de aufente feja trocedor do cuidado. 
Feri-ome aquelle,- a quem ama minha alma , c 
deixando-me cravada a feta, fe apartou de ver- 
me a ferida. Quando lhe fugi me bufcava , 
hoje que o bufco me foge. A quem hade recor- 
rer meu coração amante, quando atribulado, fe* 
naô ao que abraçou as tribulaçoens por amar 
meu coração ? Por ventura he de bronze a mi- 
nhã tolerância para me dar o golpe, efe efeon- 
*€ v de* 



\ 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 241 

der ao remédio ? Peço-vos , formofas Pafloras , 
que fe o encontrares lhe digais morro de a- 
inor 7 e de aufencia. Dizei-lhe, que entre o 
pezar de naô achalo , he mayor o temor de 
perdelo , porque os princípios do que fuy po- 
dem arruinar o que dezejo fer. 

Goítofas ficaram as duas Serranas de ou- 
vir os amantes extremos, com que Angélica 
defafiogava o que feu coração fentia , e para 
avivar mais o enternecido dos feus effeitos, 
(lhe diíTe a Paflora) que no cândido da gala, 
com que efcurecia os nevados crefpufculos , 
com que a Aurora reparte luzes para vencer 
trevas ; que brilhante apparece , Senhora 
Angélica , o pacifico refplendor do Sol , de- 
pois que, vencido o tenebrofo da tromenta , 
vence o temor que aíTuíla , quando o perigo fe 
reprefenta. Nas encrefpadas ondas do mar de 
Babilónia, naufragante o (òcego, andou tantos 
annos inquieto o voílb animo , jà fubmergido 
nos abyfmos , que lhe ameaçavaó os dezacor- 
dos , jà dezanimado nas contrariedades dos fuc- 
ceííbs, retratando o infame captiveiro , em 
que vivia a voíTa liberdade, aquella lamentá- 
vel fogeiçaõ, em que, pela tyrannia do duro 
Faraó, padeceo em prantos o Egypto o a- 
margò defterro da terra da Promifla-õ, atèquc 
foy a ella reftituido, por beneficio do amor 
mais extremofo. Ifto, que entaõ foy enigmáti- 
co preludio , fe vio atè agora em yòs figurada 
experiência. Foy o voíTb peito impenetrável 
•rocha aos tiros das-fuaviflimas fetas, cem que 

Hh o amor 



24* Reyna de Babilonict r 

o amor do Príncipe vos combatia , e profíacfe 
a fua fineza para ganhar o forte da vofFa von- 
tade, lhe reftkuiítes o dominío , que injufta- 
mente lhe negou a vofla inconfideraçaõ. Day 
agora a vida áfé , jà que de negar lhe a fé fi- 
zefte tantos annos vida, e nao desfaleça o 
voílb alento , que os primeiros golpes íejaó 
d^fmayo das forças ; prefifti como quem ama, 
naô vos queixeis como quem teme , que fra- 
quezas no animo daõ ao inimigo efperanças 
no combate. Amai , ainda que vos martyrize 
a aufencia, que a fé naô tem olhos, e fe trou- 
xeres os olhos na fé nao tereis que fentir na 
íoíidaô. Ao que refpondeu a de verde: Mui- 
to me oíFende quem amando defeonfia : ne-lla 
cega loucura, a que a ignorância chama amor, 
fendo mortal veneno dos coraçoens , incêndio 
fem utilidade nas chammas , inferno do foce- 
go, labyrinto, adonde a razaõ perde o fio pa- 
ra guiar a liberdade, cadea , que prende o en- 
tendimento, e fepuka o difeurfo noabyfmodo 
defacerto, mentira, que faz das infâmias gata, 
e defatino , que captiva o mais importante da 
razão. Seja embora difcripçaó a defcon fiança, 
culpando a falta das viftas como enfermidade 
das finezas, que adonde o padecer he vida, 
naô pode deixar de fentir-íe a defeonfiança, 
que tem femelbanças com a morte, mas em 
hum afFedto nobre, em hum amor, adonde o 
querer jà he poílurr, e o mefmo fogo, em que 
o peito arde, he cryfol , em que fe purifica, 

« a fe&Gvel dor da faudade ditofa pofle da pre* 

fença^ 



Ganhado pelas armas do Empyréo. 24$ 

fença, que queixume pode ficar da aufencia , 
fequem ama fó em amar confegue o que de- 
zeja. Vós , Senhora Angélica , tendes amante 
taô extremofo, que naõ podeis dar horas a 
efperalo , porque a toda a hora podeis velo* 
Vefti-vos da efperança para poliu ir-lhe o Rey- 
110, mas taó conforme na dilação o fofri men- 
to, que ignore o dezejo o tempo, que tarda 
o premio. Bem fey, que o efperar he precifa 
circunftancia para vencer., que nas mais renhi- 
das batalhas fó quem elpera o triunfo , naó 
enfraquece no alento; mas hade fer taô refíg- 
nada a vontade, que nem a confiança alvoro- 
ce, nem o defeonfiar alTufte. Amai atè mor- 
rer , mas naó fe veja, que o voíTo amor he a 
vofla enfermidade. Bem fey , que houve quem 
de amor enfermou , tanto que pedia a cobri f- 
fem de flores, porque morria de amores: re- 
quintai vos efte extremo, pedi mais fetas * 
querendo para novas feridas mais almas, quefó 
nos exceíTos de amar tem liberdade os dezejos, 
para afpirar a impoffiveis. Aquelle grande A- Sa "^ Â - 
fricano, com quem fó podiaô hombrear os Se- ^ mho% 
rafins, para coroar o feu facrificio , dezejava 
fer o que naô podia , deixando de fer o que 
era ; porque íobindo a esfera mais alta (e illuf- 
trafle a vi&ima, que offereeia, por credito do 
que amava. 

Bem conheço, Senhoras, ( refpondeu An- 
gélica) que devo eíter tanto fem jurifdicçaõ na 
vontade, que nem a dor da ferida articule a 
queixa, nem as perinifloens da piedade fe <:p- 

Hhii nh* 



244 Reyno de Babilónia , 

nheçam no alvoroço; efobordinada ao império 
do Príncipe, fe veja no meu rendimento, que 
fó corro por conta do feu favor, porém fe na 
infinito da fua grandeza naô coube o immeníb 
do feu amor, fem paliar as balizas de naõ imi- 
tadas finezas ate chegar a pedir paílaílè delle 
O Horto aquelle amargo tranze , em que entrou em cam- 
panha o feu amor com a fua tolerância. Eu, fem 
mais forças, que as que me repartio a fragili- 
dade do barro, como pode caber na limitada 
praça da minha alma taô ardente chamma [hm de- 
fafogar o incêndio no queixume , por mais que 
do mefmo inftrurnento, que me ferio, feja am- 



biçam para mayor dor a mefma dor, que defe- 
jo augmentar. A' ferida da feta a mefma íeta 
he remédio , mas naõ ha no humano fofrimea- 
to capacidade para aguardala, fem que defmaye 
ao fentila , por mais que fe valha o difcurfo 
de fe veítir de hua efperança , a que a mefma fé 
da certeza deconíeguir exiíte na firmeza de bem 
amar. Ao que refpondeu a Paftora de branco: 
I^itofa aquella , que vifta pelas filhas de Siam, 
lhe deram o titulo de formofa, e a louvam as 
Rainhas , e Princezas da Corte , e perguntam : 
Quem he efta, que fahe das confufoens de Ba* 
bilonia , adornada das joyas mais preciofas dos 
thefouros do Rey , reclinada a feu amado; 
Quem he , que imitando os pados, com que a 
Aurora dà luzes ao dia, he formofa, como a 
Lua , refplandecente, como o Sol , e efpantofa, 
como hum bem formado eíquadram. Èfte, Se- 
nhora Angélica , fera o premio, que alcanceis , 

fe 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 2 45 

fe ás voflas dividas igualarem as voflas finezas. 
Dai cortas ás praças, adonde o enredo he toda 
a mercancia, em que intereflam os feus mora- 
dores. Alegrai-vos,( continuou a Paftora de ver- 
de ) e feja o voíTo amor quem faça ditofa a 
voífa efperança , vendo aquella admirável mo- 
rada do Empyreo , que fabricou o Príncipe pa- 
ra os que bem o fervem. Que gloria fera a de 
entrar por fuás portas , e habitar com os Ci- 
dadoens , que a frequentam. Em feus muros 
refplandece o preciofo das fafiras , as cazas eímal- 
tadas com o luzido dos topázios, e as portas guar- 
necidas de finiflimas pérolas , as ruas do ouro 
de mais quilates , e nellas continuado o fonoro 
das muficas. Ali vive a fortuna fem oppofiçaõ 
da inveja, o defeanço fem fadiga, e o logro á 
fatisfaçaõ da vontade. Fazei por merecer fer- 
vindo, que eu vos feguro, que alcanceis logran- 
do. Defpediraõ-fe as duas Paftoras, e ficou An- 
gélica avivando nos extremos de faudofa as me- 
morias de confeguir oditofo da promeíTa, para 
que queria habilitar*fe/ como veremos 110 mais 
>que paífou. 



CA. 



/ 



Ganhado pelas armarão Empyreo. 247 



1 1 



CAPITULO XVI 

Vencer a culpa he coroa da fineza* 



Padada jà do inverno a fombra adnfta 
Grinaldas vay tecendo o amor mais fino « 
Retrata a candidez das aflucenas ? 
Ternuras imitando dos Jacintos» 



PAra declarar os effeítos do conhecimento 
próprio, pintaram os Antigos de Thracia 
hum Sol com três rayos. Com hum que- 
brava a dureza de hum robufto penedo , que 
invencível aos golpes do tempo , apoftava com 
elle valentias, fem fe render aos combates. Com 
outro derretia hum monte de neve, que conge- 
lada era fua própria natureza, refiftia ao mefmo 
fogo , apagando-lhe as chammas com o li- 
quido humor, em que fe transformavaô as fuás 
ifençoens ; e com o terceiro refufcrtava aquella vi- 
da, que deftiturda dos alentos felhe reprefenta- 
va jà entregue ao fepulcro do efquecimento, e 
novamente reparada a perda, era o mármore, 
em que feefculpiaô do Sol os milagres Jerogli- 
fico do amor fe conhece o Sol neftes três pro- 
dígios, fendo o coraçam de Angélica a lami- 
na , em que elles fe retratam , e de que foy ver- 
dadeira teftemunha , trocarfe em extremos dea- 
mantes finezas aquella dureza de ingratos defvios. 

Ea> 



^148 Reyno de Babilónia y 

Experimentou o Príncipe, na grofleira Aldeaã , 
o tofco da pedra, e naó os quilates de firme; 
os defabrimentos da geada fem as candidezes da 
neve , e a fepultura da memoria fem recorda- 
çam da divida. Tudo venceu o amor, apurado tan- 
to os lances de único, que, quebrado o penhaf- 
co de huma rebeldia, desfeita a neve de tanta 
tibieza, e refufeitada a lembrança de tantos be- 
nefícios , jà era centro do fogo o mefmo peito, 
que foy incontraftavel rochedo. Amanheceu a 
luz do conhecimento , e quebrado o incontrafta- 
vel daquelle inconftante coraçam foy ara para 
o facrificio, a que tinha fido pedra para o ef- 
candale. Desfez-fe a neve com as actividades do 
Sol, e correu em lagrymas de ternura , o que 
fe congelou eíTencia da ingratidam. Reíufcitou 
a morta vida dos benefícios, dando brados à 
memoria para recompenfar a divida. Grandes 
poderes do amor tolerar aggravos para extin- 
guirlhe a origem, fufpender caíligos por uti- 
lidade dos culpados ! 

Fingiram os Poetas nnquelles fabulofos 
empenhos de Apollò , e Daphne , que ofendida 
a grandeza do mentido Deos de naó vencer 
por amante a efquiva condição da Ninfa, a 
converteu em loureiro , por acreditar naô fó 
poderofo , mas vingativo ; tyrannia , que confide- 
rada por elle depois de fuecedida , enterneceu 
tanto feu irritado animo , que com rendidos 
cultos intentava abrandar o infenfivel tronco, 
que tendo antes alma para fugir, agora tem 
dureza para fenaó mover. Trocado fe vê em 

An- 



Canhado pelas armas âo Empyreo. 249 

Angélica efte fucefíb , foy tronco com alma pa- 
ra a refiílencia dos primeiros tiros, e jà vencida 
das finezas do Príncipe, he loureiro com vida 
para acclamar-lhe as vitorias, e branda cera, 
em que fe imprimiram as fetas. Naò a mu- 
daram as iras, venceram nella. as clemências. 
Os aftros, que do Sol recebem mais luzes, fam 
os que eítam mais oppoftosao Sol. Quediftan- 
cia pode haver maior que o amor, e a ingrati- 
dam? Eftava Angélica longe da luz, e para a- 
trahila empenhou efficacias a chama, que efta 
he a fingularidade daquelle incêndio , atear o 
fogo no mais frio mármore. Ay das pedras, em 
que íenaó ateam as brazás , fe cançado o amor 
das fuás inutei§ batarias, deixa ficar as pedras 
para pedras. 

Emendada jà a profia dos defcaminhos , ven- 
cida a vontade de Angélica pela fineza do Prín- 
cipe, entrou ella a deftruir as altas torres, para 
que os Babilónios tinhaô dado os materiaes. Jà 
os fumos da vaidade, que levantou a altivez da 
prefumpçaó, fe tinham desfeito à luz do conhe- 
cimento, e ofFendida a razaõ dos deslizes do dif- 
curfo,deu todo o poder às confiantes refbluçoens 
de feguir as leys de quem fó podia fegurarlhc 
os triunfos, na declarada guerra, que apprefen- 
tava aos feus errados penfamentos. Era o tem- 
po, que deixou de amar, defpertador para fa- 
ber fentir. Jà conhecia as falfas vozes do paiz, 
em que, dormentes os fentidos, fó lhe fica acor- 
do para os enganos; laftimofo perigo, a naó 
haver no amor tam prompto remédio; mas 

li ' con- 



Z$& lleypo de Babihma. 

contra os erros de Babilónia eftavao em cam- 
po os rayos do Empyreo, e naõ difparavaó fe- 
ta,em que naô aproveitaíFem o tiro, fendo ca* 
da ferida em Angélica huma fatisfaçam para 
feu amante ; a quem ella gofíofa dos golpes em 
fulpiros prometia; 




gj* J2j M quanto os rayos do Sol 

meus De Icem a illuftrar os montes »> 

»»«?& E ao claro dia.fe fegue 

cgoiJUo A cfcura fombm da HOÍtc . 

Em quanto as Eftrellas bellas 
Seu curfo brilhante inovem-^, 
Competirá duraeoens 

Minha firmeza de bronze» 

• 

Nas trevas de Babilónia 
Proteftavaô meus horrores^ 
Que a enganos de huma qtiimem 
A quimera conrefpondei 

Jà confiante a minha fé 
De verdadeira bíazone 5 
Que- quem fabe amar f naõ muda 
Quando em amar fe melhore. 

Sereis emprego ao cuidado, 
Que he jufto aflèdfò taó nobre % 
Se adormeceu nos defeuidos^ 
Jà no cuidado recorde* 

Tam* 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 25 1 

Tombem achada eftava a fua fineza no cxtre- 
mofo empenho de acreditar-fe amante, que tu- 
do o que encarecia achava menos expreííaó do 
que defejava , e por defafogo do que fentia , 
continuou dizendo: Amemos, coraçam, fem per- 
der tempo 9 *jà que tanto tempo fe perdeu ef- 
quecida a obrigaçam de amar; e fe o infeníivei 
ama, ou no que obedece, como as plantas, ou. 
noqueemmude.ee, como as arvores, eu com al- 
ma para o fentimenío, com luzes para o dif- 
curfo 5 e com fé para a efperança do premio, 
como defperdiço o em que tanto intereifo ? 
A ingratidão me fez bruto , façame agora ra- 
cional o agradecimento; feja o amor quem ani- 
me a minha vida, ficando-me o amor por alma. 
ApprefFemonos em fervir, que nnõ hà ter vaga- 
res em querer. O Príncipe anticipou o amar 
ao nafcer ; como heide pagar eíta divida , fe- 
naô defejando nafcer hoje para amalo defde 
que nafei. Que lucrou a minha vida em ne- 
gar-lhe a minha fineza , quando devia a fine- 
za começar com a minha vida. Agora que jà 
paífou o inverno das fombras, e principiam as 
flores da razam a matizar a primavera do co- 
nhecimento , femeemos, no jardim do meu pei- 
to , os perfeitos amores, arrancando delle as 
raizes dos azares , que de Babilónia fam ruí- 
nas. Jà, Príncipe foberano, que as cadeas de 
tantos benefícios nao baftarsõ a prenderme, 
e hum cabello voífo baila a prender hum mun- 
do , quebrem-fe do mundo os grilhoens, eem- 
lacem-me comvofco os meus penfauientos pa- 

li ii *a 



2ji Reyno de Babilónia 9 

ra que viva amante, quem de vos foy primei- 
ro amada; e cayam de todo aquelles ídolos, 
a que levantou altares a cegueira , pa fiando a 
verdadeiros tantos errados facrificios. 

AíFrontados fe viam os moradores de Bar 
bilonia das valentias, com que Angélica fe de- 
clarava vencida pelo Empyreo, e defejando el- 
les arruinar a fortaleza do feu animo , maqui- 
nou novas traças a deftreza , que para impoffi- 
biíitarlhe a vitoria , lhe pareciam fáceis atè os 
impoffíveis. Ella tinha voltado as coftas às de- 
Jicias da Corte, e naô podiam levar-lhe o atfec- 
to as que jà pizava faítios do gofto. Inclinava- 
fe mais à folidam dos campos, adonde achava 
defpertadores a memoria , luzes o entendimen- 
to, e incêndios a vontade, naó ficando nafua 
alma acçam , que naô fofle fazer delia ao feu 
amor facrificio , e defendida deftas fortiífimas 
armas , defprezava os afialtos , que algum dia 
lhe foraô tropefos , deixando jà inúteis os mo- 
tivos de tornar a contala por fogeita aquella 
infame coroa, o que advertido pelos feus mi- 
niítros, empenhados em acerefeentar o numero 
aos feus tributários y mandaram, em o iargo do 
campo, a que chamavam enleyo defentidos, pen- 
dente de hum alto tronco eíta letra : 



r> 1 






Ao combate das flores convida 
De Flora o primor , 
Porque vejam que triunfa a belleza 
Dos rayos do Soh 

Al- 



Ganhado pelas armas do Ewpyreo. 253 

Alvoroçou a novidade a todos, fem dar tempo 
a que a confideraçaô fe prevenifTe no perigo , 
que alfim fe perde , cfliem fem advertência fe pre- 
cipita. Eram do fenhor de Babilónia as leys do 
prometido feftejo, e naõ podia acertar as leys, 
quem fegueas do defacerto , guiadas pela von- 
tade. Publicou-fe, para o feguinte dia, o que ain- 
da, fendo para a vifta, jà para a diftracçaô do 
dezejo parecia tarde. Amortalhou-fe o dia nas 
fombrasda noite para refufeitar ao applaufo nos 
rizos da Aurora, que madrugou a guarnecer de 
pérolas o prado , e a veftir as rozas de purpu- 
ra. Largou o Sol o berço das agoas , enchendo 
a terra de luzes, a que eítava ardendo a enve- 
ja do cravo, vendo-fe encendido na galla dos 
mrcizos. Efpinhava-fe o bemmequer nos def- 
dens da mofqueta, e em todo o deftri&o do 
campo eftava a belleza das flores defafiando do 
Sol os rayos, a quem efperava ganhar os tri- 
unfos. Encheíi-fe a verde eftancia de numero- 
fo concurfo , incitado da curiofidade , de que 
também fe venceu divertimento creado , que fer- 
vindo Angélica , lhe tinha jà fido precipício ; 
e levou-lhe a noticia, que jà lhe podiam ter da- 
do as vozes, que foavam em todo o efpaço das 
xuas. Rogou-lhe elle fenaõ negafTe a ver o que 
fá era divertir fem chegar a offender, nem po- 
dia ultrajar refpeitos o que naõ paíTava de en- 
terter as horas *, que deftas cautelas coftumaô 
veftir os perigos, os que vivem de introduzir 
o que fempre para em defpenhar. Acautelem fe 
os olhos y porque fenaô communique o veneno 

A aos 



254 Keyno ãe Babilónia , \ 

aos peníamentos, que nerti 'fempre contra os 
. affaltos eftao promptas asdefenfas. Lembrou-Ihe> 
que ali podia achar os efthnulos a fineza, jà na 
diverfidade das flores, e jà no chrytlalino das 
agoas , que tudo fabia applicar aos feus extre- 
jgusrn tnos, quem fazia galla de ápurallos. Naõ quis 
uaz a e {j a fazer myíterioía a negação , porque ainda 
fe7te P pf- llos exceflbs de amar íe devem precatar osex- 
Ufijeji >ceíTbs, porque a preíumpçam de grandçs, os 
&ura. na ^ diminua pela vangloria, fe os alenta pelo 
conhecimento. Diííe, que hiria ver o para que 
fe abalava tanta parte da Corte., certa^ em que 
a grandeza do Príncipe, que ainda a pequenos 
domicílios dava honras de Palácio, e a íua vi- 
gilância a todo o lugar eftava prefente , o ha- 
via de achar pela fé, como pelo favor o acha* 
va em qualquer parte. 

Eftava a ruftica praça, rodeada de torres 
de frefca murta, efmaltada das fuás naturaes 
flores, e entre ellas outras encarnadas^ que fa- 
ziam papel para o adorno , porem naó para o 
olfato, porque ainda que bonitas, naô eram das 
jafmins cheyrofas. As ruas cobriam alcatifas degraciofo 
da Pí>r - tomilho , cortadas a efpaços deverdes afiemos, 
e por entre e lies, em pequenos regatosjife di- 
vidia hum prateado rio, fervindo de lamina, 
em que retratava o Sol, que eftava pendente 
ds hum cobufto tronco com efta letra: 

De la belleza fiempre 

Mi luz triunfo ; 

Porque no ay hermofura 7 

Que v^nça ai Sol, F r0il - 



fia 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 2^5* 

Fronteiro a efle eftava , em igual grandeza, 
outro, que era throno de feuma cândida Angé- 
lica com efla letra: 

Si hafta ai Cie Io es mi nombre 
Claro blazon, 
• Ya triunfante deí afiro 
Queda la flor. 



Ào fom de marciaes infírumentos fe leraô o$ 
dous dezafios, a que fe feguiraõas acclamaçôes 
dos que, trazidos da curiofidade 3 efperavaê aelía 
fatisfaçaõ na vitoria. Soou acorde a harmonia 
dos inftrumentos, que divididos em dous co- 
ros acompanhava íaô íuave mufiea , que po- 
dia attrahir, ate o infenfivel, o encanto de tan- 
tas animadas Serèas, quantas febre as agoas do 
rio ajudavam o manfo ruido das fuás ondas. 
Cantou 9 primeiro Coro, em defenfa do Sol, efta 

O U T A V A. 

Ã-JÔ Sol eíTa brilhante luz formofa; 
De que a noute foge, e o dia crefce r 
Bordando de ouro a maquina luftrofa, 
Quando a dar vida às flores amanhece, 
Tocha do Ceo , fogueira luminofa , 
Que na eftrelada Esfera refplandece, 
Se o prado fertiliza , e feus primores ; 
Quem duvida^ que o Sol excede às- flores» 

Ap- 



4$6 Reyno de Babilónia f 



Applaudiram os clarins os elogios do Sol , en- 
cheu-fe de vozes o ar, feftejando a bizarria do 
Planeta, que contradiíTe íuavemcnte o íegundo 
Coro neíla 



OUTAVA, 



D 



O prado Eftrella Angélica fer preza , 
Mimo da graça , emulaçam de Flora , 
Que ao mefmo Ceo retrata na belleza, 
Roubando a candidez da branca Aurora 5 
Finezas de Medóro aqui defpreza , 
Que da própria ifençam fó fe namora, 
Se reíifte de amor á feta dura 
Mais que a do Sol, da Flor he a formofura* 

Havia defenfores de huma , e outra parte, vo- 
tando huns pelas flores , outros pelas luzes- 
Travou-fe a profia, naõ querendo ceder nenhum 
dos que a fuftentavaõ , e fó Angélica, dcfcui- 
dada da contenda, tudo deíatendia , entregue a 
memoria a merecer na fineza da vontade os real- 
ces do feu amor. Hum dos maiores Potentados 
de Babilónia, picado de ver, pelos melindres de 
Jiumaflor, pizada a grandeza da fua monarquia, 
fiando da pratica o que naó alcançou a deftreza, 
diffe a Angélica: Que cuidados faô eftes, Senhora, 
que atè de vos vos defcuidam , e nem veres 
ueíia propofta celebrada a voíTa formofum, ou 

como 



Ganhado pelas armas do Empíreo. 257 

como Sol nos rayos, ou como flor nos atnsdti- 
vos, vos diverte taõ impertinentes imaginações» 
A que ella refpondeu : 



Tam confiante o meu cuidado 
Na dor do paliado apuro , 
Que no defcuido affeguro 
A grartde dor do paliado. 



E que lucrais no de que hoje vos efquecels, 
(difTe elle) fe o que foy fenaõ emmenda , naõ 
deixando de ter fido. Dizei-me, para que he 
hum fentimento, que naó tem forças de reme-» 
dio 5 diverti-vos, vendo os extremos comque ven- 
ceis quando em luzes, e flores vos retratais» 
e deixai os futuros ao tenrpo, que elle terá cui- 
dado de punilos , fem que vòs lhe anticipeis 
os golpes no penfamento. Chegay às margens 
daquelle rio , e vereis no chryítal das fuás a- 
goas , que a vòs rende o Sol os rayos , e A- 
malthea os feus tributos; e he mal pagar hum 
obfequio defviaref-vos de ouvilo. Ella , que a* 
mais alto emisferio encaminhava os fentidos, e 
tinha conhecido , que de Babilónia até as cin- 
zas deviam temer-fe, como lavaredas, refpondeu: 
No rio das minhas lagrymas colhi jà as péro- 
las do meu defengano , e lucrey na fua fineza 
o cabedal de que fó faz importância toda a 
minha alma. Nos voíTos campos fó fe acha o 
Veneno no Afpid, o amargo nas fontes, a 

Kk menti- 



2$% Reyno de Babilónia y 

mentira nas flores , a tempefíade nos ares : as 
yoftas feitas fao trombetas da morte , que fem- 
pre tocaó a marchar, cutelos, que cortaõ pela 
vida, e chaves, que abrem os cárceres da eter- 
na pena. O voíTo Reyno he fantafma , que 
formou o engano , apparencia , que rebuça a 
tribulação, ferida fem remédio, e dor, que 
penetra o mais fenfivel do peito. Vede agora, 
lendo efta verdade infalível alicerfe, em que 
fe funda a minha fé , fe trocarey , pelo que 
defprezo , a gloria de amar a quem , mais que 
a fua vida , prezou o meu amor , depondo to- 
do hum império, por me bufcar na Aldeã, 
fazendo-me de montanheza Rainha , e dando 
atè o preciofo fangue das fuás veas para refga- 
te ao meu captiveiro. Muito he iílo para a di- 
vida, mas parece naô he menos amável circunf- 
tancia huma formofura, com quem , compara- 
das as maiores perfeiçoens, he noute o dia, 
he fombra o Sol, faftio o campo; porque o 
campo , o Sol , e o dia , iam producçoens da 
fua luz, e eftimulos para a minha adoraçam. 
Na pyra da Ave immortal , luftre de Arábia , 
enigma de impenetrável fegredo, e maravilha 
da mortalidade, ajunta ella a odorífera lenha, 
e batendo as azas accende o fogo por ambição 
daschammas, em que, com fingularidade, renaf- 
ce das fuás cinzas. Para imitar efte myfterioío 
extremo de amor, eftà a minha confideraçao 
renovando no difcurfo o acertado emprego, a 
que rendi o meu alvedrio, dezejando, que nef- 
te amorofo incêndio arda mil Yezes o meu co- 
ração 5 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 259 

raçaó, para que renafcetido ern cada chammaj 
lhe ofereça em cada huma hum novo facrifício; 
€ fe quereis ver deftruidas , pelo feu poder, as 
fabricas , que edificou a voífa illuzaõ , depref- 
fa conhecereis, que fo reyna quem como eu ama. 

Ja a eíte tempo o Príncipe fe lhe tinha N . 
manifeílado no campo , e poz em ella os olhos dThm 
com tam agradável femblante , que bailara a '* *«*- 
roubarlhe o coração fe já dellenaõ tivera toma- d f> ru ?y 
do inteira poíTe. Saoos impulfos do amor lin- ( ° AQ l 
guas , com que,fem expreílaó de palavras, fe 
explicaõ os afiè£tos nos amantes. Ali fala a ter- 
nura, quando emmudecem as vozes, e o Prin- 
cipe, que em conhecer- lhe os peníamentos efta- 
va taô defiro, nada do que nelles paliava lhe 
ficava occulto. Naõ tem eíle privilegio os que 
erradamente daõ culto a eílà falfa deidade, a 
que a ignorância muda o fer, chamandolhea- 
mor, quando devia chamnrlhe ódio, pelos ef- 
tragos, que obra nos peitos , que fe lhe rendem. 
Foi o dezejo de Angélica pedir ao Príncipe fa- 
vor para caítigar os que temerários lhe que- 
riaó roubar os tributos, e como eílavao jà in- 
feparaveis aquelles dous coraçoens , viviam de 
fiutti mefmo alento , fendo fineza de ambos a 
operaçam de hum lo. Conheceu elle , na hu- 
mildade do rogo , o puro do facrifício ; e por 
moftrar lhe era grato , mandou por hum minif. 
tro feu , que fem perdoar com piedade o que 
devia derrubar-fe por juftiça , naõ deixaíle na 
quelle campo nem veftigios do que fora , e 
nelle fe vifle fó o nada que era. Logo o riofe 

Iík ii ai te- 



26o Reyno de Babilónia* 

alterou, o vento fe embraveceu, cahiram ós 
troncos, que fuftentavaó os dous quartéis ,. e voa- 
rão pelos ares defpedaçados y os que tinhaó 
íidoinílrumentos feílivos. Cobardes os ânimos 
iiavaô da fuga as vidas , fendo o temor efpóra, 
que lhe apreifava os paffbs , defenganada jà a 
temeridade dos intentos, comque determinarão 
vencer, a que, defendida de melhores armas , fe- 
naô deixava conquiftar , e defembaraçada a 
campina dos inúteis eftorvos , que a transfor- 
marão em praça de armas, fe viu nella o po- 
der da obediência aos impérios de íbberano do- 
minia, e rebentando myfterioíamente em faluti- 
feras agoas as fontes, correo manfo o rio, co- 
briufe de mimofas Aífucenas o que tinha fido 
ferra de abrolhos, o vento recreava zéfiro, e 
tudo era fuavidade para enleyo dos fentidos» 
Empenhada novamente Angélica em agradecer 
tanto beneficio , chegou à prefença do Prínci- 
pe , a quem^exhalado em chamas o coração ,.of- 
fereceu a. deixaçaó de tudo o^ que Babilonk 
preza, e de que fe oíende o Empyreo, pare* 
cendolhe, para desempenho, pequeno o^ valor 
de rende^-lhe a liberdade. Colheu do campo o 
cândido de hum as Allucenas , de que fez huma 
jsflòres primorofa grinalda , com que coroou a cabeça de 
tudesvã-^ n amante ,-eeHe a remunerou com outra de mais 
Jem como Subidos quilates ,. tecendo de mayor preço a comq 
$eratas. reciprocamente deixou também coroada Angéli- 
ca , pagando-feos finos amantes , fe defiguaesno 
poder, parecidos na fineza , que tile no favor 
deu pérolas, quando cila lhe oákieceu flores;, e 

co- 



Ganhada pelas armas do Empyreo. 2-61 

conhecendo em fi a falta dos cabedaes , para fu- 
prilos nos aífcdi-os lhe diife eílas 

OITAVAS 



A', Senhor, defpertaraõ meus cuidadoá 
Em tanta ingratidam adormecidos*, 
Nafceram a qucrer-vos deftinados , 
E em cega idolatria os vi perdidos ; 
VoíTa niefma fineza lhe deu brados. 
Porque a tanto favor agradecidos , 



'? 



ConfeíFe o coração com rendimento ^*ZT 

Que he de amor vqíTo amor doce fuftento* 

Dos apparentes bens a prizam dura, 
Qiie o gofto captivavaõ com violência^ 
Venceu a vofTa luz a fombra efcura 
Para mayor vi&oria da clemência: 
Confiante a minha fé vos aflegura 
De Babilónia às leys a refiftencia L 
Que he certo pouco faz quem obedece ; 
Se chegando a vos ver o mais lhe efquece. 

Primeiro fe vera da quarta esfera 
Apagado o monarca refulgente , 
Que no palácio ethereo reverbera 
A luz , que os montes doura no oriente : 
Que meu amor vos falte, quando efpera 
Que accendais vos com fogo o fogo ardente, 
Que o peito, quedas chammas tem enveja 
Hum coracaiu de chammas ter dezeja. 

Ve- 



res 



261 Reyno de Babilónia, 

Venhaõ formofos lyrios , venhaõ rozasi 
Maçãas , e jafmins venhaõ , que ferida 
Minha alma ellà das fetas amorozas , 
Canta- Que quanto mais me ferem, me dam vida: 
Cubram-me de AíTucenas, que cheirozas 
Fragrância vaõ infpirandoà fé unida, 
Arda o peito no fogo, em que fuave 
Imite o coraçam a immortal Ave. 



Naô eram menos a£livos os extremos do Prin* 

cipe, que abrindo todos os thefouros do feU J 

poder , deixava bem premiada aquella rendida j 

fineza*, fazendo, que a fuaviffima aura dosfeus ] 

favores fuavizafle o fogo de tanto incêndio; e i 
quando a liberalidade do monarca , alargando a 

maõ , em que fuílentava a grandeza do feu Rey- j 

no, a enriquecia de mercês, fácil lhe ficava a ] 

inteligência de que, convertendo- fe íeu amado to- 1 

do para ella, devia fer ella toda para íeu a- ] 

rnado , que negar a fatisfaçam , eftando mani- 1 

fèfta a divida 5 íeria fazer-fe indigna d»a clemen- 1 

cia , de que ella dependente logo continuou ] 

dizendo : Sempre , fenhor , e amado meu , fe- I 

reis do meíi coraçam amado , atè que as fom- I 

bras, que efcurecem a mortal vida, ce fiem com 1 

a claridade do eterno dia fem noite, daquella j 
af ^^ c luzíem trevas, daquella gloria fem difconto, 

dks. €m q ue entrando no voílb reyno, livre dos 1 

aíTaltos dos voffos contrários, logre, fem rebu- j 

ço, a voíTa preíença, fendo os minutos, que - 
efte bem tarda, eternidade, que martyriza. 

Bem 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 263 

Bem conheço , que na baixa matéria 9 de que 
fuy creada , naó haveria taõ nobre affe&o , a 
naó fer de vos influído , e que as flores deíles 
amantes fentimentos , a naô ferem pela voíla 
maõ plantados no meu peito, naó teria nellas 
de que fazer-vos facrifício , e aífim como fora 
dezatino defvanecer-fe o barro das perfeiçoens, 
que nelle obrou o oleiro , o feria em que fe 
gloriafFe a minha ruflica vontade, vendo-fe ata6 
alta esfera fobida. 

Deftes adtivos extremos, adornado o cora- 
ção de Angélica , lhe parecia , que ainda para 
viítima era pequena a fogueira , em que fe a- 
brazava, e começou, com mais viva expreíTaô^ 
a dizer 




Ulce amor ] pues fiel teftigo^ 
Eres de mi ardor confiante 7 
Siguiendo tu luz radiante 
Que admitas mi fé configo : 
Logo refpondeu hum ecco: Sigo, 

E profeguio ella: 

Pues que en tus piedades tengò 
Bien cifrada mi ventura , 
Venga en tu favor fegura 
La dicha,a que me ■ pre venga ^ 
Ecco: Vengo 



Si 



s64 Reyno de Babilónia y 

Si de mi amor la centella 
El pecho abraza , cn verdad 
Dime ai mirar tu Deidad, 
Que luz puede haver mas bella • 
Egco ; Ella 

Quieti fu belleza admiro 
Puede dexar de adoraria ^ 
Si folamente en amaria 
Amor Rey fe coronó 
Ecco : Ne 

Si en amaria mereci 
Ver ya laureado mi amor^ 
Eíla dicha es la maior 
Que dei hado mereci : 
Eçço : Si 









Luego amor no defeonfia 
De que acetes mi fineza J 
Si en aras de tu belleza 
La maior dicha confia : 
Ecco ; Fia 



Satisfeita cio myfteriofo ecco^ comque o pia- 
do refpondia aífegurar (que atè os efpaços da 
terra fallavaô pelo fenhor delia ) fe recoíheo faií* 
dofa , porque o Príncipe fe tinha também au- 
fentado aos olhos , ainda que infeparavel pre- 
íiftiaó com elle os penfamentos da amante Al- 
jçjeãa, que guardando as ditas no maisoeculto 

íegredo 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 'i6j 

'fegredo da alma , lhe dava a duração da vida. 
Fazendo merecimento das r.pplicaçoens 
do cuidado, repetindo extremos a ília fineza nos 
defprezos 5 com que jà tratava as a p parentes 
venturas 9 com que os amadores de Babilónia 
offerecem cultos aos feus enganos , paliava An- 
gélica taó fatisfeita de ver , no efpelho da lua 
fé, a pouca duração dos paíTados empregos, 
que dava. agora para pizalos , os meímos paf- 
fos, que jà dera para confeguilos. Era a ília 
memoria o dilatado campo, em que o amor 
tinha íempre armados os íeus penfamentos, e 
rebatendo os golpes contrários no efeudo da 
conítancia, dava ao Príncipe pacifica poíle das 
potencias da fua alma , com afíronta daquellas 
ideas, que, fendo lizonja do gofto, faõ tro- 
peços da liberdade; e cançada das fadigas, em 
que tinha apurado tantos annos o fofrimento, 
fe dava preíTa a reftauralos , fatisfazendo em 
amantes excertos, as dividas a que tinha nega- 
do o agradecimento. De que me ferviraõ , ( di- 
zia ella) tantos difveílados penfamentos, que 
lucrey no defperdicio das horas , em que o en- 
gano de divertilas me introduzia inutilidade a 
ponderalas : ganhava affiicçoens , e poderá per- 
der prémios, fe o amor, que mos prometia, fe- 
naõ offerecera a fi para rebater os rigores do 
caftigo ; fineza taó fem medida , que íó os ex~ 
certos do mefmo amor podem pagala; mas eu 
amo como eu, e feropre he menos o que amo, 
que o que devo, ainda empenhando em amar 
toda a alma > porque naó fique nem huma pè^ 

LI queria 



266 Reyfro de Babilónia* 

quena relíquia, que naô feja pura adoração; e 
deite infalível he teftemunha o mefmo Prínci- 
pe , a quem a minha fé refpeita fempre prefen- 
te , fem que poíla haver diftancia , que lhe oo 
culte os meus cuidados , aífim como á fua vif- 
ta tiveraô execução os meus delidtos ; mas elle, 
de quem jà fenaó aparta o penfamento , fabe , 
que hoje o pezar dá calor ao facrificio , e naô 
defprezarà a vi£tima, por fer menos nobre a 
chamma, que de mim tem a matéria. 

A efta elevação de amantes affe£tos eftava 
rendida Angélica, quando entrou a vifítala hu- 

tric!a'~e m * mu ^ ler ; ^e c l uém e ^ ía ainda que tinha noti- 
c/ír^/cia, naô tinha conhecimento. Era de afpe&o 
^tó«-grave 5 femblante macilento, mortificada vifta, 
vtdos, attennadas forças , fem alinho no traje, e em 
tudo diverfa dos ufos daquella Corte. Trazia 
em fua companhia hum homem , veftido de af- 
peras peles de Leaô, os olhos vivos, a cor 
acceza, as acçoens vigorofas, os paíTos appref- 
fados, o peito armado de duro aço, de que 
também eraõ finco lanças , que na mão trazia. 
AíTuftou-fc a débil Aldeãa com o eftranho da 
vi/ita , e preguntou a que fim a bufeavaó , a 
que elle refpondeu, km confultarmais refpeito, 
que o do feu fervorofo génio : Nenhum de 
nos CdiíTe) vos bufea atrahido dos melindres 
de flor , que nos naô agradaó eífes melindres. 
Naô nego , que nafceíles formofa , mas fe mu- 
daftes o fer , e fó tornando áquelle principio 
podeis parecer a que foftes , fem efta transfor- 
mação me naô tereis nunca voíTo parcial. Com 

n- _: OS 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 267 

os íbcegos naó fe ganhão os triunfos, quan- 
do pelo que valem as coroas , fe devem medir 
as pelejas, naõ para coníeguir o premio, que 
para eííe nunca ha razão no merecimento, mas - 
por reítaurar no esforço das emprezas, o que 
arrifeafte na offenfa das mageftades. Dai-vos 
preza na prevenção , que pode fer hoje a ulti- 
ma batalha, fem alcançares tempo lie fe vos 
dar bom quartel, e hum a vez perdido o aílal- 
to, naó fe recupera o campo. Com finco pe- 
dras derrubou o Profeta Rey o mayor Gigan- David, 
te; com eftas finco lanças, que vos entrego,fa- 
reis utiliíllma oppofiçaó aos inimigos do Prín- 
cipe , fe pela direcção deita Senhora , que me ^«Mr^- 
faz fiel companhia ? entrares na campanha. Níio^l^ 
vos fieis na ternura de huns fenfiveis affe&osij dos beul 
que muitas vezes os avalia a indifcripçaó por Stf«&<& 
inexpugnáveis muros , e para deftruilos baila d * almat 
hum penfamento. Segui os pados de quem naõ 
hade errar os caminhos , porque naó dezandeis 
cega , os que tendes dado acertada \ quando lo 
defpois de moradora no Empyreo , Corte, em 
que vaó habitar os que bem (abem fervir, po- 
deis naó temer-vos dos perigofos enganos de Ba- 
bilónia , que o que o Príncipe vos tem difpen- 
fado por favor , deve empenhar-vos o agrade- 
cimento, mas naó fegurar-vos tanto a confian- 
ça , que vos efqueçais de Áldeaã, crendo-vos jà 
Rainha. 

Voltou as cofias apprefiado, porque tu- 
do lhe parecia perder tgnpo, mas deixou a 
companhia , que trouxe , e Angélica mal co- 

Ll ii brada 



268 Reyno de Babilónia \ 

brnda do fuíto lhe diíle: Naó fey, SenhofS, 
que vejo cm vòs , que eftimando-vos para com- 
panheira, me íbbrefaltais como quem me ha- 
de fer oppofta. Naõ conheço ainda quem íbis, 
mas deíejo ter comvofco amizade por vencer 
o que me atemoriza. Eu, Senhora, ( refpondeu a 
hofpeda ) fempre fou de utilidade aos que que- 
rem acompanhar-fe comigo, porque ainda quando 
lhe pareço de rifpida condição nos primeiros 
dias de praticarme, acham depois Rozas , os 
que lhe parecerão efpinhos. Nos empregos de 
fervir o Príncipe fou taó empenhada , que, por 
fegnrarlhe fieis vaflalos , ando conquiftando al- 
vedrios, e os que lhe negaõ fogeiçaõ , fem 
mira naó tornaõ á fua graça , e ainda defpois 
de alçançala , he precifo fe valhaó de mim pa- 
ra os ajudar a naõ perdela. Em Babilónia te- 
nho grande numero de inimigos, e todos, que 
habitaô aquella Corte, temem encontrar^ fe 
comigo ; mas ainda, que de huns fou aborreci- 
da , também, como remédio, fempre de outros 
fou bufcada. Aquelle homem, que viíles aqui, 
he meu fiel confelheiro nas emprezas mais dif- 
ficeis , que lem me dar as refoluçoens , fe per- 
deria o tempo nos vagares ; ambos afFeiçoados 
á voila prometida conílancia vos bufcamos , 
para que fegureis a fua eternidade, fem lhe er- 
rares os caminhos, que fu poios jà vencidos, 
he cauza de dezandalos , e os ardiz dos con- 
trários para naó defpenharvos neceífitaó de 
cautelas. EíTas íinco a lanças vos podem alcançar 
grandes triunfos, que fe fouberes empregalas 

fem 



Ganhado fblai ârtiias do Ewpyreo. 269 

fem defcuido , cada huma vos ganhará huma 
coroa, epara com inais valentia pelejares, esfor- 
çai o braço no ufo de efgrimir eíTas fere efpa- n r.+ a 
das, que vos entrego, que pode ter arma taõ p/aimos 
efficaz, que corte as fete cabeças da Hydra mais Pf»to*s 
venenofa, que vos ameaça a morte. Coniultai co- cms% 
migo as façanhas da voíTa fineza , que eu vos 
feguro o premio , prefeverando vós no mere- 
cimento. Vencido o temor no importante da con- 
veniência , fe refolveo Angélica a fe entregaras 
direcçoens da confelheira, e taó animola lhe 
fogeitou a vontade, que naô houve dia , em 
que naó tiveffe que allegar ao Principe mais 
hum nos difvellos de fervilo , de que era guia 
a fua fiel companheira : ambas fe davam conta 
do que mais lhe convinha, huma alhanando dif- 
iculdades , a outra abraçando-lhe os impulfos, 
e tanto neíte útil contrato fe adiantou Angé- 
lica, que, pelejando com as determinadas armas, 
fe fez taó deftra no triunfo, que ja a temiam 
os feus contrários, porque lhe cortava as for- 
ças-, quando a inveftiam mais cautelofos. 

Huma tarde , em que as faudades do Prín- 
cipe inflammaraó , com mais a£tividade, os affe- 
£tos do coração da amante Aldeaa , defceju ao 
campo, adonde na amenidade dos flore,?, na for- 
mofura dos prados encontraria , qual outra Ef- 
pofa , o lyrio dos vales, fentada ao pede hum 
copado loureiro, que era gigante guarda de 
hum ferrado bofque, eíleve o feu penfamento 
acerefeentando matéria ao fogo à^i coníidera- 
çaÕ. A mufica das Aves , o brando fopro do 

Zenro , 



lyo Reyno de Babilónia, 

» 

Zéfiro , o fufurro das fontes , tudo incitava a 

confonancia dos fufpiros, e lembrada de que 

jà tinha havido Águia B,eal , que, movida da 

fuave harmonia de huma harpa, camâra ter- 

niífimos fentimentos , Jançou máo da myílerio- 

fa cithara , que com fete cordas faz guerra aos 

O ufo da mayores fete monftros , que fe fomentaó nos 

peniten* abyfmos , e affinando as vozes da dor, fufpen- 

Z1/ az dem os ventos , que levanta a imaginação , e 

guerra . r * n • i • • ° ^ * « 

avsvki* muitas vezes íao naufrágio do juízo. Com efte 
w- bem afinado inftrumento acompanhou os dif- 
curfos com taõ efficazes ponderaçoens , que de- 
zatado o coração nos rios do pranto, o que 
naó declaravaô as lagrymas , foraô exprimindo 
as vozes na cadencia deftas afpiraçoens, a que 
deu calor aquelle penitente Rey Profeta , nos 
enternecidos brados dos feus defenganados fen- 
timentos , em que Angélica quizeftudar como 
havia remir perdidos paíibs , e emendar desli- 
zes , que ponderou neítes 



RO- 



Canhado pelas armas do Empyreo. 2,71 



ROMANCES 



JL/ Qmine , fie in fu- 
ror e tuo arguas me í 



Neque in ira tua 
corripias me. 



Miferere mei Do- 
mine , quòniam infir- 
mus fum : fana me 
Domine , quoniãm co- 
turbatafunt o//a mea, 

Et anima mea tur- 
b ata eft valdé , feâ tu 
Domine ufquequò 



s 



Eííor , pues que tu poder 
Me tiene ya confundido , 
Sufpende el furor, no arguyas 
A mi ignorante delido. 



Efte barro 5 que animafte 
A foplos , mal defendido 
De tus iras, no premitas 
Quede defecho edifício. 

Saneei alma > que doliente 
De mortal achaque miro , 
Que la clemência es remédio J 
Quando es defmayo el peligro. 



Hafta quando frade arraftrar • 
La cadena el alvedrio, 
Sin que dehagan fus hy erros? 
Los golpes de tus auxílios. 

Dexe ya unavezlofiero 
Efte pecho endurecido , 
Que offende la libertad 
Preciãr infame domínio» 



CoÉ* 



Vf± 



Reyno de Babilónia] 



Convertere Domi- 
ne , &* eripe animam 
meam\ falvum mefac 
propter misericórdia 
tuanr 

Quoniam non eft in 
morte , qui memor ftt 
tui : in inferno atitem 
quis confitebitur tibii 

Labor avi in gemi- 

tu meo , lavabo per 

fingidas noâíes leâíã 

meum, lacrymis méis 

ftratum meum rigabo. 

Turbatus eft á fu- 
ror e oculus meus : in- 
veteravi inter omnes 
initnicos meos. 

Difcedite d me om- 
nes , qui operamini 
iniquitatem : quoniam 
exaudivit Dominus 
vocem fietus mei. 



Exaudivit Domi- 
nus deprecatiònem 
meam, Dominus o- 
rationem meamfufcê- 



No d£ mi alma te alexes, 
5 Seíior , y dei labyrinto 
De intrincados defaciertos 
Salga de tu fangre ai hilo. 

^ ■ . 
No fe quede Ia memoria 
Para el ultimo conflito, 
Que es defpreciar tu clemência 
Eíperarla en el abyfrno. 

En ía noche de mis culpas 
De mi llanto Io vertido 
Inudará el duro lecho 
A tolas en mi retiro. 



ConrieíTo, que a tu furor 
Cerre los ojos ? vencidos 
De inimigos , que traidores 
Tracaron el hombre antigo, 

Eflbs profanos contrários 
Se alexen de mi, pues miro , 
Que efcuchó Dios las ternezas,' 
Porque rogaron fufpiros. 

Pues a mi humilde oracion 
Efcuchafte, Seíior pio, 
No me defdenes el ruego > 
Admiteme el facrificio. 

Eru< 



Ganhado pelas armas do Entpyreo. 273 



Ertihefcant, & con- 
turbetur vehementer 
ctnnes inimici mei , 
con r vertantur,& e?u~ 
befcant valdé veloci- 
ter. 



Los que contra mi fe oponen 
Conturbenfe en fu delido , 
Que es afrienta de lo recto 
Prefeverar inimigos. 

Y pues que defpedaçado 
A los golpes de contrito 
Te buíca el Ilanto fiel , 
Olvida lo fementido. 



No defembatnhar defta primeira efpada cobrou Angé- 
lica taô vigorofo alento, que, fern temor de pouco 
deítra , continuou a legunda em fegundo 



ROMANCE. 



B 



Edti quorum re- 
tnijfrf funt iniquitd- 
tes y & quorum teóía 
funtpeccata. 

Bedtus vir , cui 
non imputdvit Domi- 
mts peccatum , necefi 
infpiritu ejus dolus. 

Qubniam tacuijnve- 
teravérunt ojfa mea , 
dum clamarem tota 
die. 




IL vezes , dichofo aquel , 
Que en confufiones violentas 
Efcucha de fus delidos 
Ya remetida la pena. 

Dichofo el que ai tribunal J 
En que hade oir la fentencia, 
Porque íin malícia erro 
Le abfolven de la cadena. 

Callé el deli-lo, ymishueflbs 
En vejez tan defat^nta 
Mal logravnn en mis dias, 
Que clamafe a tu prefencia. 
Mm Qiíq- 



274 



Reyno de Babilónia , 



Ouòntúm die, ac 
noâle gravata eftfu- 
per tne manus tua : 
converfus fum in a- 
rúmna mea, dum con- 
figitttrfpina. 



Deli cí um vieum có- 
gnitwn tibi fiei', & 
injuftitiam meam non 
úbfcondi. 

Dixi : confitébor 
advérfum me injufti- 
tiam meam Domino , 
&' tu remijijli impie- 
tatempeccati mei. 



Mi alma en mortal Jetargo 
Ciega dava en mi dolência 
Excellbs a Ia ofladia , 
Yala cura la tibieza. 

Mas tu azote profiado 

En mi cayó con tal fuerça , 
Que el dolor de las efpinas 
Sano el alma , que era enferma^ 

Ya dei fueno recordada 
De mi culpa la fiereza 9 
Para alcançarmeel pérdon 
Mi confeííionénterceda. 

Qual Publicano peque , 

DirédelCielo a laspuertas, 
Porque un coraçon contrito 
Los mas duros brózes quiebra. 



Pro hac orabit ad Tu clemência invocará, 
té omnis fanâlus in Puesde begnina fe precia , 
témporé opportúno! Que con los Santos esjufto 

Rendida oracion te ofreíca. 



Vertmtamen in di- 
lúvio aquarum mul- 
tar um adeum non ap~ 
proximabunt. 



De ía fé bien doutrinados 
Los juftos , que te celebran 
No los ahoga el diluvio y 
Que tribulento los ferca. 



Tu 



Ganhado pelas armas do Empíreo. 



Tu^s refugiam meu 
à tribulatione , qu& 
circúmdedit me: êxul- 
iatio mea értie me à 
circumdantibus me. 

Intelleâlum tibi 
dabo , &■ in fintam te 
in via hac, qua gr a- 
dieris , firmabo Super 
te óculos me os, 

Nolite fieri ficut e- 
quus.i&miilhts, quin- 
aus non efl intelle- 
6lus. • 

In camo , <frfr£no 
maxillas eorum conf- 
tringe, qui non apro- 
ximam a d te. 

Multa flagélla pec- 
catòris , Jperantem 
autem in Domino mi- 
ferieordia circúmda- 
bit. 

■ 

Láfamini in Z)#- 
<mino& exultate juf- 
ti, & glcriamini om- 
nes redíi cor de, 



V »' V 



De mis affli£hs congoxas 
En ti el alivio fe encierra , 
Socorriendo-me valiente 
Quãdo el cerco mas me aprieta. 



Soberana inteligência, 
En los caminos efpera , 
Quien en tu divino afpe£lo 
Firmes fus bienes anela. 



Nó como los brutos ponga 
Mis cuidados en la tierra y r 
Olvidando la razon 
Les fines , en que intereffa. 

Caíliga finieftros dogmas, 
Nohaya quien refiftir pueda 
Tus iras , y los trabajos 
Freno a los deliílos feaiu. 

A obítinados peccadores 
Las calamidades fercan •, 
Pcro la efperança en ti 
Facilite tu clemência. 



Los juílos fe alegren, pue55 
Miro con intencion re&a , 
Que deve gjoriarfeel alma , 
Del coraçon en la ofrenda. 
Mm ii Aos 



276 



»7 



Reyno de Babilónia , 



Aos golpes di confideraçaõ , quando mais repetidos, 
vence difnculdades a vontade. Batiaõ as verdades ás 
portas do difcurfo, e para nao tornar a ferralas o 
engano, continuou Angélica em efgrimir a terceira ef- 
pada no terceiro 



ROMANCE. 



D 



Ornine , ne infu- 
rore tuo arguas me , 
mque in ira tua cor- 
ripias me. 

Qtèòniatn fagitta 
tua infixa funt miei: 
Ò* confirmajli Super 
memanum tuam. 

Non eji fanitas in 
carne mea dfacie ira 
tua , non eft pax offi- 
bus méis àfaciepec- 
catorum. 

Qttoniam ini quita- 
tes mea fiupergreffa 
fiunt caput meum *, &* 
ficut ónus grave gr a* 
vatafuntfuper me. 



o 



Utra vez a tus piedades, 
Seííor, confundida Ilego f 
Que tu furor no me argua , 
Pide arrepentido e! pecho. 

Ya de tu mano efgrimido 
Tan duro hiere el azero ^ 
Que de la faeta ai golpe 
Se defmayan los alientos. 

Nó ay ai dolor refiftencia , 
Pues de mi culpa ai receio , 
Defecha en polvo me miro 5 
Quando irado os confidero. 



De mis males lo infinito 

Numerado en mis cabelJos; 
Se acaba el numero, y quedan j 
Mas que el cabello y los yerros* 



Ganhado pèJâs armas do Empyreo. ijj 



Putruérunt$* cor- 
rupta junt cie atr ices 
me£ : àfacie infipi- 
entifi mea. 



Miferfaâíus fum, 
& curvatus fum uf 
que in finem : tota die 
contrifiatus ingredie- 
bar. 

QiiGiiiam lumbi 
mei impléti funt Mu- 
fiônibus \ ép non efi 
fanitas in carne me a. 

Afflióíus fwn , &* 
humiliatus fum ni- 
mis: rugiébam d gé- 
rnitu cordis mei. 

Dòmine^ante te om- 
fie defidérium meum : 
& gemi tus meus d te 
Tion ejt abfconditus. 

Cor meum contur- 
batum efi , dereliquit 
me vir tus me a : &* 
lúmen oculorum meo- 
rum , $" ipfum non 
efi mecum. 



Las doiientes cicatrizes 
Parecen ai fofrimiento, 
Infofribles ai dolor , 
Impofibles ai remédio, 

Perturbado el coraçon , 
Fatigado el penfamiento f 
Miro el Sol tiniebla obfcura , 
El dia ocazo funeíio. 



Doliente, turbada, y triííe 
Todo el coraçon enfermo ; 
Aun de mi darío fe burlan 
Los que ven quanto padeíco. 

Ya de mis ciegas paffiones 
Confufo, y humilde el dezeo 
Suenan dei dolor bramidos 
Los racionales alientos. 

Delante de nueftros ojos 
No prefiflen los fecretos, 
Porque labeis los cuidados 
Luego, que nacen intentos. 

Turbado mi coraçon 

Ni a pedir ,ni a daracierto^ 
Vos fabeis lo qúe me importa , 
Yo fé , que de vós lo efpero^ 



Ami- 



278 



Reyno de Babilónia , 



Anici ntei) &* pro- 
ximi mei : advérfum 
me app ropinquavé* 
runt, &fieterunt. 

Et qui juxta me 
erant , de longe ftete- 
runt , & vim facie- 
hant j qui qu&rebant 
animam mecim. 

Et qui inqtiirêbant 
mala mihi \ locuti 
funt vanitates : & 
dolos tota dk medita- 
bantur. 

Ego autemfamquã 
furdus , non audie- 
bam\ & ftcut mutufj 
non apèrtens os J 'ttutn. 

Et faâíus fum fi- 
cut bom ? non audiens: 
& non habens in ore 
fuo redargui iònes. 

Ouoniam in te Do- 
mine fperavi : tu ex- 
audies me Domine 
Deus meus. 



Ya de ampararme fe olvidan 
Los que confidentes fueron f 
Unos cobardes me dexan , 
Otros prefigen feveros. 

Falfificando razones 
Defagradecidos dieron , 
Con ingrata accufacion , 
Defculpaa fu efquecimiento. 



Yo conftante a las injurias 
Callo , y fufro a mi defpecho 
El dolor de los enganos , 
Los males,q contra miurdieron. 



Entre callar; ygemir, 

A las vozes fordo el pecho, 
Siaadtividad la quexa, 
Vive emmudecido el ruego. 

Qual hombre de pedrenal 
Calamidades íufriendo , 
Ni arguir , ni reprehender 
; Eícuchan a mi ardimiento. 

En ti mi efperança vive , 

Que efcuclias mentales ecos « 
Para a judarme eres Diós , 
De quien confio el remédio- 

Qíiia 



Ga nhado peles minas do L wpyreo. 2 1 9 



Qtiia dixi : ne quã- 
do fupergaudeant 
mihi inimici mei : &* 
dum coffhnoventur pe- 
des mei , fuper me 
magna locutijunt. 

Qttoniam ego in fia- 
gella paratus ftim : 
&> dolor meus in conf- 
pe6lu meofeinper. 

Qtwniam iniquita- 
tem meã annuntiabo : 
& cogitabo propecca* 
to meo. 

Inimici atitem mei 
viviint, &* confirma ti 
fimt fuper me : fifx 
multiplicai* fun t,qui 
oderunt me inique. 

Qui retribuuni 
mala pro bonis , de- 
trabebantmihi\ quo- 
niam Çequebar boni- 
tatem. 

Ne derelinquas me 
Domine Deus meus : 
ne difce/feris à me. 



No fe alegren mis contrários 
Otravez, mi dolor viendo, 
Que fia bufcarrecamino, 
De fus lenguas nó me temo. 






Mis contrários inimigos 
Multiplicados falieron 
Del ódio a los uracanes 
A fatigarme defpiertos. 

Avaliando mis deli&os , 
Quieren con airado cefío ; 
Que a los Ímpetos dei mal 
Se entriegue mi penfamiento, 

Juntos me enbíften furioíbs 
Para maltratarme ciertos, 
Multiplicando rigores, 
Defembainado el azero. 



Aggravios por benefícios 
Comigo van difpendendo ^ 
Que dei contrario fe cobra 
Solo el mal dei vitupério. 

Ya que íbis Sol de Judicia , 
Y en las borrafcas me anego} 
Llegen las luzes divinas 
Las tempeílades vendendo. 



^%o 



Reyno de Babilónia > 



Intende in adjutò- 
ri um metim , Domi- 
ne Deus falutis me#. 



Vos fois Dios de la falud , 
Mi pecho, Senor, enfermo 
Sacadle de ceguedades , 
Pues que fe pierde en fftnefmo. 



Com mais conhecimento , ainda que na6 com menos 
temor, continuava Angélica a batalha contra os feus 
penfamentos. Ponderava quanto fobreíalvaó a hum 
homem de taô grande coração fer ingrato a benefí- 
cios, e via, que ella aos que recebia ainda naó era fiel 
conrefpondente , e toy efgrimindo a quarta efpada no 
quarto 



ROMANCE. 




Iferere mei De* 
us , fecundum magna 
mijericordiam tuam % 



Et fecundum mui- 
titúlinem mifcratio- 
num luarum, dele ini* 
quilatem meam. 

Amplias lava me 
ah iniquitate meã ; 
& à peccato meo mun% 
da me. 



L 



A multitud de mis culpas | 
Seííor , para indulto mio 
De vueílras mifericordias 
Bufcan poder infinito. 

ã 

Aunque he perdido la cuenta 
A mis ciegos defvarios , 
Apaguelos tu clemência ? 
No los pongaseneljuizio. 1 

Acaben ya de labarfe 
Las manchas de misdeli£tos J 
Y en el mar de vueftra fangrc 
Queden otra vez remidos. 

Quo* 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 281 



Qtioniam iniquita- 
tem meam ego cognof- 
co\ &peccatum meu 
contra me ejljemper. 

Tibi foli peccavi , 
& malwn coram te 
feci : ut juftificeris 
in fermonibus tais , 
& vincas cum judi- 
caris. 

Ecce enim in iniqtii- 
tatibus conceptus ftl 9 
ç^ in peccatis conce* 
pit me mater mea* 



Siempre contra miefgfimíndo 
Eftá en batalla el íentido , 
Queel peccado, y la memoria 
Dan ai dolor exercício. 

Peque, Scííor, y mi culpa 
Pertende hallaros propicio , 
Y dei raudal de mi llanto 
. Os compadefea el ruído. 






Ecce enim ver Ha» 
tem dilexifti : incer- 
ta 9 d^ occitlta fapi- 
entite tu£ manifeftaf- 
ti mihi. 

Afpergesme hy[fopo 9 
ér mundabor : lava- 
bif me , & fuper ni* 
vem dealbabor. 



Aunque mis yerros a folas 
Del difeurfo eran delírios , 
Siernpre fus daííos tuviron 

1 Vueítrosojospor teíligos. 

En aquel dano primero , 
Mirad 5 que fue mi principio^ 
Y dei peccado me tocan 
Losfimptomasdel peligro. 

Vos Ias verdades nmafles , 
Quando de ocultos prodígios 
Las masdudofas matérias 
Me revelaftes benigno. 



Otra vez de vueftrn gracia 
Me refrigere el rocio , 
Quedara efeurn la nieve 
En competência comigo. 

Nn Au 



2 82 



Reyno de Babilónia , 



Auditai meo dabis 
gaudium& Itftitiam: 
& exultabttnt o ff a 
hwniliata. 

Averte faciem tua 
a peccatis méis : Ó* 
mimes 
meãs dele. 



mi atai ates 

4 



Cor mim dum crea 
in me Deus , & fpi- 
ritum reâíum innova 
in vifceribas méis. 

Ne prnjicias me a 
facie tua , & fpiri- 
tum fanâíum tuum ne 
an feras amei 

Re d de vnhi ͣti- 
iiam fa lutar is tui : 
& [pirita principais 
confirma me. 

Docébo iníquos 
vias tuas: & impii 
ad te conver tentar. 



El eco de vuefí ra voz 
Dulce, alegre mis eidos , 
Porque mi flaqueza cobre 
Aliento con fu fonido. 

No ai horror de mis peccados 
Serreis los ojos, pues miro, 
Solo puede aniquilados, 
Seííor ? vueftro fangre mifmo, 

Crie nuevo coraçon 
En mi eíle poder invidlo , 

Y fe conofea en mi pecho , 

Que vueítro amparo coníigo. 

■ 

No me arroje vueftra face 
De íi , porque en tal confli&o 
El Sol , Ia aurora ] y el dia 
Será noche, horror, y abyímo. 

Bualvafe a mi alma enferma 
Aquel profético alivio 
De efperança faludable y 
A quien claman los fufpiros, 

De vueflra gloria la fenda , 

Y de enfeííar a los impios y 
Porq en mi exemplo conofean 
La ley de vueftros canrinos. 



Libe 



Ganhado pélas armas do Ewpjyreo. 283 



Libera me de f an- 
gu im bus Deus, Deus 

falutis piese : &> êxul- 
taòit língua meajuf- 
titiam tuam. 

Domine, lábia mea 
. apertes \ &3 os mèum 
. annuntiabit , lauchm 
tuam. 



Ya que eres Dios de faliu! , 
Dios, en que íblo confio, 
Libra me de los aííeftos, 
De las fabulas dei íiglo. 






Abrid mis lábios ; Seííor % 
Para que rotos fus grillos , 
A clamar vueítras vitorias 
Sea mi emprego continuo. 



. 



Qtjoniam ft voluif- 
fes jacrificium , cie- 
difjem utique : bolo- 
caujlis non de leal a- 
beris. 

SacYificium Deo 
fpiritus contribuía- 
tus : cor contrittm , 
& humi lia tum Deus 
von defpicies. 

Benigne fac Do- 
mine in bona volanta- 
tc tua Sion : ut <edi- 
Jicentur muri Jeru- 
falem. 



Si de nvi vertida fangre 
Os agrada el facrificio, 
Quiero bafíar vueírras.aras 
De fangre, vertiendo rios. 



Perb ya en el mar dei llanto ? 
En que navega contrito 
Efte humilde coraçon 
La vitiima hé coníeguido. 



Benigna eíTa voluntad 

Moftrad de Sion ai domínio , 
Porque en fus muros profiga 
Dejerufalenloinviòlo. 



Nn ii 



Tnnc 



184 



Reyno de Babilónia f 



Time acceptabisfa- 
crificiumjitftiti<e , o- 
blatioves^ & holocau- 
ta, time impovent fu- 
per a/tare tu um vi- 
tulos. 



Y en ofrenda Religiofa, 
En holocaufto rendido, 
Ofreceré a vueítro altar 
Fuego ardiente, fangre viva» 



Ao psfTo da conftancia , com que Angélica fe ndeftra- 
va no conhecimento do que podiam as armas da con- 
fideraçaõ , para deílruir as maquinas, com que feus 
inimigos a combatiaõ ; crefeia o poder para vencelos, 
valendo-fe do muito, que lucrava nas diligencias , para 
confeguir as vitorias, e continuando em alcançalas, 
pafibu a defembainhar outra efpada, porque os íuecef- 
íbs a naõ achaílem defarmada 



XJ Omine , exaudi 
crationem meam : & 
clamor meus ad te 
veniat. 

Non avertas fa- 
dem tuam d me : in 
quacúmque die tri bu- 
far, inclina ad me au- 
rem tuam. 

In quacúmque die 
invocavero te: velo- 
cher exaudi we> 






JtL Scuchad , Senor , mis vozes j 
Queaunq entre clamores triítes 
El pecho a vos las embia , 
Antes que llege a morirle. 

Mi tribulacion amarga 
Al fofrimiento invenfibte 
Vos podeis remediaria , 
Pues que remiria quiziítes. 

No en vanollegue a invocaros 
Mi voz , pues fe le premite 5 
Que en fé de vueftras piedades 
Toda mi efperança fie. 

Quip 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 



*8 j 



Qíiià defecérunt , 
fictit fumus, dies mei : 
& o ff a mea fiettt cré- 
mium aruérunt. 

Percúffus fíim tit 
fanam 5 ér aruit cor 
meum : quia oblhus 
jum comédere panem 
meum. 

Avocegemitus mei: 
adbtffit osmeumear- 
ni me £. 



Si mi lis faâíusfum 

pelicano jolitúdinis : 

jaélus fim ficut ny- 

âíicorax in domicilio. 

Vigilavi , & fa- 
clus jum ficut pa/fer 
jolitãrius in teóío* 



Tota die exprobra- 
bant mihi initnici 
mei: & qui lauda- 
bant me , adverjum 
mejurabant. 



Deílerrada de In pátria 
Mis dias pafTc infelices , 
Tenebrofa era la luz , 
Humo la dicha apacible. 

Qual heno , en quien el maltrato 
Executa los deslizes , 
Y por negarfeal cuidsdo , 
Que lo pizaíTen, premite. 



El ecco de mis gemidos , 
Voz , en q el pavor fe exprime, 
Hizo que lo racional 
Edifício fe arruine. 

Mi pecho , qual Pelicano; 
Myíleriofo fymbolize 
Trifíezas de folifrario , 
A quien el temor aflige. 

Entregue a mi trifie Uanto, 
Hazeeldolor, que vigie, 
Qual paxaro folitario , 
Que de foledades vive. 

Ya de amigos olvidado 
Solo ai dolor fe premite 
Ver 7 q unos me bufean ciegos 3 
Otros de que llore nen. 



Qui a 



86 



Reyno de Babilónia ; 



Qjtia cinerem, tan- 
quam panem, mandu- 
cabam , & potum 
me um cwn fletu mif- 
cébam. 

Jffacie ir£, & in- 
dignai ion is tua, guia 
elevam allijijii me. 

Dies meificut itm- 
hra declinaverunt : 
& ego Jtcut ftznum 
arui. 

Tu autem Domine 
hi te ter num per ma- 
nes j. ( & memoria le 
tuú ingenerntionem , 

&generationem. 

Tu exurgens mife- 
reberis Sion : quia 
tempus mifereudi e~ 
jus , quia venittem* 
pus. 

Quoniam placué- 
runtfervis tuts lapi- 
des ejus : &• terras e- 
jusmiferebimtut\ 



Enlutado el coràçon 
Haíhel íuííentole oprime, 
Bebellanto, yfe alimenta* 
Del pan de ceniza trifíe 



Entre arnenaça , y favor 
Difpeiifafte, que divize 
Unapiedad, que me exalte, 
Porque mas me precipite. 



mis anos buelan , qual fombra, 
Como para preveni rfe 



,e 



Que a los eftragos dei tiempo ; 
El verdor fe eííerilize. 

Vos, que íbis Diòs ihefable , 

A quien todo el tiempo riride 
La duracion de los íiglos, . 
Sin que puedan decidiríè : 



De Sion os recordais, 

Que eu trifte follofo gime J 
Sin que vueftra piedad nunca 
De r ecuerdo neceílite. 



Sus piedras fueron abrigo 
A los que fíeles te íirven , 
Mas transformadas- en polvo 
Sou de las culpas defquite. 



Et 



Ganhado pelas armas do Etnpyreo. 



207 



Et timebwrt gentes Efcudo a tantos combates 

ncmen íiiwn Domine : Tu noinbrc fegrado erige 

& omnes reges terr^e Fuertedefenía , dequien 

gloriam tua?n. Huya aquel fobeibio Príncipe. 



Otiia sedifcavit 

Domtmis Sion : & 

videb it ur in gloria 
fua. 

Refpexit in oratio- 
fiem humilium ; &* 
non fprevit precem 
eorum. 

Scribanttir h£c in 
generatione altera : 
& populus, qiú crea* 
hiiur , laudabit Do- 
minam. 

Quia profpexit ãe 
excelfo (anelo fuo : 
Dominus de G^elo in 
terram afpexit. 

Ut audiret gemi tus 
compedíiorum : tn 
foheret filios inte- 
remptorum. 



Efte pticblo edificaftes , 
Como foberano artífice, 
Es jufto,que como vueíiro 
Tanto favor fe eternize. 

A fus miferias rendido 

Tu piedad invoca humilde, 
Que para alcaníar piedades 
Siempre el rendimiento íirve. 

De fus deudas Ia memoria 
En duros bronzes eícrive, 
Quecn nueva generacion 
Nueva adoracion dedique. 



Quando de vueftra clemência 
Lavifta ala tierra incline, 
Mandando para remiria 
Aquel cordero pafible; 

Rotos los pezados griilos, 
En que tanto prezo gime , 
Lo que a los padres fue Hanto, 
A los hijos fera timbre. 



Ut 



288 



Reyno de Babilónia, 



Ut annúntient in 
Sion nomen Domini : 



& Lindem 
jferufa/em. 



ejus tu 



In conveniendo po- 
pulos in unum : &> 
Reges ut fervi ant 

Domino. 

Kefpondit et in via 
virtutis fii£ : pauci- 
tatem dierum meortí 
nitntia inibi. 

Ne revoces me. in 
dimidio dierum me o- 
rum : /;/ generatio- 
nem , & generatio- 
nem anni tui. 

In i tio tu Domine 
ferram fandafli : & 
opera vianuuni tua- 
rum funt C^/i. 



Sion, y Jerufalen 
Louvaran tu nombre infigne ; 
Dexando ocioza la fé 
Las rnaravillas viíibles. 

Tu imir.enfidad celebrada 
Severa ím defunirfe 
Defde lo régio elevado 
Hafía las vozes civiles 

Aunque de Ia airada parca 
Mi vida eftrago fe mire , 
Y fe retarde el myfterio , 
Por no merecer quien pide: 









No revoges el decreto , 

Que la efperança marchite , 
Pprque a tu eterno poder 
Nò ay figlo , no, que lo eclypfe. 



De tu mano prodigiofa 
Eflas antorchas reciben 
La luz , que a los elementos 
Puebla por rnyíteriofos fines. 



Jpfi peribitnt , tu 
autem permanes : & 
cm n es ficut vejliraen* 
tum veterafeent. 



Con tan bella variedad 
A la mudança fe rinden ; 
GJue para que uno ajnanefça , 
Es bien que otrole retire. 



Et 



Ganhado pelas armas do Empyreo. 2 £9 



El ficut apertaria 
mutabis eos , fy ?nih 
tabimlur : tu autem 
idem ipfe es j &*. anni 
tui non deficient. 



Siendo en firme opoziílon, 
En que el tiempo fe divide, 
Dei eftrago tmíverfal 
Exploradores infignes 

Vos, en quien mira la fé 
Sois de los tiempos orígen, 
Sin fin 5 principio , ni tiempo, 
Que os pusda poner limite: 

Vueftra gracia le dará 

La luz , con que eterna brilhe, 
Quando a futuras cdades 
El Evangelio predique» 



Titti fervor um tit- 
crum habitabunt : &* 
femen eorum infrfcu- 
lum dirigetur. 

Adiantando merecimentos andava Angélica em fervi r 
o Príncipe, e taõ afeiçoada ao que a podia pôr mais 
deftra, naó perdia dia, em que no ufo das efpadas 
mó accrefcentaíle timbres á fua coroa, que foyenre- 
quicendo com os finos diamantes deites exercícios: 

\J E profundis cia- \J E las pafliones dei alma , 
mavi ad te Domine : Senor, efcucha los males, 
Domine-) e^audi vo- Que a ti el dolor en fufpiros 

Te quiere dar delias parte. 
Del mas profuado dei pecho 
Envuelto en lagrymas fale 
Un ruego, que en tu clemência 
De la efperança renaíce. 



cem iiieam, w 



Fiant aures tus 
intendentes , in vo- 
cem deprecationis 
mes. 



A mis fatigas inclina 

Tu oklo^para que alcanfe, 
Lo tierno de mi oracion , 
De tu petdon las piedades 

Op 



Si 



■ 



2ÇO 



Heyno de Babilónia , 



Si intqnitates ob- 
fervaveris Domine : 
Domine , quis fi/fli- 
nebit ? 

Qula apucl tepro- 
piti atio eft , & prop- 
ter iegem tuam fufti- 
tmi te Domine. 

Sufiinuit anima 
wea in verbo ejus , 
fperavit anima me a 
in Domino. 

A enfio dia matut i- 
na ufquê ad noâíem : 
fperet Ifrael in Do- 
mino, 

Qtria apud Domi- 
nam mifericordia, & 
copiofa apad eum re- 
demptio. 

Et ipfe redimet If- 
rael : ex omnibus 
iniquitatibus ejus. 



Confundido dei temor, 
Receloib de tu ultraje, 
Elcoraçonen tu juizio 
Va empezando a defmaiarfe 

Aunque templado el rigor 
Llegoacrêer, pues reparte 
Al que eftà cerca de ti 
Tu mnnoel mayor realce. 

Oy mi efperança en tu fé , 
Porque fiel fe fennle , 
En tu palavra confia , 
Que no es poífible que falte. 

Ifrael tanbien efpera , 

Que fe le abra el duro carcel, 
Defde que el foi fe fepulta , 
Hafta que fu luz renafee. 

Però de eíTa fuente dulce , 
Quizo amor fe dezataflè 
Copiofa la redempeion 
Al hombre ara favorable. 

Quedara abfuelto tu pueblo 
De losgrillos formidables, 
Que arraftra, como cautivo , 
Todo el humano linagem. 

Muito podemos defenganos, ( dizia Angélica ) quando 
as verdades refplandecem d luz da ponderação. Que 
differ entes vejo agora, do que atè aqui me pareciaó 

os 



Ganhado pelas armas do Empyreo* 29 1 

os cuidados dos Babilónios : mas fe as armas do Em- 
pyreo rebatem aquellas induftrias , como naô haviaó 
poder mais as fuás forças? Naó fique ociofa a ultima 
efpada, que quem tem inimigos á viíta , naõ deve fo- 
cegar nas conquiftas; e com elte penfamento conti- 
nuou o feu exercício , dizendo : 



jjf Omine, exaudi o- 
rationem meam , au- 
ribuspercipe obfecra- 
tionem meam th veri- 
tate tua , exaudi me 
in tuajuftitia. 



Et non intres in ju- 
diei um c um fervo tuo: 
guia non juflificabi- 
tur in confpe&u tuo 
omnis vivens. 

Ojiia toer[ecutus 
eft inimicwf animam 
meam : bumiliavit in 
t erram vitam meam. 

Collocavit me in 
obfcuris , ficitt ?nor- 
tuos f£culi: '& anxia- 
tús efi jtfper me [pi- 
ri tus meus, in me tur- 
bai um efi cor meum. 



x 



A , Senor , que de tu mano 
La luz hermofa criafte, 
Alumbra en mi la tiniebla , 
Que tu refp!endor dehaze. 

A mi laftimado ruego 
No fe niegue tu femblante , 
Que de tu jufticia apelo 
Para el mar de tus piedades. 

No entres con airada mano 
Para fentenciar mis males, 
Que en tu juizio no hallaràs 
Que llega inocente nadie. 

Un poderofo inimigo 
Me oprime com íuerça grave > 
No folo contra la vida , 
Hafta dei alma em dezaire. 

En el mas obfcuro centro 
De la tierra , qual cadáver , 
Mi coraçòri fe conturba ; < 
Que baila refpirar no íabe. 



o n 



Me- 



lyl 



Reyno de Babilónia , 



Mentor fui dierum 
anti quorum , medi- 
tatus fum in dinnibus 
operibus Uiis : infa- 
Bis manuum tuarum 
meditabar. 

Expandi manus 
meãs ad te , anima 
mea r ficut terra, fine 
aqua tjâJ. 

Velociter exaudi 
me ,. Domine , defecit 
fpiritus meus* 



Non a ver tas faciem 
tuam d me, & fimi- 
/is ero defcendenti- 
bus inJacutn. 

Auditam fac mihi 
wifericordiam tuam) 
quia in tefperavi. 



Notam fac mihi 
viam, in qua ambu- 
hm : quia ad te leva- 
vi animam meam. 



Las antigas maraviílas , 
Que por tu mano labraíte , 
La memoria las contempla , 
Sia que la fé las embargue. 



Qual tierra , a que efteriliz* 
Faltar le el licor fua^e , 
Mi mano a ti la eftendi 
Afpirando a tus piedades. 

Al cielo por tantas gradas 
Graciasdaré, fe abrazarme 
En el fuego de tu amor , 
Oy tu compafíion llegaíTe, 

No retardes el oirme , 

Senor, porque en mis pezares 
El coracon desfallece , 
Oprimido en los afanes. 

Aplicame de tus oidos 
La receta faludable, 
Porque nó triunfe de .mi 
Aquella mano cobarde. 

Nole tarde. a mi noticia 
De tu clemência lo afable, 
Que puedo defmereceria f 
Alas tu no puedes faltarme.. 



Eri- 



um 



Ganhado pélas armas cio Empyreo. 293 

Eres mi Dios , e a ti folo 
Deve el alma encaminarfe, 
Porque de inimigos libre, 
Que eres quien puedelibrarme» 

Solo en tu favor confio 
De mis contrários librarme , 
Ya tu voluntad rendida 
Qlvidardlos ultrajes* 



Eripe me de inimi- 
cismeis. Domine, aà 
te confugi , doce me 
f acere voluntatem til- 
am, quia Deus meus. 
es tu. 

Spiritm tuus bó- 
nus dedúcet me in ter- 
ram reâíam : propfer 
nomen iuifíh Domine 
vivifícabis me in a- 
quilate tua. 

Edífcâs de tributa- 
tione animam meam\. 
&* in miferieordia 
tua dijperdes inimi* 
cos meos, 



\ 



perdes omnes , 
qui tribulant ani- 
mam meam ^ quoniam 
tgofervus tuus jum. 



Seia tu favor el norte , 
Que en tan alterados mares 
En el puerto de falud , 
Antes, que en la muerte, pare* 

Acabefemi congoxa^ 
Deftierrenfe mis afanes, 
Y de tus mifericordias 
Mi tribulacion fe ampare, 

El dolor , que alalma aflige^ 
Pues tu íiervo foy , repare r 
Qjje quando a mi me defiendes. 
Es que defiendes tu parte. 









^- 



Naô 



294 Reyno de Babilónia , 

Naô eftava o Príncipe taó diftante ] quedei- 
xafle de ouvir os eccos deitas afpiraçoens ., o- 
brigando-fe das ternuras de que o feu amor, 
fendo dividas, aceitava como merecimentos , e 
vendo, que em Angélica os difcuríos fe alimen- 
tavaó da fineza, determinou hum novo excedo 
de conrefpondela, porque, dobrando os gri- 
lhoens para a prender , lhe naô ficaífe mais li- 
berdade, que para amalo. Falou-lhe com afa* 
bilidade de amante, que nem fempre os fenhos 
do rigor garihaô as mais difficeis emprezas, 
que amor, fabio meílre na arte de amar, pa- 
ra render coraçoens , também ufa das ternezas , 
que faõ muitas vezes as que ganhão as palmas. 
Convidou-a para elevala ao alto throno , de 
que fazia brazaõ a fua grandeza , difpondo-a 
com os importantes avizos para taõ difficil 
aíTalto, e achando-a armada de valor para en- 
trar a conquiftar a coroa, atè dar para confe- 
guila a vida , lhe moílrou os caminhos de fe- 
gurala , e ella , que jà em amar achava mais lu- 
cros, que em temer, deu todo o peito ás fe- 
tâs , ambiciofa dos favores, e lhediífe: 

Jà fei , Senhor, que a voffa clemência faz 
timbre de exceder a minha culpa, e efquecido 
da que fou , quereis darme novo fer , fazendo- 
me a vòs femelhante, naô fó naquelle primei- 
ro principio, em que elevaíles a vileza dobar- 
jaó ro , tomando parte na fua natureza, mas que- 
rendo, que em thalamo igual receba a coroa, 
que na voíía real cabeça fobio tanto de pre- 
ço , que ainda a mais vil efcrava fica com- 
ella Rainha, e por ma teceres de rozas, to- 
mais 



Na En 
carn a 



k 



71 



GanTaSò péTàr armas do Empyreo* 295 . 

mais fó delia os efpinhos. Agora fim , fobera. 
no Senhor meu, que no mageílofo throno 
em que vos adoro, vejo, que igual vos retrato' 
e em taó íublime esfera fe fuftenta a minha ef^ 
perança , naô nos Exes , mas nos cravos , e fi- 
ca para mim premio , o que para vos foy lu- 
dibrio. Agora fim, que colho, da arvore da vida,, 
os fazonados frutos, de que fe alimentam os Ci- 
dadoens do voíTo Reyno , e dos enganofos 
bens de Babilónia canta o triumfo quem com 
vofco reyna. Aqui nas chammas de amor ar- 
dendo effe odorífero knho , fe purifica a mi- 
nha fineza, para que de vos fique o meu co- 
ração hum fiel treslado. Dizem , que fe fe afi~ 
naõ, em igual diftancia, dous inftrumentos acor- 
des, quanto em fuaves eccos fe efcuta em hum, 
naturalmente em outro fe percebe. Efta myf- 
teriofa fciencia , de que me dà liçoens o voíTo 
amor , fe ve em mim praticada neíla Real ca- 
deira , com pontos de augmentaçaô nos meus 
fentidos , e afinados, os contrapontos na dor 
dos perdidos annos, que foraó da cegueira eílu- 
dos, me moftra o tempo, na pratica dos def- 
prezos , que fó em os confiderar intereiío. Ja , 
Senhor, fam outros os meus cuidados , e derru* 
bados os idolos , a que offereciam culto os penfa- 
roentos , fe defvanecerao os funeftos fumos, q 
traziam enredados os difcurfos, ficando o cora- 
ção na fombra defie faudavel lenho tam outro 
para as verdades da fé v que por ella quero 
dar os últimos alentos da vida , e batendo as 
azas do conhecimento fe abraze o meu peito , 
qual amorofo Fénix , que accende no ar dos 

fuf- 







Reypo de Babilónia. 



H 



«í 



■ 




K 



H 



fufpirGs a .lavareda , em que fe queima , athè 
que, deixando a antiga morada renafca para me^v 
lhoremisferio, e logreapofle, de que hoje fó v 
tenho a efperança. ri 

Era o Príncipe chryllalino efpelho , em q * 
Angélica começou a adornar-fe para o dia das v a ■ 
- vpdas, veítindofe de ta$ femelhantes gala$ , v \ 
S. ^uIog Ue em ditofa tranformaçaõ podia dizer: Eu, v^ 
\ nao vivo fó , porque o Príncipe vive em mim }>i^ 
e nefta prefeverante uniam fe habilitavaõ os^ ^ 
extremos , a que jà, a impulfos da fé, fabia nao < A v. 
atreverfe lhe os contrários ,temerofos de ficarem v & 



\ 






\ 



V 




do furor efgrimidas , que tudo vence , ã 
quem da mageítade le ampara. Confiem nos^N 
mais árduos çombateç ainda as mais debilita-'* ^ 
das forças, fe para a*|!teleja desembainharem a ^/-n; 
quellas feteçfpadas, que coftumaõ ganhar asco- v 
roas. Aprenda a omiííaó a imitar os vigorofosr\ '* 
paíTos , comque íe conquiftaó os fceptros^ ,^ 
que para premiar ferviços eftaõ abertos os thezou- 
ros 5 e depois das batalhas faõ gloria as lidas, AífimíV 
continuou Angélica bem achada nas novas empre- .^. 
zas, corno quem jà tinha tomado o pulfo ás falidas' "V 
yenturas , de que fó os moradores de Babilo- v !\ 
nia fazem importância ; mas nao fefiem os def- \ to 
cuidos , de que a toda a hora fe abre a porta 
ao requirimento , que quando, a rebeldia pren- 
de para o rogo, fó a jultiça featencêa a.cauza. 

fim 4-M-U 








•5* 







Á 



M 

mm 



* »>